2021/12/03

COISINHAS FOFAS

A vida não pára e nem o malfadado vírus do Covid conseguiu impedir os movimentos dos ponteiros do relógio. Mesmo em regime de confinamento ouviram-se cânticos de parabéns e alguns aspirantes a cantores que, de tão desafinados, provocaram algumas rachadelas nos prédios em redor. Cá por casa (arrisco escrever) também houve actividade sonora, se bem que, restrita às notas mais agudas. A cegonha trouxe de França, poucos dias antes do estado de emergência, um petiz embrulhado num lençol e, desde então, temos vindo a cuidar dele. É pequeno, dorme quase todo o dia e, mais importante, não suja a casa! O maior incómodo é a capacidade vocal para atingir as notas mais altas por um longo período de tempo. Uma caixa torácica pequena, mas de grande alcance. Há dois cenários possíveis para conseguir suportar todas estas coisinhas fofas – recordo que não sou especialista em pediatria – comida ou passeio. Caso optem por encher-lhes o bandulho não esqueçam que, o mais certo, será voltar a ouvir os berros no fim da refeição: ganham uma otite aguda e um pequeno Buda. A solução mais adequada será passear no exterior… 
 
O carrinho de bebé tem as rodas de borracha praticamente gastas. Tivesse um conta-quilómetros e, de certeza, assustar-me-ia com o número. Mas, o ar puro, mesmo em regime pandémico, é favorável à manutenção da minha lucidez. Sentimento partilhado pelos restantes adultos que, num acto de plena loucura, resolveram aumentar o agregado familiar e agora não perdem uma oportunidade para fugir de dentro de casa. Basta olhar em redor para ter noção da quantidade de pais que empurram os seus rebentos pelas ruas da cidade. Sinal revelador de uma elevada taxa de natalidade. Um pequeno ser frágil, indefeso, extremamente barulhento que tem o dom de encantar os que, com ele, se cruzam. Porque um carrinho de bebé atrai o olhar dos mais curiosos. Os que já tiveram ou os que ainda não se decidiram – mas, mesmo assim, vão treinando ocasionalmente – aproveitam a oportunidade para espreitar o petiz, tal como os Reis Magos. Prendas é que nem vê-las! Uma enxurrada de fofura instantânea que deixa os papás rendidos e, por alguns momentos, até esquecem o trabalho que o sacana do puto dá! Nunca soube responder condignamente aos elogios e, talvez por isso, deixe essa tarefa para a mãe. Porque quando as senhoras dizem que é tão querido, fofinho e que gostariam de ter um assim, sinto vontade de oferecer os meus préstimos e satisfazer-lhes a vontade! Em nome da natalidade, claro. Nada mais.
 

2021/10/15

A PRIMEIRA VEZ NA COZINHA

Os leitores com espírito mais ordinário vão ficar desiludidos antes do final desta frase. Lamento mas, tendo em conta o elevado nível de respeitabilidade deste trabalho, a única coisa a ser despida será o alho. Já lá vamos! Confesso que, talvez influenciado pelos diversos programas televisivos de culinária, perdi o receio e resolvi enfrentar o robot de cozinha que habita cá em casa. Mesmo sabendo que a apólice de seguro não cobre danos patrimoniais provocados pela minha aselhice, aproximei-me da “Bimby” (se algum representante da marca estiver a ler, agradeço o pagamento da publicidade) e, pela primeira vez, preparei uma refeição digna. Já tinha tentado ovos estrelados mas a casca é um obstáculo fortíssimo e, como tal, foi junto com o prato. Desta vez, com recurso aos avanços tecnológicos, consegui algo comestível sem qualquer vestígio de destruição patrimonial. Contudo, quero deixar claro que esta crónica não deve ser considerada um manifesto pró-homens na cozinha! O aviso “não façam isto em casa” ecoou na minha consciência durante todo o processo e mesmo assim não lhe liguei nenhum… 
 
Depois de ultrapassar a terrível dificuldade de conseguir ligar a máquina, foi apenas necessário seguir as instruções no visor. Parece simples. Porém há termos melindrosos e artimanhas destinadas aos chef’s menos preparados. Começa logo pelos nomes técnicos dos acessórios: copo de medida, borboleta, varoma e outros. Absolutamente incrível! E depois há a questão da sensibilidade: não quero ser machista, mas aquilo foi concebido para o toque feminino. Errei sempre, por excesso, as gramagens indicadas. E ainda bem que tem incluída uma lâmina, porque seria fisicamente impossível conseguir tamanho grau de precisão depois de descascar alho (leiam lá outra vez!) à mão. Consegui introduzir o esparguete mas quase tive de lhe partir as pernas! Provavelmente a água estaria demasiado quente e o infeliz não achou ser uma morte digna. No final – e supervisionado pela minha esposa, claro – lá consegui expor o meu talento culinário numa travessa. Confesso estar orgulhoso por ter vencido este famigerado fantasma do passado. Infelizmente, a minha esposa queixa-se que, desde então, a máquina tem feito ruídos estranhos.
 

