2026/08/11

OS DALTON DO HEMICICLO

A vida política do nosso burgo tem o dom extraordinário de imitar a banda desenhada, transformando o hemiciclo parlamentar numa caricata versão do Oeste Americano. No centro do picadeiro, a bancada do Chega funciona como uma espécie de bando Dalton à portuguesa, onde o hiperactivo André Ventura encarna com mestria a figura de Joe Dalton: o líder baixinho, raivoso e em permanente estado de tensão, vocacionado para engendrar planos mirabolantes que, com admirável regularidade, terminam num redondo fracasso. Ao seu lado, a fiel quadrilha completa o figurino da desgraça: Pedro Pinto assume o papel do truculento Jack, sempre pronto a erguer a voz perante os microfones; Pedro Frazão encarna o entusiasta William, perito em tropeçar nas próprias palavras nas redes sociais; e Gabriel Mithá Ribeiro veste a pele do gigante Averell, distraído com devaneios teóricos enquanto o bando tenta assaltar o comboio da opinião pública. Por mais que esboce estratégias para derrubar o sistema ou subjugar as instituições, esta trupe de saloon parece condenada a um destino trágico de comédia, onde cada grande cartada política acaba invariavelmente por explodir nas mãos dos próprios executantes.

O mais recente e glorioso episódio deste folhetim circense teve como cenário os corredores da Assembleia da República, no já famoso e risível caso do pseudo-assalto ao gabinete do partido. Com a gravidade solene dos grandes dramas policiais, o bando apressou-se a denunciar uma conspiração de contornos obscuros, apontando o dedo às forças ocultas que ousaram violar o seu santuário ideológico. O problema é que a encenada tragédia rapidamente se transformou numa mixórdia digna de nota: entre fechaduras intactas e declarações inflamadas perante os jornalistas, o mistério do arrombamento ruiu com a mesma velocidade com que o cavalo Jolly Jumper galopa para o pôr do sol. Para rematar o espectáculo, a dita investigação parece ter ficado entregue à argúcia de um autêntico Rantanplan, o célebre cão de guarda da BD cujos raciocínios lentos e faro duvidoso garantem que a verdade permaneça enterrada sob camadas de puro absurdo. Perante tamanha mestria na arte do fiasco, resta ao espectador assistir ao espectáculo com uma ponta de ironia, aguardando com expectativa o próximo plano infalível desta imparável quadrilha, cuja única certeza é terminar mais uma vez a morder a poeira do ridículo.
 

2026/07/29

A MÁQUINA DE FAZER FRIO

A malta de Matosinhos viu, com profunda tristeza e o estômago ainda meio revirado pela última dose de farturas, os carrosséis e as habituais atracções da festa partirem em busca de nova romaria e de outro santo padroeiro mais necessitado de milagres. Contudo, para os amantes do surrealismo quotidiano, não foi preciso esperar um ano inteiro para que, no mesmíssimo local, se instalasse um novo foco de atracção local. Não propriamente turística, concedo, mas de uma genialidade mecânica nunca antes vista na Invicta. Ora, precisamente onde outrora se erguia a mítica barraca das farturas com o seu óleo sagrado, alguém com demasiada iniciativa e manifesta falta de supervisão decidiu instalar um gerador monumental, equipado com dois tubos de dimensões tão colossais que seriam capazes de esconder, com assinalável conforto, vários prisioneiros em plena fuga de uma cadeia de alta segurança. A brilhante ideia por detrás daquela escultura industrial consistia, nada mais, nada menos, do que tentar resolver as crónicas maleitas do ar condicionado das composições do Metro do Porto, injectando ali uma monumental lufada de ar frio directamente nas entranhas das carruagens.

Mais do que discutir a duvidosa eficácia científica daquela engenhoca, sinto-me na estrita obrigação de reconhecer o esforço hercúleo do génio criativo que a engendrou, demonstrando uma capacidade quase divina para vender gelo a esquimós. Sim, porque para além da estupidez aparente do conceito, é preciso um mérito comercial inquestionável para conseguir convencer as altas patentes da empresa de transportes a abrir os cordões à bolsa e a suportar financeiramente esta monumental idiotice pública. No entanto, tal como os carrosséis do Senhor de Matosinhos a máquina já abandonou o recinto da festa após uma curtíssima temporada de testes sem sucesso, que apenas serviram para atrair a comunicação social em peso e arrancar algumas gargalhadas aos transeuntes. O problema do calor nas carruagens mantém-se rigorosamente na mesma, em busca de outra mente brilhante. Da minha parte, resta-me apenas a desilusão de ver o estaleiro vazio: é que a geringonça foi retirada antes mesmo que eu pudesse tentar a minha sorte e vender-lhes um stock de ventoinhas de papel que tenho guardadas na garagem.
 

