Aquando do processo da criação, o ser humano recebeu o dom da palavra. Segundo rezam os testemunhos dos tempos idos, tem vindo a aprimorar várias formas de linguagem e, com recurso à tecnologia, é possível compreender outros idiomas de uma forma civilizada e que não envolva gestos e gritaria, como se o problema de comunicação fosse a surdez. Talvez por isso as agências de viagens recebam mais clientes dispostos a conhecer outros destinos que não Badajoz ou Tui – para a compra de rebuçados a preços mais vantajosos. As pessoas estão mais informadas e com vontade de descobrir e partilhar culturas. A nível interno é, de igual modo, notória uma ligeira mudança nos hábitos sociais. A nossa bendita sociedade tem vindo a revelar maior preocupação com os que padecem de doenças, idade avançada ou têm (temporariamente) motivo que justifique algum tipo de prioridade. Infelizmente, como devem calcular, as mudanças comportamentais são lentas e, por vezes, acreditem no que vos digo, há coisas que deveriam ficar por dizer…
Eu, como membro integrante deste país fundado numa discussão familiar, tenho uma grande quota de disparates nesta onda viral de mudança. Mesmo que não entenda algumas benesses atribuídas tento, sob protesto silencioso, cumprir com a legislação sem me aborrecer muito. Outras vezes, surge no meu interior uma vontade de ser demasiado prestável e eloquente e, claro está, vem disparate! Recordo que em tempos, numa loja de desporto, enquanto aguardava na fila de caixa, disse a uma senhora (depois de uma rápida apreciação física) que poderia passar à minha frente. Neste mesmo instante, enquanto o companheiro dela se ria, a dita lançou-me um olhar deveras intimidatório. Foi quando tive consciência da minha gafe e que o volume por detrás da camisola não era gravidez, mas sim, o acumular de diversos exageros alimentares. Recentemente, num convívio de colegas de trabalho e suas famílias, num gesto ao qual sou completamente alheio e acreditando veemente no que estava a dizer, resolvi elogiar a filha de um colega. Depois de alguma desconfiança – que, de imediato, causou uma espécie de arrepio e certeza que havia feito asneira da grossa – resolveu explicar, com um sorriso, que era a esposa. Perdi, claro está, uma grande oportunidade para estar calado.

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