2020/09/01

PENSAMENTOS SEM CHUMBO

Agarrado à pistola de abastecimento de combustível, dou por mim a pensar que uma boa parte do salário miserável recebido desaparece sob a forma líquida. Considero tal gesto como um investimento para garantir mais um mês de deslocações para o trabalho com o objectivo de voltar a receber alguns trocos. Um ciclo vicioso que ataca centenas de condutores (das várias classes sociais) que visitam regularmente as estações de serviço. E, nesta crónica, prometo não implicar com os oportunistas que aproveitam a torneira da água para dar banho completo ao carro ou os que, num acto de rebeldia, resolvem fumar ao lado das botijas de gás. Algo que deveria ser premiado pela comunidade Nobel! Para aliviar o sofrimento provocado pela crueldade dos números (muitos euros e poucos litros) vou apreciando o panorama que me rodeia. Estacionado na bomba 2 está um monovolume. O condutor luta com todas as forças para conseguir fechar a porta da bagageira por causa de tanta tralha acumulada. No interior três crianças e uma mulher mal-arranjada que, num gesto de apoio e solidariedade, deixaram-no sozinho! Com aspecto cansado – talvez pelos gritos, cânticos ou poucas horas de sono – tenta cumprir mais uma tarefa imprescindível para o bom ambiente familiar. Pelas características da viatura (admitam, um monovolume é basicamente um ovo com rodas), ou pelo rumo financeiro que a vida de casado implica, é notória a tristeza nos olhos daquele homem… 
 
Num ápice, as atenções voltam-se para o rugido de motor da viatura que estacionou na bomba 4: um bólide desportivo, apenas com dois lugares, desenhado por alguém que não tem por hábito ir às compras. No interior uma mulher bem arranjada, estilo modelo das melhores passerelles. O centro das atenções: seja por ela ou pelo carro. A representação mais pura da vida de solteiro! Sem preocupações ou gritos incessantes da petizada. Escusado será dizer que o condutor do monovolume olhou para a tentação do bólide, mas não foi retribuído. Duas realidades distintas, observadas neste pequeno epicentro petrolífero, que marcam as diferenças da nossa sociedade. Contudo, tal como acontece com a morte, a mudança de realidade ocorre sem aviso prévio e os que deixaram o mundo dos “solteiros” têm por hábito (mais cedo ou mais tarde) sentir saudades do que deixaram para trás. Porém, depois da escolha feita, perde-se o ponto de retorno. É importante saber lidar com a decisão tomada e resistir à tentação permanente! Por esta altura, o abastecimento ficou concluído e sei que não posso terminar esta crónica sem vos indicar a que mundo pertenço. Admito, olhei para o “maquinão” da bomba 4. O carro, claro.
 

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