2020/11/06

BRUXARIA DIGITAL

Usar o termo bruxaria é, por si só, motivo para metade dos leitores desistirem de ler o resto da crónica. Mesmo assim vou arriscar e se, por acaso, tiver alguém mais desesperado fica já avisado que não sei fazer qualquer tipo de amarração ou tenho o segredo para ficar milionário. Até porque, se o tivesse, não estaria a martelar as teclas do computador mas sim a gozar o sol da Jamaica, agarrado a dois daiquiri’s servidos por duas catraias (daquelas que só conseguimos chegar perto em revistas). Lembrei-me do termo à custa das redes sociais, nomeadamente o Facebook. Sim, esse maldito software informático – inventado por Belzebu – que nos corrói e destrói a alma. E só não invoco passagens bíblicas porque, segundo sei, até a Igreja se converteu a este mundo. Fizessem uma sondagem, a nível universal, e seguramente seriam poucas as pessoas que nunca tiveram conta nesta rede social. Apesar de muitos terem emigrado para o Instagram (primo mais novo do Facebook) marcaram presença e sabem que, no famoso ecrã azul, está o verdadeiro sentido da vida. Mesmo que cada utilizador tenha descoberto o seu, e diga que é o verdadeiro…
 
Aliar o sistema de mensagens (Messenger) à rede social foi mesmo a cereja no topo do bolo. Porquê esperar que o algoritmo – que ninguém consegue explicar como raio funciona – escolha a quantas pessoas vai mostrar a nossa mensagem se temos a oportunidade de enviar directamente a cada utilizador?! Quase como os comerciais à porta dos supermercados que nos abordam intempestivamente e só nos soltam com a promessa de comprar qualquer coisa. Mesmo que não se queira, o gesto de gastar dinheiro é sinónimo de readquirir a nossa liberdade e regressar a casa. Voltando às redes sociais, quero informar que recebi – de quatro pessoas, no mesmo dia – a mensagem que tanto esperava: descobriram forma de acabar com a propagação do vírus e, para isso, basta ficar em casa durante dois dias, que equivalem ao período crítico da curva do contágio. A mensagem – assinada por “nós, médicos” – é bastante apelativa: escrita de forma atabalhoada sob um fundo amarelo-torrado e, seguramente, acredito que muitos fiéis das redes sociais vão faltar aos seus empregos por acreditar na indicação. Porque o fim do mundo está perto e vamos ser afectados por um vírus intestinal que nos irá obrigar a usar fraldas! Ah, não acreditam?! Preparam-se, porque li isso no Facebook.
 

2020/09/01

PENSAMENTOS SEM CHUMBO

Agarrado à pistola de abastecimento de combustível, dou por mim a pensar que uma boa parte do salário miserável recebido desaparece sob a forma líquida. Considero tal gesto como um investimento para garantir mais um mês de deslocações para o trabalho com o objectivo de voltar a receber alguns trocos. Um ciclo vicioso que ataca centenas de condutores (das várias classes sociais) que visitam regularmente as estações de serviço. E, nesta crónica, prometo não implicar com os oportunistas que aproveitam a torneira da água para dar banho completo ao carro ou os que, num acto de rebeldia, resolvem fumar ao lado das botijas de gás. Algo que deveria ser premiado pela comunidade Nobel! Para aliviar o sofrimento provocado pela crueldade dos números (muitos euros e poucos litros) vou apreciando o panorama que me rodeia. Estacionado na bomba 2 está um monovolume. O condutor luta com todas as forças para conseguir fechar a porta da bagageira por causa de tanta tralha acumulada. No interior três crianças e uma mulher mal-arranjada que, num gesto de apoio e solidariedade, deixaram-no sozinho! Com aspecto cansado – talvez pelos gritos, cânticos ou poucas horas de sono – tenta cumprir mais uma tarefa imprescindível para o bom ambiente familiar. Pelas características da viatura (admitam, um monovolume é basicamente um ovo com rodas), ou pelo rumo financeiro que a vida de casado implica, é notória a tristeza nos olhos daquele homem… 
 
Num ápice, as atenções voltam-se para o rugido de motor da viatura que estacionou na bomba 4: um bólide desportivo, apenas com dois lugares, desenhado por alguém que não tem por hábito ir às compras. No interior uma mulher bem arranjada, estilo modelo das melhores passerelles. O centro das atenções: seja por ela ou pelo carro. A representação mais pura da vida de solteiro! Sem preocupações ou gritos incessantes da petizada. Escusado será dizer que o condutor do monovolume olhou para a tentação do bólide, mas não foi retribuído. Duas realidades distintas, observadas neste pequeno epicentro petrolífero, que marcam as diferenças da nossa sociedade. Contudo, tal como acontece com a morte, a mudança de realidade ocorre sem aviso prévio e os que deixaram o mundo dos “solteiros” têm por hábito (mais cedo ou mais tarde) sentir saudades do que deixaram para trás. Porém, depois da escolha feita, perde-se o ponto de retorno. É importante saber lidar com a decisão tomada e resistir à tentação permanente! Por esta altura, o abastecimento ficou concluído e sei que não posso terminar esta crónica sem vos indicar a que mundo pertenço. Admito, olhei para o “maquinão” da bomba 4. O carro, claro.
 

