Mesmo com a liberdade de Abril, os nossos progenitores mantiveram uma relação difícil com certos temas. A natalidade era um deles. A célebre história das abelhas ou a versão logística da cegonha que transportava o petiz no bico sempre me soaram a narrativa mal ensaiada — até porque a viagem desde França é longa e a pobre ave não devia ter formação em halterofilismo infantil. Sem internet, sem motores de busca e sem influenciadores certificados, a educação sexual fazia-se como Deus queria: entre a sabedoria ancestral da revista Maria e algumas publicações de cariz mais erótico disponíveis no quiosque. Mesmo sem coragem para comprar, bastava observar a capa para uma aprendizagem visual acelerada. Com mais ou menos pudor, o certo é que os hospitais estavam cheios de mulheres barrigudas, todas à espera da epidural que ajudaria a aliviar as dores e, já agora, a sustentar a demografia nacional. Os tempos modernos trouxeram conhecimento em abundância e contacto físico em escassez. Hoje sabe-se tudo sobre sexo — teoricamente — mas pratica-se pouco, preferencialmente nunca e, se possível, apenas em ambiente virtual. As falésias estão desertas, já não há carros de vidros embaciados nem desculpas esfarrapadas sobre observar as estrelas.
Ter um único rebento exige contas afinadas, simuladores financeiros e uma fé inabalável, contrastando com as antigas mães que montavam verdadeiras equipas de futsal sem apoio do Excel. Ainda assim, quem ousar contribuir para os nascimentos nacionais deve estudar previamente o mapa rodoviário e o enquadramento legal de cada rotunda. Nunca se sabe em que jurisdição administrativa o cordão umbilical será cortado. Receber um filho num hospital tornou-se um desporto radical, mais imprevisível do que a lotaria e com probabilidades igualmente desanimadoras. Por razões alheias às parturientes — expressão elegante para “ninguém sabe bem porquê” — as salas de obstetrícia passaram a existir apenas em comunicados oficiais. Em breve, cada ambulância dos bombeiros seguirá equipada com um representante do registo civil, uma máquina multibanco e, idealmente, um terminal de senhas. Após o nascimento, será possível registar o fedelho ali mesmo, sem atrasos nem sentimentalismos, desde que o pagamento das respectivas taxas seja efectuado com sucesso. Caso contrário, a criança terá de aguardar — porque nascer é um direito, mas existir oficialmente continua a ser um serviço pago.
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