2026/07/17

FILHOS DA RISPERIDONA

Entramos numa escola primária e o que outrora era o caos bendito de joelhos esfolados e gritos descompassados, parece agora, em certas salas, uma coreografia estranhamente contida, como se o brilho nos olhos destas crianças nascidas sob o signo do isolamento tivesse sido filtrado por um prisma químico. Esta geração, que veio ao mundo quando o abraço era proibido e o rosto alheio era apenas um rectângulo de pano, chega agora aos seis anos com um diagnóstico no bolso e uma receita de Risperidona na mão, servida com a mesma ligeireza com que se avia um quilo de carapau no mercado. Questionamo-nos, entre o café e a despesa, se este surto de "agitação" não será apenas o grito acumulado de quem passou os primeiros anos a aprender a ler expressões através de máscaras, ou se a medicina moderna decidiu que a infância é, em si mesma, uma patologia que precisa de ser devidamente sedada para não incomodar o fluxo burocrático do ensino. O medicamento, desenhado para combater demónios bem mais pesados, tornou-se o fiel da balança de uma sociedade que não tem tempo para o desassossego alheio, preferindo a paz artificial de um comprimido à gestão paciente de uma alma que cresceu entre paredes e álcool gel, num país onde o desenrasque agora também se aplica à saúde mental infantil, tratando o sintoma e esquecendo a criança…

O problema reside na assustadora generalidade desta prática, uma espécie de "pronto-a-vestir" farmacêutico que ignora as nuances da individualidade em favor de uma calma de laboratório que convém a todos, menos ao futuro destes miúdos. Muitos aplaudem a eficácia da ciência, aliviados pelo silêncio que se instala na sala de estar, enquanto outros, com o coração nas mãos, olham para estas pequenas estátuas de olhar vago e perguntam-se onde foi parar o bicho-carpinteiro que é o direito de nascença de qualquer tuga de palmo e meio. É uma discussão que divide as águas e as mesas de jantar, mas a verdade inconveniente é que estamos a medicar uma geração inteira pelo "crime" de não se ajustar a um molde que nós próprios partimos durante a pandemia, como se a Risperidona fosse o cimento para tapar as fissuras de um sistema educativo e familiar exausto. Ao normalizarmos esta prescrição em massa, estamos a abdicar da nossa responsabilidade de compreender o trauma de uma infância confinada, optando pelo atalho químico que silencia o corpo, mas que, teme-se, poderá acabar por apagar a chama de uma irreverência que sempre foi o motor deste povo; resta saber se, daqui a vinte anos, teremos adultos saudáveis ou apenas uma geração de sobreviventes que aprendeu, cedo demais, que o mundo não tolera a sua energia.

2026/06/23

PROMETO PAGAR

Olhas para a moeda que brilha na palma da tua mão e pensas no absurdo do mundo. O parque de estacionamento do supermercado está cheio, as luzes da festa da cidade piscam ao longe, e ali está ele. Um homem feito de cansaço, de vento e de invisibilidade. Ele acena com os braços, desenha círculos no ar com um pano gasto, fingindo guiar um carro que tu guias sozinho, fingindo orientar uma manobra que o teu espelho retrovisor já resolveu. Há um teatro montado no alcatrão. Um bailado mecânico onde o guião exige que ele finja que ajuda e tu finjas que acreditas. É o ritual do costume. O guião que ninguém escreveu, mas que toda a gente decora. Dás a moeda. Não dás pelo serviço, porque serviço nenhum foi feito; dás pela presença. Dás porque ele está lá. Ele recebe porque está lá. É a taxa de ocupação do desespero, o imposto invisível que pagamos para não termos de olhar nos olhos a miséria que nos rodeia. Tu não estás a pagar por um estacionamento facilitado; estás a pagar pelo teu próprio sossego, pela trégua temporária na tua consciência limpa. O arrumador não arruma carros, arruma o teu desconforto. Ele recolhe as moedas que lhe atiras para que o silêncio dele não te grite os teus privilégios à cara. É uma transacção muda entre quem tem tudo por fazer e quem já só tem o dia de hoje para sobreviver.

