2026/07/17

FILHOS DA RISPERIDONA

Entramos numa escola primária e o que outrora era o caos bendito de joelhos esfolados e gritos descompassados, parece agora, em certas salas, uma coreografia estranhamente contida, como se o brilho nos olhos destas crianças nascidas sob o signo do isolamento tivesse sido filtrado por um prisma químico. Esta geração, que veio ao mundo quando o abraço era proibido e o rosto alheio era apenas um rectângulo de pano, chega agora aos seis anos com um diagnóstico no bolso e uma receita de Risperidona na mão, servida com a mesma ligeireza com que se avia um quilo de carapau no mercado. Questionamo-nos, entre o café e a despesa, se este surto de "agitação" não será apenas o grito acumulado de quem passou os primeiros anos a aprender a ler expressões através de máscaras, ou se a medicina moderna decidiu que a infância é, em si mesma, uma patologia que precisa de ser devidamente sedada para não incomodar o fluxo burocrático do ensino. O medicamento, desenhado para combater demónios bem mais pesados, tornou-se o fiel da balança de uma sociedade que não tem tempo para o desassossego alheio, preferindo a paz artificial de um comprimido à gestão paciente de uma alma que cresceu entre paredes e álcool gel, num país onde o desenrasque agora também se aplica à saúde mental infantil, tratando o sintoma e esquecendo a criança…

O problema reside na assustadora generalidade desta prática, uma espécie de "pronto-a-vestir" farmacêutico que ignora as nuances da individualidade em favor de uma calma de laboratório que convém a todos, menos ao futuro destes miúdos. Muitos aplaudem a eficácia da ciência, aliviados pelo silêncio que se instala na sala de estar, enquanto outros, com o coração nas mãos, olham para estas pequenas estátuas de olhar vago e perguntam-se onde foi parar o bicho-carpinteiro que é o direito de nascença de qualquer tuga de palmo e meio. É uma discussão que divide as águas e as mesas de jantar, mas a verdade inconveniente é que estamos a medicar uma geração inteira pelo "crime" de não se ajustar a um molde que nós próprios partimos durante a pandemia, como se a Risperidona fosse o cimento para tapar as fissuras de um sistema educativo e familiar exausto. Ao normalizarmos esta prescrição em massa, estamos a abdicar da nossa responsabilidade de compreender o trauma de uma infância confinada, optando pelo atalho químico que silencia o corpo, mas que, teme-se, poderá acabar por apagar a chama de uma irreverência que sempre foi o motor deste povo; resta saber se, daqui a vinte anos, teremos adultos saudáveis ou apenas uma geração de sobreviventes que aprendeu, cedo demais, que o mundo não tolera a sua energia.

Sem comentários:

Enviar um comentário