2026/10/16

EXTORSÃO À MESA DO CAFÉ

Fazer vida de cidadão comum em Portugal transformou-se numa modalidade financeira de alto risco, onde a mera subsistência exige dotes de acrobacia contabilística. Enquanto a inflação cavalga desgovernada e o custo de vida atinge patamares dignos de ficção científica, os salários nacionais permanecem de tal forma petrificados no tempo que parecem protegidos por uma comissão do património cultural. Do supermercado à factura da electricidade, tudo subiu a um ritmo alucinante, mas é na restauração que a extorsão atinge contornos verdadeiramente dramáticos. Hoje em dia, entrar num café para tomar uma simples bica e comer um pastel de nata exige a mesma coragem financeira que comprar um lote na Quinta do Lago. O leitor atento já terá reparado que o cidadão médio caminha pelas vias públicas com mais pavor de se sentar numa esplanada inadvertidamente do que de cruzar-se com um bando de meliantes numa viela escura; na rua, o assalto é uma eventualidade infeliz, mas ao balcão a limpeza da carteira é uma certeza matemática garantida — e passada com factura e número de contribuinte. 

Com o pretexto omnipresente da crise global e das flutuações dos mercados, os preços sobem à velocidade da luz, mas o recheio das nossas algibeiras continua teimosamente fixo na era do escudo. Aventurar-se num restaurante para um jantar banal tornou-se um exercício de masoquismo económico, em que a leitura do menu se assemelha à consulta de uma lista de licitações de obras públicas. E o mais angustiante deste espectáculo grotesco é a absoluta ausência de um final feliz no horizonte. Escorados na resignação típica do tuga, assistimos impávidos a este encarecimento sistemático da existência, cientes de que a única coisa que não aumenta é o valor do nosso trabalho. Resta-nos a amarga consolação de ir encolhendo os ombros enquanto pagamos a conta, sabendo que, a este ritmo, num futuro não muito distante, o simples ato de respirar o ar da esplanada virá discriminado na taxa de serviço como um extra de luxo.

2026/10/07

A PÁTRIA DAS CHUTEIRAS DEFUNTAS

Decorre a Liga das Nações e, contra todos os prognósticos da nossa desgraça de estimação, a selecção soma quatro vitórias consecutivas a jogar bem e bonito. Mas ser português é isto: uma miséria moral crónica que prefere o desespero da calculadora à harmonia do relvado, onde o terço e a contabilidade das dores continuam a ser extensões anatómicas das nossas mãos. Vivemos num folclore perverso e bipolar, incapazes de celebrar o mérito colectivo porque nos falta a habitual montanha-russa emocional da desgraça iminente. Preferimos a ilusão de ver uma glória caduca a arrastar-se em campo — ultrapassada por um camelo e tão útil quanto uma viola num funeral — só para manter o culto da personalidade. Elevamos o passado ao estatuto de fetiche intocável para, na prática, boicotarmos o presente brilhante que temos diante dos olhos. O futebol entre nós deixou de ser sobre bola na rede para se converter numa feira de vaidades, onde a lucidez é sacrificada no altar do egocentrismo.

Por entre este circo de bancada, emerge a ironia bizarra de uma nação que parece desejar a própria miséria desportiva. Subitamente, o bom futebol e as exibições convincentes tornaram-se um embaraço para os órfãos do drama, que invocam agora uma alegada dívida eterna de gratidão a Ronaldo por "ter dado a conhecer Portugal" ao mundo — como se a nossa existência dependesse de marcas comerciais e golos de outrora. Neste particular campeonato do absurdo, chora-se a ausência do caos enquanto se exige veneração messiânica, esquecendo convenientemente o verdadeiro fundador da Pátria. Se a memória nacional fosse justa, esse agradecimento estaria reservado a D. Afonso Henriques, que à bofetada e à espada rasgou os limites desta nação, mas de quem ninguém parece lembrar-se na hora de prestar vassalagem. O mérito e a entrega dos que hoje correm e encantam no relvado mereciam certamente mais respeito do que esta pequenez tacanha que deseja o fracasso da equipa só para alimentar o ego de quem já não tem pernas para o jogo.