Porque é que o mundo continua a aceitar esta coreografia da esmola disfarçada de trabalho? Não sabes. Ninguém sabe. O supermercado factura milhões, a festa gasta milhares em fogos-de-artifício que iluminam o céu por dez minutos, e no chão, onde os pés pesam, perpetua-se a tradição da migalha. Uma moeda que compra o direito de não te riscarem o carro, ou talvez, quem sabe, o direito de não te riscarem a alma. É a burocracia da sobrevivência nas margens da sociedade. Uma dança macabra onde a dignidade é uma moeda de cinquenta cêntimos que cai num bolso furado, enquanto o motor do teu carro topo de gama arranca sem olhar para trás. Ficas a pensar nisso enquanto pões a primeira mudança. O homem já se virou para o próximo carro, repetindo os mesmos gestos mecânicos, a mesma ilusão de utilidade. O que nos prende a este ciclo de dar a quem nada faz, só porque não sabemos o que fazer com quem nada tem? É a engrenagem social que range, que dói, que se arrasta no tempo sem que ninguém mude a direcção. No fim do dia, a moeda muda de mão, o parque esvazia-se, mas a miséria continua exactamente no mesmo sítio. Arrumada. Escondida à vista de todos, no lugar mais movimentado da nossa indiferença.

2026/06/19

O PIONEIRO DE RAMALDE

Dois quilómetros. Não foi um engano no GPS, foi uma peregrinação. No Porto, onde a VCI é um parque de estacionamento pago com a sanidade dos condutores, este iluminado decidiu que o canal do Metro era a sua auto-estrada privada. Do alto dos seus 78 anos, o homem percebeu o que a Metro do Porto ainda não admitiu: as carruagens são lentas e o trânsito da cidade é um enfarte do miocárdio em câmara lenta. Entre a Senhora da Hora e Ramalde, o Toyota avançou impávido, galgando balastro como quem vai buscar o pão. E tem de ser um Toyota. Só o rigor japonês sobrevive a dois mil metros de carris sem que o cárter se desintegre ou o condutor perca a dentadura. É a fiabilidade mecânica ao serviço da demência geográfica. Enquanto nós, os cumpridores, derretemos a embraiagem na Rotunda da Boavista, este pioneiro do "chico-espertismo" seguia por ali fora, livre de semáforos e de prioridades pela direita…

A verdade é que a notícia causou mais inveja do que indignação. Ver aquele utilitário a serpentear por onde só deviam passar composições amarelas é o sonho húmido de qualquer portuense preso no nó de Francos às seis da tarde. O homem não estava perdido; estava a antecipar o futuro da mobilidade urbana. Com a cidade esburacada, o Metrobus que é um mito urbano e as obras da Linha Rosa a tornarem a Baixa num estaleiro a céu aberto, o canal do metro é a única via rápida que resta. Se calhar, o senhor só queria chegar a casa antes da próxima glaciação. No fundo, todos queríamos ser aquele Toyota: ignorar as balizas, subir o passeio da lógica e deixar a polícia a coçar a cabeça. Ontem, no Porto, houve milhares de condutores civilizados a chegar atrasados e um "maluco" num carro japonês que, por dois quilómetros, foi o único dono do tempo. No reino dos congestionados, quem tem tração às quatro e falta de juízo é rei.

