Os leitores da minha geração recordam, com certeza, a mítica frase no filme “Campo de Sonhos” (1989), com Kevin Costner. Um agricultor que, ouve uma estranha voz que lhe diz “se o construíres, ele virá”, tem uma visão de um campo de basebol e destrói as poupanças e a plantação. Quero assegurar que não recebi nenhuma visão, nem vou gastar as minhas poupanças para construir seja o que for – até porque, com o valor disponível, não faria grande coisa. Tive uma epifania, desta frase, quando reparei que várias câmaras municipais resolveram investir na ecologia, através dos passadiços de madeira. E, como na profecia cinematográfica, construíram e eles apareceram! É absolutamente incrível registar a adesão dos atletas amadores de Domingo de manhã. Alguns, que nem esperaram pela conclusão dos trabalhos de construção, não hesitaram em trocar a fatiota clássica pelo fato-de-treino. Esquivaram-se da cerimónia religiosa para tratar do corpinho. Afinal, de nada serve a alma se o coração deixar de bater ou a barriga impedir que as calças assentem. E será preferível queimar as calorias que resistir ao sono durante a missa…
Ao longo do percurso, dezenas de pessoas percorrem as traves de madeira, em velocidades diferentes, sempre com o bem-estar físico no pensamento. Se alguns comparecem sozinhos, outros arrastam familiares directos, inclusive, a sogra – talvez com a maquiavélica esperança que tenha um ataque cardíaco e um motivo válido para ficar cinco dias em casa e voltar à igreja. Bicicletas, canídeos e até carrinhos de bebé, com pais desesperados por cansar os seus rebentos em troca de uma hora de sossego. Tudo serve para sair de casa, aproveitar a manhã solarenga e percorrer os passadiços. E, se uns correm em modo profissional, outros preferem andar enquanto afiam a má-língua com as novidades regionais, não publicadas nos jornais. Assim se recarregam as baterias para uma nova semana que se avizinha. Segue-se um almoço generoso e, quem sabe, uma tarde de relaxamento muscular – excepto os pais, que vão descobrir que o rebento não se cansou. Quanto à não purificação da alma, por ausência na igreja, há-que admitir que o pecado espreita em todo o lado e, entre pecar na cerimónia (rogando pragas ao padre pelo tempo gasto no sermão) e criticar a vizinhança nos passadiços, o resultado está à vista. Com a vantagem de respirar ar puro. Incenso e enxofre não dão saúde nenhuma.
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