2026/06/23

PROMETO PAGAR

Olhas para a moeda que brilha na palma da tua mão e pensas no absurdo do mundo. O parque de estacionamento do supermercado está cheio, as luzes da festa da cidade piscam ao longe, e ali está ele. Um homem feito de cansaço, de vento e de invisibilidade. Ele acena com os braços, desenha círculos no ar com um pano gasto, fingindo guiar um carro que tu guias sozinho, fingindo orientar uma manobra que o teu espelho retrovisor já resolveu. Há um teatro montado no alcatrão. Um bailado mecânico onde o guião exige que ele finja que ajuda e tu finjas que acreditas. É o ritual do costume. O guião que ninguém escreveu, mas que toda a gente decora. Dás a moeda. Não dás pelo serviço, porque serviço nenhum foi feito; dás pela presença. Dás porque ele está lá. Ele recebe porque está lá. É a taxa de ocupação do desespero, o imposto invisível que pagamos para não termos de olhar nos olhos a miséria que nos rodeia. Tu não estás a pagar por um estacionamento facilitado; estás a pagar pelo teu próprio sossego, pela trégua temporária na tua consciência limpa. O arrumador não arruma carros, arruma o teu desconforto. Ele recolhe as moedas que lhe atiras para que o silêncio dele não te grite os teus privilégios à cara. É uma transacção muda entre quem tem tudo por fazer e quem já só tem o dia de hoje para sobreviver.

Porque é que o mundo continua a aceitar esta coreografia da esmola disfarçada de trabalho? Não sabes. Ninguém sabe. O supermercado factura milhões, a festa gasta milhares em fogos-de-artifício que iluminam o céu por dez minutos, e no chão, onde os pés pesam, perpetua-se a tradição da migalha. Uma moeda que compra o direito de não te riscarem o carro, ou talvez, quem sabe, o direito de não te riscarem a alma. É a burocracia da sobrevivência nas margens da sociedade. Uma dança macabra onde a dignidade é uma moeda de cinquenta cêntimos que cai num bolso furado, enquanto o motor do teu carro topo de gama arranca sem olhar para trás. Ficas a pensar nisso enquanto pões a primeira mudança. O homem já se virou para o próximo carro, repetindo os mesmos gestos mecânicos, a mesma ilusão de utilidade. O que nos prende a este ciclo de dar a quem nada faz, só porque não sabemos o que fazer com quem nada tem? É a engrenagem social que range, que dói, que se arrasta no tempo sem que ninguém mude a direcção. No fim do dia, a moeda muda de mão, o parque esvazia-se, mas a miséria continua exactamente no mesmo sítio. Arrumada. Escondida à vista de todos, no lugar mais movimentado da nossa indiferença.

2026/06/19

O PIONEIRO DE RAMALDE

Dois quilómetros. Não foi um engano no GPS, foi uma peregrinação. No Porto, onde a VCI é um parque de estacionamento pago com a sanidade dos condutores, este iluminado decidiu que o canal do Metro era a sua auto-estrada privada. Do alto dos seus 78 anos, o homem percebeu o que a Metro do Porto ainda não admitiu: as carruagens são lentas e o trânsito da cidade é um enfarte do miocárdio em câmara lenta. Entre a Senhora da Hora e Ramalde, o Toyota avançou impávido, galgando balastro como quem vai buscar o pão. E tem de ser um Toyota. Só o rigor japonês sobrevive a dois mil metros de carris sem que o cárter se desintegre ou o condutor perca a dentadura. É a fiabilidade mecânica ao serviço da demência geográfica. Enquanto nós, os cumpridores, derretemos a embraiagem na Rotunda da Boavista, este pioneiro do "chico-espertismo" seguia por ali fora, livre de semáforos e de prioridades pela direita…

A verdade é que a notícia causou mais inveja do que indignação. Ver aquele utilitário a serpentear por onde só deviam passar composições amarelas é o sonho húmido de qualquer portuense preso no nó de Francos às seis da tarde. O homem não estava perdido; estava a antecipar o futuro da mobilidade urbana. Com a cidade esburacada, o Metrobus que é um mito urbano e as obras da Linha Rosa a tornarem a Baixa num estaleiro a céu aberto, o canal do metro é a única via rápida que resta. Se calhar, o senhor só queria chegar a casa antes da próxima glaciação. No fundo, todos queríamos ser aquele Toyota: ignorar as balizas, subir o passeio da lógica e deixar a polícia a coçar a cabeça. Ontem, no Porto, houve milhares de condutores civilizados a chegar atrasados e um "maluco" num carro japonês que, por dois quilómetros, foi o único dono do tempo. No reino dos congestionados, quem tem tração às quatro e falta de juízo é rei.