É lugar-comum ouvir alguém lamentar que há sempre um trabalho que, por razões inexplicáveis, não sai com a mesma facilidade que outros. Eu, apesar de não ser exemplo para ninguém, já despachei crónicas em cinco minutos e tenho outras que nem lembro o que quis dizer, seja por demora ou por demasiados cuidados na abordagem – há quem aguarde por um deslize para nos atirar aos lobos! Bom, já que perdi o receio inicial, vamos em frente e dedicar esta crónica humorística ao milagre do nascimento. Depois da junção de um casal, é a etapa que se segue. A noção de perpetuar os laços familiares está enraizada na sociedade e, mesmo com adversidades financeiras, a humanidade sobrevive nas barrigas das grávidas, apesar de muitas senhoras optarem por uma idade mais tardia. A chegada do meu filho Mateus colocou-me numa espécie de limbo temporal, no qual me intitulam de pai velho ou avô bastante novo – é à escolha do freguês. No entanto, é preciso deixar escrito que a sua vinda foi difícil e árdua, ao contrário daquilo que nos mostram nos filmes. Quando surgem dificuldades na concepção, os médicos especialistas prescrevem exames para averiguar qual (dos dois) é o culpado. A mulher, confesso, passa por um mau bocado perante exames dolorosos e impronunciáveis. Mas recuso aceitar que, para o homem, seja tudo fácil…
O espermograma é o exame possível e que assusta só pelo nome mas, bem lá no fundo do subconsciente masculino, faz parte das fantasias sexuais. Porém, é neste ponto que a realidade se afasta dos écrans de cinema. Com recurso ao serviço público de saúde fui premiado com este exame. Na minha mente, seria recebido como um herói pela preservação da raça humana e, durante a minha curta estadia, teria tudo a que tenho direito. Fui tratado como um simples paciente e, depois de dizer ao que vinha, recebi um copo de plástico e apontaram um cubículo, destinado a guardar vassouras, para realizar a tarefa. Uma sala fria, com pouca luz e no meio um banco de madeira desconchavado. Só isto! Nem sequer uma revista, com alguma nudez, para ajudar a criar ambiente. Perante tamanho choque com a realidade, calculei que as duas enfermeiras atraentes, com meias de liga, não iriam aparecer. E, tendo em conta a fronha da recepcionista, tranquei a porta e fiquei um pouco descansado por estar sozinho. Recorri aos dados móveis e um site da especialidade para, em alguns instantes, despachar o exame. No final, a prova de vida foi entregue por um postigo manhoso e regressei. Ainda hoje estou desiludido com a minha imaginação e, se um dia tiver de repetir, vou exigir que o faça no conforto do meu lar.
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