2023/12/01

A REVOLUÇÃO COMERCIAL

Muito se tem falado sobre a implementação da inteligência artificial. De acordo com alguns peritos na matéria, está a acontecer e, segundo eles, é algo que está em marcha e não tem retorno. Tendo em conta o elevado grau de estupidez e incompetência que caracteriza a humanidade, ser gerido por uma máquina até nem parece assim tão mau. Porém, numa análise mais profunda, ter um conjunto de zeros e uns (linguagem binária) a ditar as regras básicas para a minha (e nossa) convivência é algo que já existe e assombra milhões de pessoas: chama-se vida de casado! Os homens podem sugerir à vontade mas, no final, a última palavra é delas. E sim, é impossível contrariar esta rotina que atravessa gerações. O mesmo tem vindo a acontecer com a tecnologia. Ainda recordo quando se acedia à Internet através de um modem que acordava toda a vizinhança (num raio de dois quilómetros) enquanto transformava a linha telefónica. Parece conversa jurássica, mas foi há menos de trinta anos. A invasão tecnológica existe, mexe com a carteira e obriga a uma constante adaptação para quem não quer perder o ritmo da evolução “bugiganguesca” asiática… 
 
Como qualquer consumidor (em necessidade) desloquei-me a uma loja de vestuário numa grande superfície comercial. Não vou abordar o custo desmesurado das peças, tendo em conta a pouca quantidade de tecido, nem o facto da moda actual prestar homenagem a músicos rebeldes já falecidos. O impacto tecnológico ocorreu na chegada à caixa, para pagamento. Para além de vislumbrar vários terminais vazios – até cheguei a equacionar uma greve dos trabalhadores do sector – reparo que apenas um funcionário está ao lado do balcão a encaminhar os clientes para uma caixa metálica em regime self-service. Numa espécie de formação ultra rápida, o cliente fica apto a enfiar a roupa num buraco que, pasmem-se, lê os códigos de barras no meio daquele amontoado. Em frente, sacos de papel com três tamanhos, para escolher conforme o volume de roupa comprado. E, pelo meio, uma espécie de pinça metálica para retirar os alarmes e qualquer alfinete que possa provocar morte por hemorragia. Dobrar, atafulhar na saca e pagar. Um atendimento gélido, que transforma qualquer cliente num funcionário destemido. E com a vantagem de (ainda) pagar por tudo isto, reduzindo os custos com o pessoal da loja. Confesso que, mesmo não precisando de mais roupa, sinto vontade de lá voltar.
 

2023/09/01

A CONTRA-OFENSIVA DOS DESCOBRIMENTOS

Mamãe. É desta forma que, nos últimos dias, o meu filho Mateus tem vindo a tratar a sua progenitora. Como qualquer criança que se preze – e sempre disse que, apesar de criticar, sou Tuga como qualquer um – passa grande parte do seu tempo agarrado a uma bugiganga electrónica chinesa, que tenha o YouTube. Autodidacta, se quiserem ver o lado positivo. E foi num desses vídeos, em Português do Brasil, que aprendeu a usar uma expressão que não faz parte do nosso campo lexical. Porém, é importante mencionar que este fenómeno de socialização não se limita aos miúdos e seus vídeos coloridos. Nós, adultos, não perdemos uma oportunidade para sacar do aparelho e ver seja o que for. Até mesmo o ritual da sanita ficou diferente – parece que o intestino só funciona com um ecrã à frente. Razão pela qual se perde demasiado tempo naquela divisão e com fortes probabilidades de espasmos musculares. Durante o período de isolamento (naquele espaço ou transportes públicos), enquanto se evita a todo custo o contacto social, as séries dobradas em brasileiro vão matando, pouco a pouco, a nossa língua materna… 
 
Pedro Álvares Cabral comandou uma armada, em direcção à India, seguindo as pisadas de Vasco da Gama. Fazendo jus ao brilhante sentido de orientação lusitano, perdeu-se e foi encontrar o Brasil. E pronto, já que lá estava, começou a trabalhar na purificação da alma dos nativos. Podemos dizer que a reposta demorou meio século, mas não falhou. A comunidade brasileira é a mais representativa em Portugal e as suas telenovelas, actores, actrizes, músicos, jogadores de futebol e mais algum que se queiram lembrar, fazem as delícias dos que cá estão! Aliás, foi Scolari que reacendeu em nós o orgulho nacional na bandeira e hino. E, mesmo não distinguindo os castelos dos pagodes ou de que lado está a cor vermelha, atacamos as lojas chinesas como se a nossa vida dependesse disso! Nos dias de hoje é perfeitamente compreensível comprar carne no açougue, usar o celular para combinar um suco ou sorvete com os amigos e viajar de trem, se não tiver viatura. A contra-ofensiva dos descobrimentos é uma realidade que não pode ser travada, mas requer alguma atenção. Principalmente, na altura da compra de material escolar: se na lista estiver Durex, não se enervem. É fita adesiva.
 