2021/08/06

TÁCTICAS DE CUSQUICE URBANA

Depois da fome e desejos carnais, a cusquice é uma das necessidades básicas do ser humano que, tal como as anteriores, deve ser satisfeita com regularidade. Todos temos carências informativas, embora uns tenham mais que outros. A revolução digital abriu as portas do mundo aos grandes especialistas da vida alheia. Alguns afortunados conseguiram lugar de destaque com programas televisivos, onde aprimoram a arte do escárnio social e com direito a audiência. Porque a vida pessoal dos outros é equivalente à notícia da invasão do Kuwait e, como tal, deve ser do domínio público. Porém, mais que criticar hábitos, roupas e extravagâncias das figuras públicas, é a observação popular diária (alcance da vista) que aguça o engenho dos cuscos – até porque as figuras públicas (vip’s) querem lá saber do falatório (má-língua) das velhotas no mercado local. Agora, a lambisgóia lá do prédio, essa sim, merece levar porrada e ser alvo de forte bullying predial: viram-na agarrada a um rapaz que parece filho dela! E sabiam que a viúva do 2º andar trocou a mobília do quarto?! E o magricelas do 4º andar, que anda sempre com nódoas nas calças por causa dos comprimidos azuis?! Foi o farmacêutico que contou... 
 
Seguramente, enquanto leram este parágrafo, já identificaram alguém que encaixa neste modo peculiar de vida. Aliás, as alcoviteiras estão em todo o lado, como as moscas. Há dias, uma destas alminhas passou em frente da esplanada do café. Agarrada ao seu xaile, nem tinha intenção de entrar ou gastar dinheiro. Contudo, reparou que, na mesa do fundo, estava alguém conhecido com o braço ao peito e nem pensou duas vezes. Num golpe de ninja colocou-se junto dela para aplicar o ataque característico da malta das vendas por telefone: falar depressa e sempre a disparar perguntas! Como fez isso? Quando? Dói muito? A pobre senhora não conseguia tomar o pequeno-almoço, pois nem tinha tempo de completar as frases. Com uma expressão maquiavélica – como o boneco no “Senhor dos Anéis”, que julga que todos lhe vão roubar o precioso anel – conseguiu, através das respostas da vítima, satisfazer parte da sua infinita curiosidade. Aliás, atrevo-me a partilhar a dica com a malta do Ministério que tutela as nossas forças policiais: recrutem estas velhotas, especialistas em tácticas de cusquice urbana! Qualquer meliante, numa sala de interrogatório, perante estas senhoras de bata e xaile aos quadrados, não hesitaria em confessar qualquer crime, mesmo estando inocente! Agora que penso nisso, admito que seria desumano.
 

2021/05/07

REGRESSAR À MECA DO COMÉRCIO

Finalmente – para aqueles que não morreram – ficou tudo bem. O novo dia da (tão desejada) liberdade chegou e, desta vez, nem foi preciso recorrer às forças armadas, invadir o Rádio Clube Português ou colocar cravos em armas. O governo aprovou as medidas para a última fase do desconfinamento e, como tal, nem o estado de emergência foi prolongado. A nossa vida volta ao ritmo frenético de outrora. Apenas a ausência de público nos estádios de futebol é motivo de desânimo entre os adeptos mais fervorosos. Mesmo assim – de acordo com as últimas notícias – houve registo de confrontos entre membros de claques. Nada de novo. Muitos substituíram a ida ao futebol pela visita ao centro comercial! Até porque, em alguns casos, estão mesmo ao lado do estádio. Milhares de pessoas concentradas num único espaço em busca das pechinchas de última hora. Outros com artigos para devolver desde o Natal e alguns só a deambular pelos corredores numa clara atitude de mete-nojo! Importante é fazer parte deste mundo consumista e, escusado será dizer que, também fui arrastado para aquele antro de perdição…
 
Tenho de mencionar a loja de vestuário mais procurada: a Primark (apesar de não receber nenhum cêntimo pela publicidade) que, inclusive, tem uma escada rolante privativa! Para além de permitir o acesso directo do piso de estacionamento serve para esconder a fila de acesso à loja. O potencial comprador, mesmo que não tenha carro estacionado naquele piso, desce e aguarda pela indicação para subir, percorrer o labirinto e chegar mais perto da entrada. Caramba, tendo em conta a quantidade de pessoas que se sujeita a tamanha gincana, os artigos devem ser de qualidade superior! Como não quis chegar à idade da reforma, retido naquela fila, optei por visitar outra loja de roupa. Um espaço amplo, bem iluminado e bastante sossegado. Até porque o único funcionário (para além do caixa) estava mais interessado em arranjar as cruzetas nos expositores que em ajudar os clientes tresmalhados. Confesso ter dificuldade em perceber esta teoria do trabalho. O culminar da visita teve lugar na praça de alimentação na banca da (sempre saudável) comida de plástico! Foi assim o regresso conturbado à meca do comércio. Com confusão, aroma a brisa do sovaco, pouco profissionalismo e colesterol elevado. Ah! Que saudades.
 

