2026/04/03

A RESSURREIÇÃO DO PANO DO PÓ

A Páscoa em Portugal é um fenómeno metafísico que desafia qualquer teologia razoável. Celebramos a morte e a ressurreição de Cristo com uma dieta rigorosa de amêndoas, folares e cabrito, mas o verdadeiro sacrifício não acontece no altar; acontece no tanque e no estendal. Por algum motivo obscuro, a memória do sepulcro vazio desperta nas famílias portuguesas um desejo incontrolável de esvaziar os armários e declarar guerra à sujidade acumulada desde o Natal. É a "faxina pascal", um ritual de purificação onde o pecado original é substituído pelo cotão debaixo da cama e a coroa de espinhos dá lugar ao esfregão de arame. Enquanto as igrejas se vestem de roxo e silêncio, as janelas das cidades exibem o estandarte da modernidade: tapetes a arejar e cortinas a baterem ao vento como se fossem as velas de uma caravela a caminho da salvação. Nunca vi tanto cuidado de limpeza num velório. Se o luto é suposto ser um tempo de recolhimento, nós decidimos que a melhor forma de honrar a memória de quem deu a vida pela humanidade é garantir que o rodapé da cozinha brilha tanto como uma auréola. É o "limparás como Jesus limpou", o décimo primeiro mandamento escrito a giz nas paredes das lavandarias de bairro…

Este delírio higiénico transforma os três dias de reflexão num triatlo de lixívia e amoníaco. Há algo de profundamente ridículo no facto de, enquanto o mundo pára para meditar sobre a finitude da existência, a prioridade nacional passar por desinfectar a cave e lavar os acolchoados. É como se a ressurreição exigisse que a casa estivesse pronta para uma inspecção sanitária divina, caso o Messias decidisse passar para o lanche. O desgaste é total: as costas curvam-se sob o peso dos baldes, as mãos secam com os químicos e a paciência familiar explode entre uma janela mal limpa e um tapete que não seca. No final, o Domingo de Páscoa chega com a mesa farta, mas com os fiéis exaustos, mais próximos de um desmaio do que de uma epifania. Celebramos a vitória sobre a morte com o aroma a limão sintético, provando que, para o português comum, o caminho para o céu está pavimentado com cera para o chão. Afinal, se o túmulo estava vazio e imaculado, por que razão haveríamos nós de tolerar uma migalha na carpete da sala? É a nossa forma de espiritualidade: um coração puro é importante, mas umas cortinas que cheiram a amaciador são o verdadeiro milagre da época.

2024/12/20

A HISTÓRIA DO NATAL (update)

Numa espécie de pensamento fugaz, mas certeiro, tive oportunidade de constatar que todos os programas, filmes e até concertos que devorei na minha juventude sofreram actualizações – remakes ou updates, para quem preferir as parangonas estrangeiras. Se uns ficaram melhores, outros teria sido preferível que estivessem quietinhos e não desperdiçassem dinheiro. Também há os mais iluminados que acham que os valores de outrora devem ser corrigidos pelos actuais, impostos pela minoria de esquerda (que insiste enfiar um arco-íris em todos os planos). No entanto, a história de Natal mantém-se inalterada ao longo destes dois milénios. Talvez por força da Igreja (instituição) que tem os direitos de autor. Porém, repetir a mesma história todos os anos, é como ver o “Sozinho em Casa” – já todos sabemos como vai terminar! E, nestes tempos modernos das bugigangas nipónicas, os jovens não têm muita paciência para repetições. Para acorrer ao apelo dos pais resolvi adaptar a história de Natal aos dias de hoje e, desta forma, tentar salvar as festividades com algo diferente e inovador…

