2026/03/20

A DIVINDADE NO LOMBO

É de uma ironia obscena, quase pornográfica, observar o desfile diário das mochilas térmicas pelas nossas avenidas. O rapaz, vindo de uma terra onde a vaca é o altar da família e o símbolo da própria vida, atravessa meio mundo para se tornar o escravo motorizado da heresia. É um misticismo de 50 cilindradas: ele transporta, com a resignação de um santo, o cadáver grelhado daquela que devia ser a sua divindade. Enquanto o GPS lhe grita ordens em inglês partido, ele leva no lombo o pecado capital de um Ocidente que decidiu que o "sagrado" se serve bem passado e com batatas fritas. É o triunfo absoluto do pragmatismo sobre a fé: a vaca deixou de ser a mãe para passar a ser o recheio de um menu promocional de 9,99 €, entregue por quem, teoricamente, devia estar a fazer-lhe uma vénia e não a verificar se o molho barbecue não verteu no caminho.
 
Os verdadeiros vilões desta história, claro, não são os estafetas — esses são apenas os figurantes de uma comédia de costumes globalizada. Os maus da fita são os consumidores de consciência eco-friendly e multicultural que, entre um tweet sobre a protecção das minorias e um elogio à espiritualidade oriental, não hesitam em fazer com que um devoto de Krishna lhes leve a picanha à porta num domingo de chuva. Exigem tolerância, celebram a diversidade, mas o seu humanismo termina onde começa o apetite por um hambúrguer de novilho. É a suprema hipocrisia europeia: importamos a mão-de-obra de quem venera a vaca para que nos matem a fome com a própria vaca, tudo isto enquanto criticamos a falta de valores do mundo moderno. No fim do dia, o estafeta volta para o seu quarto partilhado com o cheiro da gordura alheia entranhado na pele; e o europeu arrota a divindade do outro com a satisfação de quem ajudou à integração através de uma gorjeta de cinquenta cêntimos na aplicação.
 

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