2021/03/01

O ÓPIO DOS MIÚDOS

É numa mistura de raiva e arrependimento que penso no fatídico dia em que eliminei a mensagem – de uma instituição qualquer – com um número de telefone para aconselhamento psicológico grátis (não faltarão médicos da especialidade, mas este era grátis!). Esta nova rotina diária veio alterar severamente a nossa sanidade mental e, mesmo não sendo assim tão importante, ainda está dentro dos valores razoáveis. Porém, passar os dias confinado em casa, em regime de teletrabalho, acumulando funções de “baby-sitter” e empregada doméstica é, basicamente, algo que reduz a minha esperança média de vida. Urge desabafar com alguém antes que comece a sentir impulsos homicidas e tenha de ir para a rua furar o confinamento! Porque, no meio desta equação doméstica, a situação agrava-se quando a televisão fica retida – por motivos alheios à minha pessoa – no malfadado Canal Panda. Pensei que a questão das lavagens cerebrais tivesse ficado esquecida nos anos 90 durante o apogeu da Igreja Universal. Afinal o fenómeno está de volta…
 
Tirando partido do ritmo acelerado da vida dos adultos – e sua falta de paciência para aturar os caprichos de um pequeno ser – a tendência é sacar do telemóvel (ou qualquer coisa que tenha ligação à Internet) e silenciar o petiz, mesmo contrariando os conselhos dos pediatras e oftalmologistas. Perante o risco imediato de uma otite, a paz de espírito providenciada pelo YouTube é algo que vale a pena correr o risco. A malta responsável pelo Canal Panda viu um nicho de mercado inexplorado e tratou de arranjar umas músicas trolaró e – como uma desgraça nunca vem só – encontrou uns personagens a condizer. A mesma força que levou os milhares de fiéis ao Estádio do Belenenses para entregar dinheiro aos pastores, é usada para fixar o olhar dos putos (ou meninas) ao ecrã. Nem pestanejam. E o pior é que as músicas ecoam na nossa mente e, sem aviso prévio, damos por nós a cantar a música do quadrado, cowboy ou chaleira! Eu não disse? Aquilo é coisa para nos afectar psicologicamente sem darmos conta. Ainda há dias, perante a manobra de um condutor aselha, dei por mim a abrir o vidro para soltar um insulto valente e bem masculino. Enchi o peito de ar e gritei: “Macaco Xingú”.
 

2021/01/01

O INÍCIO DA SALVAÇÃO

A prenda no sapatinho – para os mortais que escaparam ao Covid-19 – foi a promessa da chegada da vacina. Atacamos o bacalhau (e restantes doçarias) com uma réstia de esperança oferecida pelos laboratórios da Pfizer. A 27.12.2020, a promessa concretizou-se e teve início o processo de vacinação em toda a Europa. Num esforço logístico – sincronizado por todos excepto pela Alemanha, que se adiantou um dia – vários profissionais de saúde foram picados com o líquido milagroso. Existe uma lista com indicação dos próximos a salvar (perdão, vacinar) e, seguramente, é compreensível que se concorde ou discorde dos critérios e escolhas tomadas por quem nos governa. Cada um de nós faria de maneira diferente: os portistas jamais vacinariam os rivais e os comunistas nunca dariam a vacina aos da extrema-direita. São alguns exemplos. Se estão dispostos a tomar (ou não) é um direito que vos assiste e, como tal, não vou perder tempo com isso! O meu olhar sarcástico prende-se com as atitudes exageradas de quem deveria impor alguma calma e serenidade… 
 
As vacinas foram armazenadas numa plataforma logística que teve um aparato policial nunca antes visto! Fosse assim nos restantes dias e o Correio da Manhã não teria desgraças para mostrar! No Hospital S.João, a cerimónia estava marcada para as 10:00 horas. Como deixamos a pontualidade para os Ingleses, o primeiro voluntário (da lista) chegou atrasado. Em sua defesa, posso ter em conta que o indivíduo não apareceu sozinho. Comunicação social, ministra da saúde, assessores, directores do hospital e outros engravatados, todos quiseram marcar presença. Fosse a vacina dada no traseiro e a notícia (com teor pornográfico) levaria o dito cujo do senhor por todo o mundo. O grau académico não ficou esquecido! Por cá, é demasiado importante e antecede o nome. Uma forma de reconhecimento pelos anos de estudo e sacrifício a queimar pestanas. Como tal, foi com perfeita normalidade que o primeiro a ser picado tenha sido o senhor director do serviço de infecciologia. Nos outros países ignoraram os estatutos! A classe médica aplaude, a classe política rejubila e o povo espera pela próxima jornada do campeonato. De acordo com as estatísticas 25% da população não quer ser vacinada. Talvez, quem sabe, seja por este desinteresse que estejam no fundo da lista da salvação! Enfim, tivessem estudado.