O Anjo do Senhor anunciou a Maria e ela concebeu do Espírito Santo. José, apanhado de surpresa, encerrou as redes sociais para evitar o falatório e comentários de ódio. Perto do fim da gravidez – e porque aquela zona de Israel anda toda aos tiros – entregaram as escassas poupanças a um agiota que agrupou uma catrefada de mulheres asiáticas grávidas e rumaram a Portugal. Todas elas receberam documentos falsos, com a indicação da mesma morada, para efectivar a consulta de obstetrícia no hospital. Sem saber falar uma única palavra da língua de Camões dirigiram-se, naquele dia 17 de Dezembro, para cumprir a profecia do nascimento do Salvador. Depararam-se com um segurança que os mandou embora porque não tinham validado a consulta através da linha SNS 24. Sem meios e completamente perdidos dormiram ao relento à porta da AIMA (Agência Integração Migrações e Asilo) durante dois dias inteiros. Finalmente foram recebidos e o tal telefonema foi efectuado, o que permitiu repetir a ida às urgências. Devidamente instalada, num quarto com mais três barrigudas, recebeu indicações que o sindicato havia convocado uma greve e os serviços estariam paralisados durante cinco dias. Nada a fazer, senão esperar. Os Reis Magos, que entretanto tinham seguido a estrela, estavam deslumbrados com os encantos de Lisboa esquecendo o valor do estacionamento (para os camelos) e aproveitando para dar forte nas natas, enquanto ouviam as lamúrias dos adeptos do Sporting e do seu treinador que tinha emigrado para Manchester. A 25 de Dezembro, mesmo com um processo negocial em curso entre enfermeiros e governo, nasceu o Menino Jesus! E, tal como acontecera há dois mil anos, ninguém deu valor ao que tinha acontecido. Até porque os Reis Magos não tinham nada para oferecer ao menino. Ficaram só com a roupa do corpo depois de alugarem um mísero quarto por duas noites.

2024/10/18

AOS MEUS NETOS...

Estamos no ano da graça de 2024. O vosso (futuro) avô, que ainda goza de alguma sanidade mental, resolve deixar uma espécie de testemunho, de alguns momentos mais icónicos, para memória futura. Se os meus filhos (ou seja, os vossos pais) optaram por perpetuar a comédia humana, através da natalidade – e não optando pela crescente moda de adoptar um animal, em vez de criar um filho – vocês podem seguir algumas memórias, deste velho que vos escreve – muitas crónicas foram escritas em quatro livros, nesta que é uma frase de autopromoção descarada! Tenho a firme certeza que o nosso país estará tão trapalhão como sempre e, talvez, a bandalheira e anarquia reinem a seu belo prazer. Provavelmente já devem ter retirado os sinais de trânsito, uma vez que ninguém os respeita e só se lembram deles quando vão a pé e levam uma valente pancada na cabeça. A educação, arrisco dizer, será uma disciplina de carácter opcional, tal como acontece hoje à religião e moral. Afinal, defendemos a língua de Camões que, para além de desactualizada, foi substituída pelo Português do Brasil. A saúde continuará um caos. Talvez avancem com o “cheque defunto”, para aqueles que tenham pressa em falecer e, porque não, assinar protocolos com os hospitais espanhóis: o tempo de espera é menor e, pelo caminho, dá para atestar o depósito de combustível. Quanto à justiça, meus caros, até me custa dizer algo…

Tinha acabado de celebrar o primeiro aniversário quando o único canal de televisão nacional (ainda a preto e branco) dizia, a todos que tinham comprado o aparelho, que um avião desgovernado tinha arrancado o telhado de uma casa em Camarate. Nesse dia morreu Sá Carneiro e, com ele, uma grande esperança de melhorar um país com dificuldades. Quatro décadas passaram e o caso ainda não chegou aos tribunais, para decidir se foi acidente ou atentado. Em 2014, José Sócrates, antigo primeiro-ministro socialista, que mesmo não sendo filósofo, caiu nas garras da investigação criminal, permanece à espera de julgamento e a criticar qualquer juiz que fique com o seu processo. Hoje, num dia importante para a malta que viu o seu dinheiro desaparecer num instante, teve início o julgamento de Ricardo Salgado, um banqueiro importante que provocou a queda do BES (Banco Espírito Santo). Nem a conotação religiosa impediu a desgraça! Não acredito que haja um desfecho para breve e, por isso, meus netos, vos deixo este testemunho. Talvez, quando lerem isto, possam recordar como tudo começou e, quem sabe, se haverá (nessa altura) um fim à vista. É esta a herança nacional que existe. Não odeiem Portugal: é um país bonito mas, infelizmente, teve muita gente chalupa em cargos importantes.

