2026/05/15

ZONA DE PRESSÃO URBANA

Há palavras que entram no nosso vocabulário com a subtileza de um elefante numa loja de cristais e a "zona de pressão urbana" é, sem dúvida, a rainha desta nova etiqueta semântica. Mas não se deixem enganar pelo tom técnico e quase clínico da expressão; na verdade, é apenas um palavrão burocrático inventado para que as autarquias possam, na paz do Senhor e com a mão leve no bolso alheio, transformar o vosso IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) num filme de terror digno de Hollywood. Imaginem a cena: abrem a nota de liquidação, esperam o valor do costume — aquele que já custa a engolir entre um café e um suspiro — e, de repente, dão de caras com um montante que parece o código postal de uma cidade distante. Dez vezes mais? Sim, leram bem! (E façam o favor de não esfregar os olhos, que o erro não é da vossa visão, é da vossa conta bancária). Sem um aviso prévio, sem um "olhe que isto agora vai doer" e, acima de tudo, sem qualquer consideração por quem herdou um terreno ou mantém uma casa devoluta porque a vida, essa malandra, não lhe permitiu ainda erguer palácios. O que as nossas mentes brilhantes da administração local parecem ignorar é que nem todo o proprietário é um magnata do imobiliário a aguardar que o ouro caia do céu.

Para muitos de vós — e partilho aqui a vossa estupefacção — este aumento descomunal é um convite educado, mas musculado, à venda forçada. "Se não tem dinheiro para o imposto, então que venda!", parecem sussurrar as paredes frias das repartições. É uma espécie de lógica de mercado feita à base de pressão alta, onde a propriedade deixa de ser um direito para passar a ser um castigo financeiro. No fundo, este sistema de "pressão urbana" é como aquele convidado que aparece para jantar sem avisar, come tudo o que está no frigorífico e ainda nos manda a conta da luz no final do mês. Ficamos ali, estupefactos, a olhar para o papel, sentindo-nos como o "comum mortal" que, além de pagar para viver, agora tem de pagar uma fortuna para que a sua propriedade não seja, simplesmente, devorada pela próxima actualização do sistema tributário. Haja paciência (e carteira) para tanta criatividade fiscal.

2026/05/01

O AMARELO DA MINHA HUMILHAÇÃO

Quem já leu algum texto meu sabe que nem tudo é reclamação, mas o disparate é mais que garantido. Resolvi, por isso, partilhar uma recordação embaraçosa que ainda hoje me faz acordar com suores frios. Recuemos ao início da década de 90 — quando alguns de vós nem sequer estavam em projecto e a internet era uma miragem de ficção científica. O mundo rendia-se à Roménia de Gheorghe Hagi. Era um futebol tão criativo, tão cheio de "veneno" e geometria, que provou ao mundo que havia outra equipa de amarelo, além do Brasil, capaz de fazer magia com uma bola de couro. Seria de esperar que o equipamento romeno estivesse à venda em cada esquina, mas o comércio desportivo da altura decidiu ignorar a tendência. Mas a moda, quando quer pegar, não pede licença: passámos todos a acrescentar 'escu' aos nossos apelidos de família e a achar que tínhamos o destino da Europa de Leste nos pés. Eu, ciente de que até um apanha-bolas de Bucareste tinha mais talento que eu, mas determinado em parecer um profissional, massacrei a minha mãe durante semanas. O meu reino por uns calções amarelos. Farta de me ouvir — e provavelmente para evitar que eu entrasse num quadro de depressão profunda — ela operou o milagre na sua velha máquina de costura. Não eram oficiais, não tinham licença da FIFA, mas eram amarelos. E eram meus.

No dia seguinte, a praia era o meu estádio, o meu Camp Nou de areia e conchas. Nunca tive tanta vontade de mostrar aptidões que, na verdade, nunca possuí. Curiosamente, o efeito placebo dos calções funcionou durante uns minutos: a bola colava ao pé, o drible fluía com uma elegância suspeita e aquele amarelo berrante, que quase exigia o uso de óculos de sol para ser observado directamente, dava-me uma confiança perigosa. Eu, mestre da discrição, tinha agora uma vasta plateia de veraneantes. Sentia-me o próprio "Maradona dos Cárpatos", pronto para assinar contrato com um colosso europeu entre dois mergulhos. Mas a glória, como tudo o que é feito de poliéster caseiro, foi curta. Um grupo de belas adolescentes passa a poucos metros da minha exibição técnica. Perante a minha melhor pose de craque, peito inchado e bola controlada com o peito, uma delas para, olha-me de cima a baixo com um desdém olímpico e dispara, com a precisão de um ponta-de-lança: «Olha-me este... Mariconço!». O silêncio que se seguiu só foi interrompido pelo som das ondas e pelo estalo do meu ego a desfazer-se em mil pedaços. A minha carreira internacional terminou ali. Ainda tentei uma operação de salvamento, cosendo umas listas laterais verdes para parecer que era adepto da Austrália ou de um clube obscuro da terceira divisão, mas o trauma era demasiado profundo. Aqueles calções nunca mais voltaram a ver a luz do sol, ficando condenados ao fundo de uma gaveta, tal como o meu sonho de jogar num clube europeu.