2026/08/11

OS DALTON DO HEMICICLO

A vida política do nosso burgo tem o dom extraordinário de imitar a banda desenhada, transformando o hemiciclo parlamentar numa caricata versão do Oeste Americano. No centro do picadeiro, a bancada do Chega funciona como uma espécie de bando Dalton à portuguesa, onde o hiperactivo André Ventura encarna com mestria a figura de Joe Dalton: o líder baixinho, raivoso e em permanente estado de tensão, vocacionado para engendrar planos mirabolantes que, com admirável regularidade, terminam num redondo fracasso. Ao seu lado, a fiel quadrilha completa o figurino da desgraça: Pedro Pinto assume o papel do truculento Jack, sempre pronto a erguer a voz perante os microfones; Pedro Frazão encarna o entusiasta William, perito em tropeçar nas próprias palavras nas redes sociais; e Gabriel Mithá Ribeiro veste a pele do gigante Averell, distraído com devaneios teóricos enquanto o bando tenta assaltar o comboio da opinião pública. Por mais que esboce estratégias para derrubar o sistema ou subjugar as instituições, esta trupe de saloon parece condenada a um destino trágico de comédia, onde cada grande cartada política acaba invariavelmente por explodir nas mãos dos próprios executantes.

O mais recente e glorioso episódio deste folhetim circense teve como cenário os corredores da Assembleia da República, no já famoso e risível caso do pseudo-assalto ao gabinete do partido. Com a gravidade solene dos grandes dramas policiais, o bando apressou-se a denunciar uma conspiração de contornos obscuros, apontando o dedo às forças ocultas que ousaram violar o seu santuário ideológico. O problema é que a encenada tragédia rapidamente se transformou numa mixórdia digna de nota: entre fechaduras intactas e declarações inflamadas perante os jornalistas, o mistério do arrombamento ruiu com a mesma velocidade com que o cavalo Jolly Jumper galopa para o pôr do sol. Para rematar o espectáculo, a dita investigação parece ter ficado entregue à argúcia de um autêntico Rantanplan, o célebre cão de guarda da BD cujos raciocínios lentos e faro duvidoso garantem que a verdade permaneça enterrada sob camadas de puro absurdo. Perante tamanha mestria na arte do fiasco, resta ao espectador assistir ao espectáculo com uma ponta de ironia, aguardando com expectativa o próximo plano infalível desta imparável quadrilha, cuja única certeza é terminar mais uma vez a morder a poeira do ridículo.