2023/05/01

ESQUADRÃO DO CABAZ IVA ZERO

O nobre e ilustre povo lusitano, criado pelo cavaleiro D. Afonso Henriques, revela uma ganância que atravessa os tempos e gerações. O nosso mui bravo fundador, insatisfeito com o pedaço de terra (que recebeu como prenda de casamento), decidiu que queria mais e desperdiçou a sua vida numa demanda constante por mais território contra espanhóis, mouros e a própria mãe. Quase como, um casal recém-casado invadir a nossa despensa para recolher batatas, depois de ter recebido uma “air fryer”. Ao longo dos séculos, a nossa cronologia está repleta de pessoas ou instituições que se notabilizaram pela ambição e falta de honestidade. O vil metal sempre exerceu uma forte atracção sobre os pobres de espírito e, mesmo sabendo que vão parar à sala da fornalha, insistem nas patranhas. Para além dos políticos, nos dias que correm, os hipermercados assumem lugar de destaque na tabela classificativa de trafulhas. Contudo, como nenhum vilão gosta de concorrência, o executivo socialista elaborou um plano de redução dos custos de inflação e chamou-lhe “Iva Zero”. Ironicamente, adoptaram a solução imposta pelo Governo Espanhol e sempre recusada pelo nosso executivo. A história ensinou que devemos sempre desconfiar das atitudes dos “nuestros hermanos” – os adeptos portistas recordam com mágoa o trabalho do Lopetegui… 
 
Como nós, portugueses, gostamos de divulgar as boas-notícias é importante dizer que, depois das apresentações em “Powerpoint”, tivemos de esperar a publicação do decreto em Diário da Republica. Este espaço temporal foi suficiente para que as grandes superfícies mudassem os cartazes promocionais, exagerando nos preços de vários produtos. Para evitar mais peripécias ou gincana dos preços, o governo decidiu recorrer a uma empresa externa para fiscalizar algumas lojas comerciais em busca de preços alterados. As pessoas estranharam a ausência da “ASAE”, mas como os políticos estão lá para decidir, então que resolvam estes problemas. O Esquadrão promete fiscalizar os preços dos produtos que fazem parte da promessa de não haver iva em vários produtos. É do conhecimento público que as entidades de regulação são verdadeiras anedotas e não funcionam. Mesmo utilizando slides de apresentação engraçados, o governo sabia que esta ideia estava condenada ao fracasso e chacota pública. Gostava de vos dizer que o Esquadrão encontrou muitas irregularidades e puniu os vigaristas dos preços manipulados, mas não posso! Porque neste país, de brandos costumes, utilizam uma caçadeira para matar moscas. O tiro, para além de sair pela culatra, consegue provocar mais estragos. Abriguem-se!
 

2023/02/03

COISAS QUE FICAM POR DIZER

Aquando do processo da criação, o ser humano recebeu o dom da palavra. Segundo rezam os testemunhos dos tempos idos, tem vindo a aprimorar várias formas de linguagem e, com recurso à tecnologia, é possível compreender outros idiomas de uma forma civilizada e que não envolva gestos e gritaria, como se o problema de comunicação fosse a surdez. Talvez por isso as agências de viagens recebam mais clientes dispostos a conhecer outros destinos que não Badajoz ou Tui – para a compra de rebuçados a preços mais vantajosos. As pessoas estão mais informadas e com vontade de descobrir e partilhar culturas. A nível interno é, de igual modo, notória uma ligeira mudança nos hábitos sociais. A nossa bendita sociedade tem vindo a revelar maior preocupação com os que padecem de doenças, idade avançada ou têm (temporariamente) motivo que justifique algum tipo de prioridade. Infelizmente, como devem calcular, as mudanças comportamentais são lentas e, por vezes, acreditem no que vos digo, há coisas que deveriam ficar por dizer… 
 
Eu, como membro integrante deste país fundado numa discussão familiar, tenho uma grande quota de disparates nesta onda viral de mudança. Mesmo que não entenda algumas benesses atribuídas tento, sob protesto silencioso, cumprir com a legislação sem me aborrecer muito. Outras vezes, surge no meu interior uma vontade de ser demasiado prestável e eloquente e, claro está, vem disparate! Recordo que em tempos, numa loja de desporto, enquanto aguardava na fila de caixa, disse a uma senhora (depois de uma rápida apreciação física) que poderia passar à minha frente. Neste mesmo instante, enquanto o companheiro dela se ria, a dita lançou-me um olhar deveras intimidatório. Foi quando tive consciência da minha gafe e que o volume por detrás da camisola não era gravidez, mas sim, o acumular de diversos exageros alimentares. Recentemente, num convívio de colegas de trabalho e suas famílias, num gesto ao qual sou completamente alheio e acreditando veemente no que estava a dizer, resolvi elogiar a filha de um colega. Depois de alguma desconfiança – que, de imediato, causou uma espécie de arrepio e certeza que havia feito asneira da grossa – resolveu explicar, com um sorriso, que era a esposa. Perdi, claro está, uma grande oportunidade para estar calado.