2026/07/29

A MÁQUINA DE FAZER FRIO

A malta de Matosinhos viu, com profunda tristeza e o estômago ainda meio revirado pela última dose de farturas, os carrosséis e as habituais atracções da festa partirem em busca de nova romaria e de outro santo padroeiro mais necessitado de milagres. Contudo, para os amantes do surrealismo quotidiano, não foi preciso esperar um ano inteiro para que, no mesmíssimo local, se instalasse um novo foco de atracção local. Não propriamente turística, concedo, mas de uma genialidade mecânica nunca antes vista na Invicta. Ora, precisamente onde outrora se erguia a mítica barraca das farturas com o seu óleo sagrado, alguém com demasiada iniciativa e manifesta falta de supervisão decidiu instalar um gerador monumental, equipado com dois tubos de dimensões tão colossais que seriam capazes de esconder, com assinalável conforto, vários prisioneiros em plena fuga de uma cadeia de alta segurança. A brilhante ideia por detrás daquela escultura industrial consistia, nada mais, nada menos, do que tentar resolver as crónicas maleitas do ar condicionado das composições do Metro do Porto, injectando ali uma monumental lufada de ar frio directamente nas entranhas das carruagens.

Mais do que discutir a duvidosa eficácia científica daquela engenhoca, sinto-me na estrita obrigação de reconhecer o esforço hercúleo do génio criativo que a engendrou, demonstrando uma capacidade quase divina para vender gelo a esquimós. Sim, porque para além da estupidez aparente do conceito, é preciso um mérito comercial inquestionável para conseguir convencer as altas patentes da empresa de transportes a abrir os cordões à bolsa e a suportar financeiramente esta monumental idiotice pública. No entanto, tal como os carrosséis do Senhor de Matosinhos a máquina já abandonou o recinto da festa após uma curtíssima temporada de testes sem sucesso, que apenas serviram para atrair a comunicação social em peso e arrancar algumas gargalhadas aos transeuntes. O problema do calor nas carruagens mantém-se rigorosamente na mesma, em busca de outra mente brilhante. Da minha parte, resta-me apenas a desilusão de ver o estaleiro vazio: é que a geringonça foi retirada antes mesmo que eu pudesse tentar a minha sorte e vender-lhes um stock de ventoinhas de papel que tenho guardadas na garagem.
 

2026/07/17

FILHOS DA RISPERIDONA

Entramos numa escola primária e o que outrora era o caos bendito de joelhos esfolados e gritos descompassados, parece agora, em certas salas, uma coreografia estranhamente contida, como se o brilho nos olhos destas crianças nascidas sob o signo do isolamento tivesse sido filtrado por um prisma químico. Esta geração, que veio ao mundo quando o abraço era proibido e o rosto alheio era apenas um rectângulo de pano, chega agora aos seis anos com um diagnóstico no bolso e uma receita de Risperidona na mão, servida com a mesma ligeireza com que se avia um quilo de carapau no mercado. Questionamo-nos, entre o café e a despesa, se este surto de "agitação" não será apenas o grito acumulado de quem passou os primeiros anos a aprender a ler expressões através de máscaras, ou se a medicina moderna decidiu que a infância é, em si mesma, uma patologia que precisa de ser devidamente sedada para não incomodar o fluxo burocrático do ensino. O medicamento, desenhado para combater demónios bem mais pesados, tornou-se o fiel da balança de uma sociedade que não tem tempo para o desassossego alheio, preferindo a paz artificial de um comprimido à gestão paciente de uma alma que cresceu entre paredes e álcool gel, num país onde o desenrasque agora também se aplica à saúde mental infantil, tratando o sintoma e esquecendo a criança…

O problema reside na assustadora generalidade desta prática, uma espécie de "pronto-a-vestir" farmacêutico que ignora as nuances da individualidade em favor de uma calma de laboratório que convém a todos, menos ao futuro destes miúdos. Muitos aplaudem a eficácia da ciência, aliviados pelo silêncio que se instala na sala de estar, enquanto outros, com o coração nas mãos, olham para estas pequenas estátuas de olhar vago e perguntam-se onde foi parar o bicho-carpinteiro que é o direito de nascença de qualquer tuga de palmo e meio. É uma discussão que divide as águas e as mesas de jantar, mas a verdade inconveniente é que estamos a medicar uma geração inteira pelo "crime" de não se ajustar a um molde que nós próprios partimos durante a pandemia, como se a Risperidona fosse o cimento para tapar as fissuras de um sistema educativo e familiar exausto. Ao normalizarmos esta prescrição em massa, estamos a abdicar da nossa responsabilidade de compreender o trauma de uma infância confinada, optando pelo atalho químico que silencia o corpo, mas que, teme-se, poderá acabar por apagar a chama de uma irreverência que sempre foi o motor deste povo; resta saber se, daqui a vinte anos, teremos adultos saudáveis ou apenas uma geração de sobreviventes que aprendeu, cedo demais, que o mundo não tolera a sua energia.