A Páscoa em Portugal é um fenómeno metafísico que desafia qualquer teologia razoável. Celebramos a morte e a ressurreição de Cristo com uma dieta rigorosa de amêndoas, folares e cabrito, mas o verdadeiro sacrifício não acontece no altar; acontece no tanque e no estendal. Por algum motivo obscuro, a memória do sepulcro vazio desperta nas famílias portuguesas um desejo incontrolável de esvaziar os armários e declarar guerra à sujidade acumulada desde o Natal. É a "faxina pascal", um ritual de purificação onde o pecado original é substituído pelo cotão debaixo da cama e a coroa de espinhos dá lugar ao esfregão de arame. Enquanto as igrejas se vestem de roxo e silêncio, as janelas das cidades exibem o estandarte da modernidade: tapetes a arejar e cortinas a baterem ao vento como se fossem as velas de uma caravela a caminho da salvação. Nunca vi tanto cuidado de limpeza num velório. Se o luto é suposto ser um tempo de recolhimento, nós decidimos que a melhor forma de honrar a memória de quem deu a vida pela humanidade é garantir que o rodapé da cozinha brilha tanto como uma auréola. É o "limparás como Jesus limpou", o décimo primeiro mandamento escrito a giz nas paredes das lavandarias de bairro…
Este delírio higiénico transforma os três dias de reflexão num triatlo de lixívia e amoníaco. Há algo de profundamente ridículo no facto de, enquanto o mundo pára para meditar sobre a finitude da existência, a prioridade nacional passar por desinfectar a cave e lavar os acolchoados. É como se a ressurreição exigisse que a casa estivesse pronta para uma inspecção sanitária divina, caso o Messias decidisse passar para o lanche. O desgaste é total: as costas curvam-se sob o peso dos baldes, as mãos secam com os químicos e a paciência familiar explode entre uma janela mal limpa e um tapete que não seca. No final, o Domingo de Páscoa chega com a mesa farta, mas com os fiéis exaustos, mais próximos de um desmaio do que de uma epifania. Celebramos a vitória sobre a morte com o aroma a limão sintético, provando que, para o português comum, o caminho para o céu está pavimentado com cera para o chão. Afinal, se o túmulo estava vazio e imaculado, por que razão haveríamos nós de tolerar uma migalha na carpete da sala? É a nossa forma de espiritualidade: um coração puro é importante, mas umas cortinas que cheiram a amaciador são o verdadeiro milagre da época.
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