2020/06/05

NOSSO SENHOR DE CAIXA ABERTA

Os católicos devotos – sejam os mais assíduos ou aqueles que só recorrem ao Divino em alturas de aperto – reconhecem a importância (simbologia) do número quarenta para a fé cristã. Jesus Cristo, antes de iniciar a sua vida pública, retirou-se no deserto por quarenta dias e noites sem comer. Como se não bastasse, ainda teve de aturar o Mafarrico e suas falsas promessas. O equivalente aos políticos da era moderna. Curiosamente, nos dias que correm, um vírus de origem malévola remeteu-nos, católicos ou não, a um regime de confinamento e solidão domiciliária durante pouco mais de quarenta dias. Ao contrário do episódio bíblico, seguramente ninguém fez jejum, mas verificou-se uma total dependência de programas televisivos e redes sociais demoníacas. A situação agravou-se quando, para respeitar o isolamento, o Governo decidiu encerrar as igrejas. Porém, a resiliência da Igreja é sobejamente conhecida e, mesmo de portas fechadas, encontrou forma de mostrar que está activa. Encorajaram a adesão massiva às redes sociais e programas televisivos (basicamente, venderam a alma ao Diabo!) sem esquecer, de igual modo, as visitas domiciliárias regulares aos fiéis devotos. Os mesmos que outrora eram excomungados na Missa de Domingo por ficarem em casa a ressonar…  
 
A fé move-se por caminhos misteriosos e, com o aproximar da Páscoa, foi preciso reforçar a crença aos pobres de espírito que cumprem os dias em prisão domiciliária. Uma carrinha de caixa aberta foi a solução encontrada pelos senhores de batina que, munidos do tradicional crucifixo e megafone, aceitaram o desafio de espalhar a palavra pelas aldeias, tendo sempre em atenção os arranques e travagens mais bruscas de quem conduz a carripana: não vá Nosso Senhor arrancar e o padre cair de costas! As televisões foram convocadas para dar testemunho destas visitas pascais inéditas e, nas redes sociais, as partilhas ajudaram a espalhar a boa nova. A prova de vida que a Igreja procurava desesperadamente. Porque, nesta luta do Bem contra o Mal, é imperativo aproveitar todos os meios para divulgar e partilhar gestos sagrados. Longe vai o tempo dos profetas que, naquele tempo, limitaram-se a espalhar a palavra sem tecnologia digital.
 

2020/03/20

PROLONGUEM O ESTADO DE EMERGÊNCIA!

Um cabo Hdmi. Foi a razão pela qual furei o isolamento domiciliário para me deslocar ao centro comercial. Porém, e antes que comecem com os juízos de valor sobre o facto de não ser motivo urgente, desafio-vos a permanecer em casa com uma criança a olhar para um televisor desligado! Durante a viagem um sossego mórbido. Percorri em cinco minutos um trajecto que normalmente demora quase trinta. Sem filas de trânsito, condutores apressados ou praticantes do estacionamento em segunda fila, porque lhes dá jeito. Encontrei igual cenário no interior do shopping: consegui andar pelas galerias comerciais sem ser abalroado, como de costume, pelo menos umas cinco vezes! Os espaços de restauração tinham mesas e cadeiras disponíveis e, acima de tudo, limpas! Porque há ilustres membros da sociedade que, nos referidos espaços, se esquecem (de propósito) de arrumar o tabuleiro e o cliente que se segue – num puro acto de rebeldia – senta-se na mesa suja e empurra o lixo para o lado, partilhando a refeição com bactérias e germes esfomeados… 
 
Aliás, neste clima de pandemia, é vergonhoso ter de recordar, ao nobre povo, que deve lavar as mãos regularmente e que cuspir (ou mandar ranhetas) para a via pública é algo que os restantes europeus (e pessoas educadas) repudiam veemente! A imagem dos autênticos javardos. Concorde-se, ou não, com as medidas tomadas pelo governo temos de admitir que, para além do vírus, é preciso lutar contra o nosso ADN. Somos impelidos a seguir à risca as normas impostas, sob pena de contrair uma doença que – apesar de ter uma baixa percentagem de infectados – ameaça tornar-se terrível e fatal quando na presença de gente que acha que desrespeitar as regras é sinal de rebeldia. E neste ponto, por muito que discordem, somos equiparados à Itália. Actualmente a ansiedade e o medo estão em modo histérico. Talvez este vírus tenha o poder de mudar (de vez) o nosso ritmo peculiar de vida. Tendo em conta o actual cenário, apenas posso desejar que prolonguem o estado de emergência.