2026/06/19

O PIONEIRO DE RAMALDE

Dois quilómetros. Não foi um engano no GPS, foi uma peregrinação. No Porto, onde a VCI é um parque de estacionamento pago com a sanidade dos condutores, este iluminado decidiu que o canal do Metro era a sua auto-estrada privada. Do alto dos seus 78 anos, o homem percebeu o que a Metro do Porto ainda não admitiu: as carruagens são lentas e o trânsito da cidade é um enfarte do miocárdio em câmara lenta. Entre a Senhora da Hora e Ramalde, o Toyota avançou impávido, galgando balastro como quem vai buscar o pão. E tem de ser um Toyota. Só o rigor japonês sobrevive a dois mil metros de carris sem que o cárter se desintegre ou o condutor perca a dentadura. É a fiabilidade mecânica ao serviço da demência geográfica. Enquanto nós, os cumpridores, derretemos a embraiagem na Rotunda da Boavista, este pioneiro do "chico-espertismo" seguia por ali fora, livre de semáforos e de prioridades pela direita…

A verdade é que a notícia causou mais inveja do que indignação. Ver aquele utilitário a serpentear por onde só deviam passar composições amarelas é o sonho húmido de qualquer portuense preso no nó de Francos às seis da tarde. O homem não estava perdido; estava a antecipar o futuro da mobilidade urbana. Com a cidade esburacada, o Metrobus que é um mito urbano e as obras da Linha Rosa a tornarem a Baixa num estaleiro a céu aberto, o canal do metro é a única via rápida que resta. Se calhar, o senhor só queria chegar a casa antes da próxima glaciação. No fundo, todos queríamos ser aquele Toyota: ignorar as balizas, subir o passeio da lógica e deixar a polícia a coçar a cabeça. Ontem, no Porto, houve milhares de condutores civilizados a chegar atrasados e um "maluco" num carro japonês que, por dois quilómetros, foi o único dono do tempo. No reino dos congestionados, quem tem tração às quatro e falta de juízo é rei.

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