2026/09/08

SOBREVIVER À BRICOLAGE

A minha esposa, num daqueles acessos de organização que costumam ignorar a minha crónica preguiça, resolveu que a biblioteca cá de casa precisava de ordem e insistiu na colocação de uma prateleira. Depois de semanas de apelos sistematicamente atirados para o fundo da minha gaveta de prioridades, cedi; como verdadeiro macho latino — um Alfa auto-proclamado, mas munido do talento manual de uma foca amestrada —, assumi o desafio de entrar numa aventura para a qual não tenho o mínimo jeito. A coisa prometia simplicidade: um pedaço de contraplacado, quatro parafusos e um manual sem palavras, pensado para ser entendido por qualquer ser com polegar oponível, mas, meia hora depois, a sala parecia o cenário de um terramoto em escala reduzida e eu tentava perceber por que razão me sobravam três cavilhas e uma peça metálica parecida com um componente de um Boeing 747…

Imbuído de uma coragem digna de nota (e de uma recusa liminar em admitir a derrota perante a minha cara-metade e um folheto ilustrado), decidi aplicar a força bruta, resultando num estalo seco, num buraco na parede que agora me permite acenar ao vizinho do lado e numa estrutura com uma inclinação de trinta graus onde, se colocar lá um livro, me arrisco a provocar uma avalanche na sala. A patroa olhou para o desastre, suspirou fundo e abanou a cabeça perante o triste espectáculo, mas eu mantive a pose de líder da alcateia e soprei para o pó com um orgulho quase poético: a prateleira não ficou nivelada e os livros vão continuar empilhados no chão... mas, caramba, pelo menos a sala ganhou uma ventilação cruzada invejável!

2026/08/11

OS DALTON DO HEMICICLO

A vida política do nosso burgo tem o dom extraordinário de imitar a banda desenhada, transformando o hemiciclo parlamentar numa caricata versão do Oeste Americano. No centro do picadeiro, a bancada do Chega funciona como uma espécie de bando Dalton à portuguesa, onde o hiperactivo André Ventura encarna com mestria a figura de Joe Dalton: o líder baixinho, raivoso e em permanente estado de tensão, vocacionado para engendrar planos mirabolantes que, com admirável regularidade, terminam num redondo fracasso. Ao seu lado, a fiel quadrilha completa o figurino da desgraça: Pedro Pinto assume o papel do truculento Jack, sempre pronto a erguer a voz perante os microfones; Pedro Frazão encarna o entusiasta William, perito em tropeçar nas próprias palavras nas redes sociais; e Gabriel Mithá Ribeiro veste a pele do gigante Averell, distraído com devaneios teóricos enquanto o bando tenta assaltar o comboio da opinião pública. Por mais que esboce estratégias para derrubar o sistema ou subjugar as instituições, esta trupe de saloon parece condenada a um destino trágico de comédia, onde cada grande cartada política acaba invariavelmente por explodir nas mãos dos próprios executantes.

O mais recente e glorioso episódio deste folhetim circense teve como cenário os corredores da Assembleia da República, no já famoso e risível caso do pseudo-assalto ao gabinete do partido. Com a gravidade solene dos grandes dramas policiais, o bando apressou-se a denunciar uma conspiração de contornos obscuros, apontando o dedo às forças ocultas que ousaram violar o seu santuário ideológico. O problema é que a encenada tragédia rapidamente se transformou numa mixórdia digna de nota: entre fechaduras intactas e declarações inflamadas perante os jornalistas, o mistério do arrombamento ruiu com a mesma velocidade com que o cavalo Jolly Jumper galopa para o pôr do sol. Para rematar o espectáculo, a dita investigação parece ter ficado entregue à argúcia de um autêntico Rantanplan, o célebre cão de guarda da BD cujos raciocínios lentos e faro duvidoso garantem que a verdade permaneça enterrada sob camadas de puro absurdo. Perante tamanha mestria na arte do fiasco, resta ao espectador assistir ao espectáculo com uma ponta de ironia, aguardando com expectativa o próximo plano infalível desta imparável quadrilha, cuja única certeza é terminar mais uma vez a morder a poeira do ridículo.
 

