2022/12/02

AS MARIQUICES DESTA VIDA

Confesso que escrever regularmente para a imprensa regional, há mais de meia década, sem qualquer reclamação ou insulto deixa-me desgostoso. Não que sinta prazer em ser enxovalhado, mas fico a pensar se, de facto, existem leitores ou estou a ocupar um espaço que poderia servir para publicidade ou algo mais lúdico. Talvez com esta crónica consiga agitar as águas da vossa serenidade. Pelo menos, esmerei-me no título! Numa declaração de interesse, tenho de assumir que sou católico (praticante, em casos de grande aflição) e que, mesmo não sendo politicamente correcto, recuso aceitar certas mudanças sociais, mesmo que impostas pela moda, sociedade ou programas de entretenimento da televisão pública nacional. Existem mariquices, nesta sociedade, para as quais não estou preparado. E recuso-me a alinhar com o sistema, só pelo pretexto de não ter chatices. Tive o privilégio de observar, numa paragem de transportes públicos, dois adultos com um carrinho de bebé. Até aqui nada de especial. Contudo, num olhar mais atento, foi possível reparar que eram dois homens, próximo dos quarenta anos, com máscaras personalizadas a condizer e no carrinho, em vez de um bebé, estava um rafeiro. E, para alegrar o ramalhete, os benditos saquinhos arco-íris que indicam que o portador defende e está receptivo a relacionamentos com pessoas do mesmo sexo… 
 
Ao contrário dos filmes da especialidade, as raparigas que aderiram a este movimento têm acne nas bochechas e quilos a mais na barriga. Posso concluir que, tendo em conta as tremendas dificuldades em arranjar namorado, estes patinhos feios juntaram-se e, à semelhança do que fez António Costa, formaram uma geringonça onde, literalmente, juntaram forças, carinhos, beijinhos e outras quaisquer badalhoquices à mistura. Esta aliança de jovens encalhadas é, certamente, uma tendência actual desta geração, que pretende criar impacto numa sociedade em estado vegetativo. Porém, esquecem que tudo fica registado num qualquer telemóvel e rede social. Quando a fase da rebeldia estúpida terminar será impossível evitar confrontos com as imagens do passado. A ignorância também tem influência! Costumo reparar nestes saquinhos coloridos em algumas pessoas de mais idade e quero pensar que o usam como um simples saco e não como sinalização para engates amorosos homossexuais. O que, para além de estranho, desafia as leis da geriatria. Da minha parte está. Agora, podem descarregar a vossa frustração, com aqueles adjectivos chiques que terminam sempre em fóbico, na caixa de e-mail do director. Mas só aqueles que leram a crónica toda.
 

2022/10/01

UMA VONTADE DE IR

Tenho uma tremenda e inquietante vontade de mencionar que escrevo, em pleno regime de férias, numa varanda com vista para uma piscina absolutamente deslumbrante, mas recordo que quando esta crónica vos ocupar as vistas já tudo estará terminado e será apenas um conjunto de memórias fotográficas e números negativos na conta bancária. Apesar de ter a certeza que não deixei o meu belo país confesso que, ouvir tantos dialectos variados no átrio do hotel, leva-me a interrogar se fiz alguma mudança de direcção numa qualquer estrada e fui parar a outro sítio. É justo dizer que, em termos económicos, o turismo é a salvação de muitas cidades e o intercâmbio cultural é algo que deve ser preservado. Para além do efeito da redução da taxa de desemprego, possibilita uma maior projecção da imagem cultural local. E, escusado será dizer, a captação dos euros que os estrangeiros trazem na carteira que, ficando deste lado, dão um jeitaço ao nosso ministro das finanças! Porém, digo isto com profundo desânimo, terá alguém pensado que talvez não estejamos bem preparados para receber tanto turista... 
 
Por mais que tente abstrair-me da realidade social, a verdade é que não consigo desligar o olhar e consequente captação de disparates – ou algo que não deveria ser assim. Um exemplo disso acaba de acontecer neste instante, quando desvio o olhar do ecrã, por uns segundos, e dou conta que o vizinho do prédio em frente resolve trocar de roupa com as cortinas escancaradas: alguém que lhe recomende um sítio para depilar tanto pêlo! A questão – e teor deste pensamento escrito – não será a educação cívica, mas sim, a comunicação entre os diferentes intervenientes no mesmo edifício. Infelizmente, algumas pessoas não dominam a língua inglesa e outros, fruto de alguma experiência profissional, arranham o básico do espanhol. O dialecto francês, estranhamente, não interessa a ninguém! O exponente máximo da barreira linguística surge no restaurante, durante o período das refeições. Funcionários tiram à sorte para explicar ao turista (e esperar que ele entenda) qual a especialidade gastronómica e que deve ter moderação durante o buffet porque há comida suficiente à disposição. O fim-do-mundo não tem (ainda) data prevista e, como tal, não será necessário chafurdar em tanto alimento, como se não houvesse amanhã. Até porque já paguei a semana inteira e espero sinceramente que os alarves estrangeiros deixem alguma comida para mim.
 

2022/05/20

OS SETE DIAS DA PERFEIÇÃO

Quero acreditar que todos os objectos que temos à disposição, no nosso quotidiano, foram pensados e desenvolvidos com a melhor das intenções. Depois de testes intensivos e revista toda a informação sai para o mercado, para um qualquer aselha descobrir uma utilidade paralela que inferniza a vida a todos. Já perdi a conta às vezes que a minha caixa de correio foi violada. Mesmo tendo lá, em cores berrantes, uma aviso a informar que um qualquer decreto-lei impede a entrega de publicidade não endereçada, há sempre um panfleto promocional ou um cartão-de-visita de um agente imobiliário – que insiste em comprar a minha casa mesmo sem a conhecer. Penso que a polícia não vai aceitar a minha reclamação, nem colocar todos os meios disponíveis para apanhar o marialva que despeja publicidade. A única solução – tão utilizada pela nossa sociedade – é deixar andar e, porque não, ocasionalmente dar uma vista de olhos ao que lá deixam… 
 
Já abordei no passado o serviço tele-missa: consiste em ter alguém a ler uma qualquer passagem evangélica para a grelha do vídeo-porteiro. Através do panfleto, que encontrei hoje, cheguei à conclusão que a organização religiosa (com fins lucrativos) evoluiu para um ramo da ciência ainda não explorado: psicologia por correspondência. Talvez, tendo em conta o elevado tempo de espera das consultas do serviço público, esta seja uma forma de evitar suicídios. Não há nada pior que perder crentes! Num testemunho real, a Carla conta que tentou o suicídio por diversas vezes com medicação. Os médicos nunca encontraram qualquer problema e, inclusive, um deles pôs fim à vida com os medicamentos que ela tomava. A morte do médico prova que a mulher estava bem medicada e se não conseguiu morrer é porque não seguiu correctamente as indicações. Além de estar doente, é estúpida! No verso da brochura está um autoteste diagnóstico que, seja qual for o resultado, vai atribuir uma qualquer maleita ou perturbação. Depois, basta contactar os escritórios, encontrar a solução financeira e resolver tudo numa semana. Os sete dias da perfeição.