2018/11/19

BRUXARIA E LOJAS CHINESAS

Os que seguem as minhas crónicas, certamente, já não se espantam com a minha capacidade de encontrar títulos sugestivos. Sabem até que, por vezes, vale mais que o próprio texto, mas se chegaram até esta linha – depois de ler o título – sem se benzerem, agradeço a coragem e garanto que podem ler o restante, sem qualquer tipo de risco para o físico ou para a carteira. Os habitantes de Terras Tugas acreditam na sorte. Basta ficar atento à quantidade de gente que anda, para aí, a esfregar raspadinhas! A sorte e o azar são excelentes desculpas para justificar aquilo que parece não ter razão óbvia de ser. Tendo em conta o número de especialistas africanos, com consultório cá, acredito que o oculto arranja muitos clientes! Recordo que esta é uma crónica de ficção, qualquer semelhança com situações da vida real terá sido meramente coincidência. Achei importante esclarecer este ponto… não vá o Diabo tecê-las!

Durante várias semanas, um grupo de alunos ensaiou uma peça de teatro. O dia da estreia tinha chegado! Tudo estava pronto, apesar dos nervos. Minutos antes da subida do pano – quando chegou perto das escadas de acesso ao palco – uma das actrizes sentiu-se mal e desmaiou. Em pânico, alertaram os professores e solicitaram auxílio médico. A notícia chegou aos restantes membros do elenco. Quando se aproximaram, uma outra actriz sofreu o mesmo sintoma. Pumba! Caiu para o lado! Ao verificar tamanho aparato – e cenário de guerra, com duas vítimas no chão – uma das professoras mais velhas, deu azo aos seus conhecimentos místicos e, sem qualquer sombra de dúvida, diagnosticou o Mafarrico como o principal culpado da situação. Coisa ruim pairava no ar… Para tratar da saúde ao espírito maligno que andava a fazer das suas – estilo Fantasma da Opera – foi comprar velinhas para purificar o ambiente. Não havendo lojas de especialidade em artigos de mau-olhado, aviou-se na loja do chinês perto da escola. Pelo menos, não gastou muito dinheiro… Regressou à escola ao mesmo tempo que a ambulância. Determinada, acendeu as velas aromáticas enquanto os paramédicos tratavam as duas pacientes e restantes reclamações pelo tremendo pivete emanado pelas velas. As miúdas recuperaram os sentidos e, felizmente, nada de grave se passou. Talvez um ataque de ansiedade causado pela estreia da peça. No entanto, ainda hoje se debate quem salvou a situação: a ciência ou o misticismo.

Caro leitor, não pretendo fazer qualquer juízo de valor em relação a este debate! É uma decisão pessoal e cada um tem a liberdade de escolher o que mais lhe convém! Tal como os fanáticos da raspadinha! Contudo, seja qual for a vossa escolha, tenham em conta que devemos trabalhar com a dignidade que a situação nos impõe. Afinal, a luta entre o bem e o mal dura há imensos séculos e, com certeza, nenhuma força demoníaca gosta de ser enfrentada com recurso a material manhoso das lojas chinesas! Chega a ser desprestigiante! É ter isso em atenção! Afinal, dizem que o Inferno é mau, mas como isto está, qualquer dia, por cá será bem pior…
 

2018/11/06

DIALECTOS DA CARTEIRA

Música. Não é para qualquer um. Mas isso não impede que qualquer um tente realizar um dos sonhos mais pretendidos, ser cantor. Mas, antes de arriscar numa carreira será melhor procurar ajuda dos cantores mais experientes… Em Outubro de 2016, os habitantes de Terras Tugas (que assistiam ao programa do Manuel Luís Goucha) ficaram estupefactos com a actuação da Maria Leal. Nome desconhecido até então. O vídeo da sua actuação tornou-a num fenómeno da Internet, arrecadando mais de três milhões de visualizações no YouTube, em menos de um ano. O mesmo período que fez disparar a venda de aparelhos auditivos…

Dois anos depois, o canal televisivo Sic resolveu emitir um programa sobre a sua ascensão meteórica rumo ao estrelato, passando pela principal fonte de rendimento: o seu marido. Aliás, o foco do programa incide sobre ele. Francisco D’ Eça Leal, nascido vinte anos depois da cantora. Um jovem fragilizado com registos de esquizofrenia e com sérios riscos de ficar paraplégico, depois de se ter atirado de uma janela do Hospital Julio Matos. Herdeiro de uma fortuna avaliada em um milhão de euros viu a cantora entrar na sua vida com promessas de amor eterno com cartões de crédito! Em três anos, este amor tórrido fez desaparecer grande parte da herança. Francisco, que ainda continua oficialmente casado, viu desaparecer o seu grande amor, três imóveis e todo o dinheiro. Vive sozinho, com a ajuda da mãe e da Santa Casa da Misericórdia. O pobre Francisco ainda não tem a noção do que se passou. Parece um viajante do tempo que ainda não se apercebeu em que ano está! Diz acreditar na justiça. A mesma que não consegue intimar a cantora para se apresentar em tribunal por desconhecer o seu paradeiro. Bastava aceder à página do Facebook para descobrir quais as cidades que ela vai infernizar brevemente! A justiça tem limitações, temos de aceitar! Penso que o único interveniente feliz desta história é o dono da loja de artigos chineses, no qual, a cantora gastou mais de 1.500 euros! Penso que, com tanto dinheiro, o homem fechou a loja, rumou à China e reformou-se!