2026/07/29

A MÁQUINA DE FAZER FRIO

A malta de Matosinhos viu, com profunda tristeza e o estômago ainda meio revirado pela última dose de farturas, os carrosséis e as habituais atracções da festa partirem em busca de nova romaria e de outro santo padroeiro mais necessitado de milagres. Contudo, para os amantes do surrealismo quotidiano, não foi preciso esperar um ano inteiro para que, no mesmíssimo local, se instalasse um novo foco de atracção local. Não propriamente turística, concedo, mas de uma genialidade mecânica nunca antes vista na Invicta. Ora, precisamente onde outrora se erguia a mítica barraca das farturas com o seu óleo sagrado, alguém com demasiada iniciativa e manifesta falta de supervisão decidiu instalar um gerador monumental, equipado com dois tubos de dimensões tão colossais que seriam capazes de esconder, com assinalável conforto, vários prisioneiros em plena fuga de uma cadeia de alta segurança. A brilhante ideia por detrás daquela escultura industrial consistia, nada mais, nada menos, do que tentar resolver as crónicas maleitas do ar condicionado das composições do Metro do Porto, injectando ali uma monumental lufada de ar frio directamente nas entranhas das carruagens.

Mais do que discutir a duvidosa eficácia científica daquela engenhoca, sinto-me na estrita obrigação de reconhecer o esforço hercúleo do génio criativo que a engendrou, demonstrando uma capacidade quase divina para vender gelo a esquimós. Sim, porque para além da estupidez aparente do conceito, é preciso um mérito comercial inquestionável para conseguir convencer as altas patentes da empresa de transportes a abrir os cordões à bolsa e a suportar financeiramente esta monumental idiotice pública. No entanto, tal como os carrosséis do Senhor de Matosinhos a máquina já abandonou o recinto da festa após uma curtíssima temporada de testes sem sucesso, que apenas serviram para atrair a comunicação social em peso e arrancar algumas gargalhadas aos transeuntes. O problema do calor nas carruagens mantém-se rigorosamente na mesma, em busca de outra mente brilhante. Da minha parte, resta-me apenas a desilusão de ver o estaleiro vazio: é que a geringonça foi retirada antes mesmo que eu pudesse tentar a minha sorte e vender-lhes um stock de ventoinhas de papel que tenho guardadas na garagem.
 

2026/05/15

ZONA DE PRESSÃO URBANA

Há palavras que entram no nosso vocabulário com a subtileza de um elefante numa loja de cristais e a "zona de pressão urbana" é, sem dúvida, a rainha desta nova etiqueta semântica. Mas não se deixem enganar pelo tom técnico e quase clínico da expressão; na verdade, é apenas um palavrão burocrático inventado para que as autarquias possam, na paz do Senhor e com a mão leve no bolso alheio, transformar o vosso IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) num filme de terror digno de Hollywood. Imaginem a cena: abrem a nota de liquidação, esperam o valor do costume — aquele que já custa a engolir entre um café e um suspiro — e, de repente, dão de caras com um montante que parece o código postal de uma cidade distante. Dez vezes mais? Sim, leram bem! (E façam o favor de não esfregar os olhos, que o erro não é da vossa visão, é da vossa conta bancária). Sem um aviso prévio, sem um "olhe que isto agora vai doer" e, acima de tudo, sem qualquer consideração por quem herdou um terreno ou mantém uma casa devoluta porque a vida, essa malandra, não lhe permitiu ainda erguer palácios. O que as nossas mentes brilhantes da administração local parecem ignorar é que nem todo o proprietário é um magnata do imobiliário a aguardar que o ouro caia do céu.