2026/05/15

ZONA DE PRESSÃO URBANA

Há palavras que entram no nosso vocabulário com a subtileza de um elefante numa loja de cristais e a "zona de pressão urbana" é, sem dúvida, a rainha desta nova etiqueta semântica. Mas não se deixem enganar pelo tom técnico e quase clínico da expressão; na verdade, é apenas um palavrão burocrático inventado para que as autarquias possam, na paz do Senhor e com a mão leve no bolso alheio, transformar o vosso IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) num filme de terror digno de Hollywood. Imaginem a cena: abrem a nota de liquidação, esperam o valor do costume — aquele que já custa a engolir entre um café e um suspiro — e, de repente, dão de caras com um montante que parece o código postal de uma cidade distante. Dez vezes mais? Sim, leram bem! (E façam o favor de não esfregar os olhos, que o erro não é da vossa visão, é da vossa conta bancária). Sem um aviso prévio, sem um "olhe que isto agora vai doer" e, acima de tudo, sem qualquer consideração por quem herdou um terreno ou mantém uma casa devoluta porque a vida, essa malandra, não lhe permitiu ainda erguer palácios. O que as nossas mentes brilhantes da administração local parecem ignorar é que nem todo o proprietário é um magnata do imobiliário a aguardar que o ouro caia do céu.

Para muitos de vós — e partilho aqui a vossa estupefacção — este aumento descomunal é um convite educado, mas musculado, à venda forçada. "Se não tem dinheiro para o imposto, então que venda!", parecem sussurrar as paredes frias das repartições. É uma espécie de lógica de mercado feita à base de pressão alta, onde a propriedade deixa de ser um direito para passar a ser um castigo financeiro. No fundo, este sistema de "pressão urbana" é como aquele convidado que aparece para jantar sem avisar, come tudo o que está no frigorífico e ainda nos manda a conta da luz no final do mês. Ficamos ali, estupefactos, a olhar para o papel, sentindo-nos como o "comum mortal" que, além de pagar para viver, agora tem de pagar uma fortuna para que a sua propriedade não seja, simplesmente, devorada pela próxima actualização do sistema tributário. Haja paciência (e carteira) para tanta criatividade fiscal.

2026/05/04

AS CARRUAGENS DA RESSACA ACADÉMICA

A Queima das Fitas no Porto ergue-se como um monumento anual ao excesso, onde o civismo parece ser a primeira vítima das celebrações. Tudo começa com a euforia desenfreada no Queimódromo, um cenário de "autênticos javardos" onde a dignidade académica se dilui em hectolitros de cerveja e misturas duvidosas. Nestas noites, a juventude — imbuída de um espírito de rebeldia que roça o patológico — acredita que o sucesso escolar se mede pela quantidade de álcool que o fígado consegue processar antes do colapso. O cenário é de uma decadência previsível: grupos de "futuros senhores doutores" cambaleando pelas plataformas, transformando o espaço público num prolongamento da sua própria falta de noção. Contudo, a hipocrisia atinge o seu apogeu na manhã seguinte. Num esforço hercúleo de dissimulação, estes mesmos jovens tentam sacudir a ressaca e a vergonha para receberem, com um sorriso lívido e mãos trémulas, os familiares que chegam para a Bênção das Pastas. É um teatro de pureza improvisado, onde o hálito a álcool é camuflado por pastilhas elásticas e a postura "nobre" tenta esconder que, poucas horas antes, a única preocupação era não cair na linha do metro. 

Neste caos coreografado, importa enaltecer as verdadeiras figuras de resistência: os maquinistas e profissionais do Metro do Porto. Enquanto a cidade se entrega à histeria festiva, estes homens e mulheres mantêm-se como pilares de sobriedade e profissionalismo, operando em horários contínuos e desgastantes. É um contraste gritante ver o maquinista, atento e sereno no seu posto de comando, ser obrigado a transportar esta massa humana barulhenta que ignora o sacrifício de quem trabalha para que eles se divirtam. Estes profissionais, alheios ao brilho das cartolas e das bengalas, garantem a segurança de quem nem sequer consegue manter o equilíbrio. Trabalham em turnos de "sossego mórbido" interrompido apenas pelos gritos de quem acha que ser estudante é um salvo-conduto para o desrespeito. Enquanto o país celebra o futuro da nação em trajes académicos, convém recordar que o verdadeiro motor da sociedade não está naqueles que mal se aguentam nas pernas, mas sim nos braços de quem, sem direito a palcos ou elogios, conduz o destino de uma juventude que parece ter-se esquecido de lavar o rosto e a alma antes de entrar na carruagem.