Os dialectos da carteira têm dias assim! O amor platónico pode ser mais curto que uma viagem de táxi. Não há limites para a ganância humana e, mesmo sem qualquer talento ou atributos físicos extraordinários, a sua carreira continua. Tem fãs espalhados por todo o nosso país. Conseguiu mediatismo à custa do oportunismo, falta de escrúpulos e herança choruda. Contudo, nesta parte final da crónica, ainda não decidi se devo culpar a atitude activa da cantora, ou a extrema passividade e ignorância do rapaz! De qualquer forma, a vida continua e um programa de televisão – que dignificou a imagem do Ribeiro Cristóvão – já não tem a capacidade de conseguir parar um país. A indignação é efémera e, certamente, muitos dos que estão a ler já se esqueceram do que viram. Abençoadas redes sociais e programas matinais! Volta Zé Cabra, que estás que perdoado…
 

2018/11/02

REFÉM TECNOLÓGICO (A SEQUELA)

Fosse esta crónica um episódio de uma qualquer série de grande sucesso (pois não faço a coisa por menos!) e a introdução – ou resumo do que se passou anteriormente – mostraria que estive em Lisboa, para a Feira do Livro e que, sendo eu alérgico às novas tecnologias, resolvi levar emprestado o telemóvel da minha esposa. Pelo menos para conseguir tirar algumas fotografias. E como puderam ler, ainda nem sequer tinha saído do aeroporto e já estava a fazer asneiras… Antes do certame – e como nada se consegue fazer com a barriga vazia – resolvi satisfazer uma das mais básicas necessidades conhecidas: a fome! Entrei num café, fiz o pedido e transportei-o num mísero tabuleiro de plástico até à mesa. Digam lá, nada como o self-service! Como eterno romântico que sou, durante a refeição, resolvi ligar à minha esposa. Tenho a certeza que ela queria saber pormenores sobre a minha chegada… e estado de conservação do seu telemóvel! A típica conversa de casados correu bem: discutiram-se (no bom sentido) os problemas a resolver, as contas a pagar e, principalmente, a previsão de chegada a casa, pois há mais coisas para fazer que andar armado em escritor pela capital... 

Todos estes temas acompanhados de termos carinhosos, como “amor” e “carinho”. E confesso: estando ali sozinho, senti muitas saudades de casa. Antes de desligar o telemóvel – e finalizar a conversa – despedi-me com muitos beijinhos e um “amo-te, amor!”. Envergonhado, é certo. Quando pousei o telemóvel junto ao tabuleiro, reparei que o senhor da mesa ao lado ficou estupefacto a olhar para mim, quase que com vontade de dizer algo, mas sem coragem para o fazer. Para além de ter achado que era um tremendo coscuvilheiro, senti que ficou aterrorizado com algo que viu! Os seus olhos alternavam entre mim e o visor do telemóvel estatelado em cima da mesa. Num vislumbre de olhar, enquanto o brilho do ecrã desvanecia, foi possível verificar o nome da pessoa com quem eu tinha estado a falar, em termos tão apaixonados: “Miguel (marido) ”! Caramba, agora percebe-se o ar assustado do homem da mesa ao lado.

2018/11/01

NUM PERFEITO VAZIO

O meu percurso laboral junto da Metro do Porto atingiu os 2700 dias de condução. Para os amantes da estatística, posso indicar que gastei 21600 horas (da minha vida) aos comandos das composições. Milhares de rostos desconhecidos e olhares que se cruzam sem qualquer familiaridade. De vez em quando recebo um sorriso ou um cumprimento. Gesto demasiado raro numa sociedade que prefere viver com sentimentos negativos. Talvez isso explique a cuspidela no vidro quando passei, sem serviço, na estação de Francos. E, pelo aspecto esverdeado da mesma, aconselho o rapaz – se estiver a ler esta crónica – a procurar um médico! Há mais de quarenta minutos que não digo uma palavra. E sei que ainda falta bastante para terminar esta parte do turno. Estou confinado na cabina de condução sem qualquer distracção ou ligação ao mundo exterior. A única comunicação autorizada é com o posto de comando em caso de anomalia (ou avaria) verificada na rede ferroviária. O relógio parece que se move em câmara lenta. Sinto na pele vários dias a acordar ainda de madrugada, enquanto a cidade dorme. O sono, aliado ao silêncio e à excessiva mecanização de gestos, é um inimigo fortíssimo que se manifesta durante a condução. Que bom seria, de vez em quando, ter alguém com quem falar...

Penso na minha família. Sei que estes turnos não permitem que lhes dê a atenção desejada. Por vezes, para conseguir acompanhar os momentos mais importantes, tenho que fazer mais contas e trocas que o Ministro das Finanças para apresentar o orçamento. Volto a reparar no vidro. A cuspidela já se espalhou e, pelo aspecto esverdeado, fico preocupado com o estado de saúde do rapaz! Tal gesto de animosidade é vulgar e corriqueiro. Esta juventude revela uma crise de valores e falta de educação preocupante. Tendo em conta a facilidade de locomoção e falta de uma fiscalização condigna, o sistema de Metro ligeiro é considerado um paraíso. Tudo é permitido! Lixo, cães de raça sem açaime, fumadores, javardos, etc. E contam com a total passividade e conivência dos restantes utilizadores! Reina a anarquia, que tem a sua expressão máxima com os que resolvem, como trogloditas, bloquear as portas da composição e são os primeiros a reclamar pela mínima avaria, falha ou erro do maquinista. Há um afastamento na relação com os passageiros. Aquele que hoje me cumprimenta, amanhã será o primeiro a exigir a minha crucificação. Mesmo quando o veículo – por razões de frequência e horário – passa na estação sem serviço comercial. Temo pela sociedade que perdeu a vontade de lutar pelos valores e ideais. Agora, procurem o rapaz para o levar ao médico. Aquilo, no vidro, tem mesmo fraco aspecto.