Para muitos de vós — e partilho aqui a vossa estupefacção — este aumento descomunal é um convite educado, mas musculado, à venda forçada. "Se não tem dinheiro para o imposto, então que venda!", parecem sussurrar as paredes frias das repartições. É uma espécie de lógica de mercado feita à base de pressão alta, onde a propriedade deixa de ser um direito para passar a ser um castigo financeiro. No fundo, este sistema de "pressão urbana" é como aquele convidado que aparece para jantar sem avisar, come tudo o que está no frigorífico e ainda nos manda a conta da luz no final do mês. Ficamos ali, estupefactos, a olhar para o papel, sentindo-nos como o "comum mortal" que, além de pagar para viver, agora tem de pagar uma fortuna para que a sua propriedade não seja, simplesmente, devorada pela próxima actualização do sistema tributário. Haja paciência (e carteira) para tanta criatividade fiscal.

2026/05/01

O AMARELO DA MINHA HUMILHAÇÃO

Quem já leu algum texto meu sabe que nem tudo é reclamação, mas o disparate é mais que garantido. Resolvi, por isso, partilhar uma recordação embaraçosa que ainda hoje me faz acordar com suores frios. Recuemos ao início da década de 90 — quando alguns de vós nem sequer estavam em projecto e a internet era uma miragem de ficção científica. O mundo rendia-se à Roménia de Gheorghe Hagi. Era um futebol tão criativo, tão cheio de "veneno" e geometria, que provou ao mundo que havia outra equipa de amarelo, além do Brasil, capaz de fazer magia com uma bola de couro. Seria de esperar que o equipamento romeno estivesse à venda em cada esquina, mas o comércio desportivo da altura decidiu ignorar a tendência. Mas a moda, quando quer pegar, não pede licença: passámos todos a acrescentar 'escu' aos nossos apelidos de família e a achar que tínhamos o destino da Europa de Leste nos pés. Eu, ciente de que até um apanha-bolas de Bucareste tinha mais talento que eu, mas determinado em parecer um profissional, massacrei a minha mãe durante semanas. O meu reino por uns calções amarelos. Farta de me ouvir — e provavelmente para evitar que eu entrasse num quadro de depressão profunda — ela operou o milagre na sua velha máquina de costura. Não eram oficiais, não tinham licença da FIFA, mas eram amarelos. E eram meus.

No dia seguinte, a praia era o meu estádio, o meu Camp Nou de areia e conchas. Nunca tive tanta vontade de mostrar aptidões que, na verdade, nunca possuí. Curiosamente, o efeito placebo dos calções funcionou durante uns minutos: a bola colava ao pé, o drible fluía com uma elegância suspeita e aquele amarelo berrante, que quase exigia o uso de óculos de sol para ser observado directamente, dava-me uma confiança perigosa. Eu, mestre da discrição, tinha agora uma vasta plateia de veraneantes. Sentia-me o próprio "Maradona dos Cárpatos", pronto para assinar contrato com um colosso europeu entre dois mergulhos. Mas a glória, como tudo o que é feito de poliéster caseiro, foi curta. Um grupo de belas adolescentes passa a poucos metros da minha exibição técnica. Perante a minha melhor pose de craque, peito inchado e bola controlada com o peito, uma delas para, olha-me de cima a baixo com um desdém olímpico e dispara, com a precisão de um ponta-de-lança: «Olha-me este... Mariconço!». O silêncio que se seguiu só foi interrompido pelo som das ondas e pelo estalo do meu ego a desfazer-se em mil pedaços. A minha carreira internacional terminou ali. Ainda tentei uma operação de salvamento, cosendo umas listas laterais verdes para parecer que era adepto da Austrália ou de um clube obscuro da terceira divisão, mas o trauma era demasiado profundo. Aqueles calções nunca mais voltaram a ver a luz do sol, ficando condenados ao fundo de uma gaveta, tal como o meu sonho de jogar num clube europeu.