2026/05/01

O AMARELO DA MINHA HUMILHAÇÃO

Quem já leu algum texto meu sabe que nem tudo é reclamação, mas o disparate é mais que garantido. Resolvi, por isso, partilhar uma recordação embaraçosa que ainda hoje me faz acordar com suores frios. Recuemos ao início da década de 90 — quando alguns de vós nem sequer estavam em projecto e a internet era uma miragem de ficção científica. O mundo rendia-se à Roménia de Gheorghe Hagi. Era um futebol tão criativo, tão cheio de "veneno" e geometria, que provou ao mundo que havia outra equipa de amarelo, além do Brasil, capaz de fazer magia com uma bola de couro. Seria de esperar que o equipamento romeno estivesse à venda em cada esquina, mas o comércio desportivo da altura decidiu ignorar a tendência. Mas a moda, quando quer pegar, não pede licença: passámos todos a acrescentar 'escu' aos nossos apelidos de família e a achar que tínhamos o destino da Europa de Leste nos pés. Eu, ciente de que até um apanha-bolas de Bucareste tinha mais talento que eu, mas determinado em parecer um profissional, massacrei a minha mãe durante semanas. O meu reino por uns calções amarelos. Farta de me ouvir — e provavelmente para evitar que eu entrasse num quadro de depressão profunda — ela operou o milagre na sua velha máquina de costura. Não eram oficiais, não tinham licença da FIFA, mas eram amarelos. E eram meus.

No dia seguinte, a praia era o meu estádio, o meu Camp Nou de areia e conchas. Nunca tive tanta vontade de mostrar aptidões que, na verdade, nunca possuí. Curiosamente, o efeito placebo dos calções funcionou durante uns minutos: a bola colava ao pé, o drible fluía com uma elegância suspeita e aquele amarelo berrante, que quase exigia o uso de óculos de sol para ser observado directamente, dava-me uma confiança perigosa. Eu, mestre da discrição, tinha agora uma vasta plateia de veraneantes. Sentia-me o próprio "Maradona dos Cárpatos", pronto para assinar contrato com um colosso europeu entre dois mergulhos. Mas a glória, como tudo o que é feito de poliéster caseiro, foi curta. Um grupo de belas adolescentes passa a poucos metros da minha exibição técnica. Perante a minha melhor pose de craque, peito inchado e bola controlada com o peito, uma delas para, olha-me de cima a baixo com um desdém olímpico e dispara, com a precisão de um ponta-de-lança: «Olha-me este... Mariconço!». O silêncio que se seguiu só foi interrompido pelo som das ondas e pelo estalo do meu ego a desfazer-se em mil pedaços. A minha carreira internacional terminou ali. Ainda tentei uma operação de salvamento, cosendo umas listas laterais verdes para parecer que era adepto da Austrália ou de um clube obscuro da terceira divisão, mas o trauma era demasiado profundo. Aqueles calções nunca mais voltaram a ver a luz do sol, ficando condenados ao fundo de uma gaveta, tal como o meu sonho de jogar num clube europeu.

2026/04/03

A RESSURREIÇÃO DO PANO DO PÓ

A Páscoa em Portugal é um fenómeno metafísico que desafia qualquer teologia razoável. Celebramos a morte e a ressurreição de Cristo com uma dieta rigorosa de amêndoas, folares e cabrito, mas o verdadeiro sacrifício não acontece no altar; acontece no tanque e no estendal. Por algum motivo obscuro, a memória do sepulcro vazio desperta nas famílias portuguesas um desejo incontrolável de esvaziar os armários e declarar guerra à sujidade acumulada desde o Natal. É a "faxina pascal", um ritual de purificação onde o pecado original é substituído pelo cotão debaixo da cama e a coroa de espinhos dá lugar ao esfregão de arame. Enquanto as igrejas se vestem de roxo e silêncio, as janelas das cidades exibem o estandarte da modernidade: tapetes a arejar e cortinas a baterem ao vento como se fossem as velas de uma caravela a caminho da salvação. Nunca vi tanto cuidado de limpeza num velório. Se o luto é suposto ser um tempo de recolhimento, nós decidimos que a melhor forma de honrar a memória de quem deu a vida pela humanidade é garantir que o rodapé da cozinha brilha tanto como uma auréola. É o "limparás como Jesus limpou", o décimo primeiro mandamento escrito a giz nas paredes das lavandarias de bairro.

Este delírio higiénico transforma os três dias de reflexão num triatlo de lixívia e amoníaco. Há algo de profundamente ridículo no facto de, enquanto o mundo pára para meditar sobre a finitude da existência, a prioridade nacional passar por desinfectar a cave e lavar os acolchoados. É como se a ressurreição exigisse que a casa estivesse pronta para uma inspecção sanitária divina, caso o Messias decidisse passar para o lanche. O desgaste é total: as costas curvam-se sob o peso dos baldes, as mãos secam com os químicos e a paciência familiar explode entre uma janela mal limpa e um tapete que não seca. No final, o Domingo de Páscoa chega com a mesa farta, mas com os fiéis exaustos, mais próximos de um desmaio do que de uma epifania. Celebramos a vitória sobre a morte com o aroma a limão sintético, provando que, para o português comum, o caminho para o céu está pavimentado com cera para o chão. Afinal, se o túmulo estava vazio e imaculado, por que razão haveríamos nós de tolerar uma migalha na carpete da sala? É a nossa forma de espiritualidade: um coração puro é importante, mas umas cortinas que cheiram a amaciador são o verdadeiro milagre da época.

2026/03/20

A DIVINDADE NO LOMBO

É de uma ironia obscena, quase pornográfica, observar o desfile diário das mochilas térmicas pelas nossas avenidas. O rapaz, vindo de uma terra onde a vaca é o altar da família e o símbolo da própria vida, atravessa meio mundo para se tornar o escravo motorizado da heresia. É um misticismo de 50 cilindradas: ele transporta, com a resignação de um santo, o cadáver grelhado daquela que devia ser a sua divindade. Enquanto o GPS lhe grita ordens em inglês partido, ele leva no lombo o pecado capital de um Ocidente que decidiu que o "sagrado" se serve bem passado e com batatas fritas. É o triunfo absoluto do pragmatismo sobre a fé: a vaca deixou de ser a mãe para passar a ser o recheio de um menu promocional de 9,99 €, entregue por quem, teoricamente, devia estar a fazer-lhe uma vénia e não a verificar se o molho barbecue não verteu no caminho.
 
Os verdadeiros vilões desta história, claro, não são os estafetas — esses são apenas os figurantes de uma comédia de costumes globalizada. Os maus da fita são os consumidores de consciência eco-friendly e multicultural que, entre um tweet sobre a protecção das minorias e um elogio à espiritualidade oriental, não hesitam em fazer com que um devoto de Krishna lhes leve a picanha à porta num domingo de chuva. Exigem tolerância, celebram a diversidade, mas o seu humanismo termina onde começa o apetite por um hambúrguer de novilho. É a suprema hipocrisia europeia: importamos a mão-de-obra de quem venera a vaca para que nos matem a fome com a própria vaca, tudo isto enquanto criticamos a falta de valores do mundo moderno. No fim do dia, o estafeta volta para o seu quarto partilhado com o cheiro da gordura alheia entranhado na pele; e o europeu arrota a divindade do outro com a satisfação de quem ajudou à integração através de uma gorjeta de cinquenta cêntimos na aplicação.
 

2026/03/11

A ILUSTRE CASA DE ESPINHO

A Casa de Espinho não possuía a sobriedade pétrea do Ramalhete, mas exalava aquela modernidade foleira de quem confunde prestígio com acabamentos em mármore flutuante e domótica de última geração, tudo devidamente facturado em nome de terceiros. Era ali, naquele santuário de veraneio erguido sobre as areias movediças da influência, que o nosso Primeiro-Ministro — um Afonso da Maia convertido ao pragmatismo das parcerias público-privadas — via o seu império de silêncios ser devassado pela luz crua de um mandado de busca. O ar condicionado, outrora silencioso como uma conta na Suíça, parecia agora sibilar segredos de irregularidades fiscais, enquanto as paredes, adornadas com arte contemporânea de gosto duvidoso e proveniência incerta, assistiam à entrada triunfal da autoridade. Não havia ali a tragédia de um incesto clássico, mas sim a comédia de um enriquecimento súbito, um drama de "offshores" e anexos não licenciados que cheirava a maresia e a suborno mal disfarçado sob o verniz da legalidade burocrática. O cenário estava montado para o clímax da nossa eterna "portugalidade": o momento exacto em que a gravata do magistrado se cruza com o colarinho engomado da corrupção, num baile de máscaras onde o Estado é, simultaneamente, o juiz que condena e o senhorio que perdoa a dívida em troca de uma emenda no Orçamento.

No epicentro deste nevoeiro jurídico, o Inspector, um homem de maxilar rígido e princípios que pareciam talhados em granito, via-se subitamente perante o mais bizarro dos obstáculos: a tentação em forma de Diário da República. Enquanto as suas mãos, treinadas na frieza dos arquivos, folheavam as provas de uma promiscuidade financeira sem precedentes, o telefone vibrou com a urgência de um convite que tresandava a conveniência ministerial. Era o "remake" perfeito da decadência nacional; em vez do duelo de honra ao amanhecer, propunha-se uma pasta no Governo ao pôr-do-sol. "Senhor Inspector," murmurava a voz do poder, carregada daquela melancolia cínica de quem sabe que todos têm um preço, "porquê perder tempo a investigar o passado desta casa, quando pode vir para Lisboa desenhar o futuro da nação?". O dilema era puramente queirosiano: de um lado, a poeira dos processos e a integridade de uma carreira de funcionário; do outro, o brilho dos carros oficiais e a imunidade dos salões de S. Bento. O Inspector, olhando para a Casa de Espinho que agora parecia um castelo de cartas prestes a ruir, percebeu que a justiça em Portugal não é cega, é apenas terrivelmente míope, preferindo sempre o conforto de um gabinete ministerial ao desconforto de uma cela partilhada. Ali, entre o salitre e a traição, morria a investigação e nascia um novo Secretário de Estado, provando que, no grande livro da política lusa, os capítulos mudam mas os pecados são, invariavelmente, os mesmos.

2026/02/06

A LOGÍSTICA DOS BEBÉS

Mesmo com a liberdade de Abril, os nossos progenitores mantiveram uma relação difícil com certos temas. A natalidade era um deles. A célebre história das abelhas ou a versão logística da cegonha que transportava o petiz no bico sempre me soaram a narrativa mal ensaiada — até porque a viagem desde França é longa e a pobre ave não devia ter formação em halterofilismo infantil. Sem internet, sem motores de busca e sem influenciadores certificados, a educação sexual fazia-se como Deus queria: entre a sabedoria ancestral da revista Maria e algumas publicações de cariz mais erótico disponíveis no quiosque. Mesmo sem coragem para comprar, bastava observar a capa para uma aprendizagem visual acelerada. Com mais ou menos pudor, o certo é que os hospitais estavam cheios de mulheres barrigudas, todas à espera da epidural que ajudaria a aliviar as dores e, já agora, a sustentar a demografia nacional. Os tempos modernos trouxeram conhecimento em abundância e contacto físico em escassez. Hoje sabe-se tudo sobre sexo — teoricamente — mas pratica-se pouco, preferencialmente nunca e, se possível, apenas em ambiente virtual. As falésias estão desertas, já não há carros de vidros embaciados nem desculpas esfarrapadas sobre observar as estrelas.

Ter um único rebento exige contas afinadas, simuladores financeiros e uma fé inabalável, contrastando com as antigas mães que montavam verdadeiras equipas de futsal sem apoio do Excel. Ainda assim, quem ousar contribuir para os nascimentos nacionais deve estudar previamente o mapa rodoviário e o enquadramento legal de cada rotunda. Nunca se sabe em que jurisdição administrativa o cordão umbilical será cortado. Receber um filho num hospital tornou-se um desporto radical, mais imprevisível do que a lotaria e com probabilidades igualmente desanimadoras. Por razões alheias às parturientes — expressão elegante para “ninguém sabe bem porquê” — as salas de obstetrícia passaram a existir apenas em comunicados oficiais. Em breve, cada ambulância dos bombeiros seguirá equipada com um representante do registo civil, uma máquina multibanco e, idealmente, um terminal de senhas. Após o nascimento, será possível registar o fedelho ali mesmo, sem atrasos nem sentimentalismos, desde que o pagamento das respectivas taxas seja efectuado com sucesso. Caso contrário, a criança terá de aguardar — porque nascer é um direito, mas existir oficialmente continua a ser um serviço pago.