2024/08/16

EM BUSCA DA HUMILDADE PERDIDA

Os meus pais perderam dias, paciência e talvez alguma sanidade mental para incutir algum juízo, valores e educação ao seu filho – este que vos escreve esta crónica. Sou suspeito, mas acho que até fizeram um bom trabalho. Porém, como acontece com a tecnologia, a educação é algo que deveria evoluir ao longo dos anos. Talvez acompanhar (um pouco) as tendências das gerações mais novas. Seria estranho insistir na utilização da máquina de escrever ou efectuar cópias de segurança em disquetes. Aliás, muitos nem sabem o que isto é, ou foi. O único problema é que a evolução é demasiado rápida e, vá-se lá perceber porquê, as pessoas querem viver trinta anos em apenas dez. Torna-se impossível acompanhar a tendência do pensamento, principalmente nestes anos de influência dos governos de esquerda, onde as pessoas abdicaram de pensar. Quem tem a felicidade de trabalhar, mas infelizmente tem de lidar com o público, perde um pouco da sanidade mental a cada dia (ou hora) que passa…

Os descendentes das benesses monetárias socialistas são os novos membros da realeza lusitana. Sem estatuto social digno e vestidos com as melhores peças de roupa contrafeita, vendida nas lojas de marca branca (ou numa banca de feira mais próxima), chamam a si toda a importância do mundo. Uma nova classe social, que outrora focava resguardada dentro de casa, insiste em proliferar em todas as direcções. Aboliram por completo as expressões de saudação. Bom dia ou boa tarde são palavras usadas pelos antepassados, dignas de consulta no dicionário. Numa frase com cinco palavras, três são palavrões. Isto é facilmente comprovado quando apanhados ao telemóvel: a conversa é audível num raio de dois quarteirões! De vez em quando, o destino (que gosta de pregar partidas) promove a interligação com estes espécimenes. Eu próprio, no Metro, tive alguns encontros imediatos. Adoro quando recorrem ao «Você não fale assim comigo, porque não sou burro!» e, logo de seguida, reclamam porque deveria estar alguém para explicar. Vou telefonar a Moisés. Talvez me empreste o cajado para conseguir guiar estas pobres almas.

2024/06/21

PRAZO DE VALIDADE

Não me considero um polícia da despensa lá de casa, nem quero pôr em risco a minha saúde ao contrariar a gestão eficiente da minha esposa, mas confesso que, de vez em quando, verifico se a comida que lá está cumpre o respectivo prazo de validade. Acredito piamente nas indicações do fabricante e, se lá está escrita uma data, será melhor respeitar em vez de levar com uma valente gastroenterite. Porém, há os cépticos que garantem que a data está manipulada e não há qualquer perigo em enfiar no bucho alimentos com aspecto diferente do original. Antes uma dor de barriga, sacudidela no bolor ou retirar a parte estragada, que mandar dinheiro para o lixo. Por mais bonito e apetitoso que possa parecer, a verdade é que o interior – a parte mais interessante – estragou-se com a longa espera numa qualquer prateleira. Um sinal claro de ter mais olhos que barriga! E, mesmo sabendo que vou ser acusado de machismo, digo que tal fenómeno acontece com algumas mulheres…

De telemóvel na mão, duas jovens donzelas, vasculhavam as tendências de uma loja de vestuário para adolescentes. Aquela marca era a única que aceitavam ouvir falar – infelizmente, como não recebo pela referência vou continuar a crónica sem a bendita publicidade. O barulho das unhas postiças a tocar no visor era, para além do tamanho excessivo, sinal de alergia a tarefas domésticas – há coisas que nem a lógica consegue explicar! Ao lado, uma pequena bolsa (pochete, penso eu) com um espelho pequeno e material para pintura facial. A cada dez minutos, o mesmo ritual: retocar a fronha e “selfie” para as redes sociais, onde o conteúdo assenta nas “stories” publicadas pelos amigos ou malta desconhecida que segue o perfil. Sem nenhum compromisso ou plano para o futuro, excepto agendar a marcação de cabeleireiro e manutenção das unhas. Toda uma obsessão por um estatuto de beleza que dispensa qualquer tipo de relacionamento. Uma beleza supérflua e oca, que apenas anseia por reacções nas redes sociais. Um falso sentimento de estrelato. São escolhas! Contudo, o tempo não perdoa e tal como a fruta (lá de casa), existe um prazo de validade e altura certa para serem comidas.

2024/04/19

NÃO TRABALHARÁS DE GRAÇA

A religião é, tal como a política e o futebol, um tema bastante sensível e causador de algumas pisaduras e hematomas provocados por discussões mais acesas. Tendo plena consciência disso – e como a minha escrita não parece digna de provocar reacções – vou continuar a minha travessia por estes terrenos mais instáveis. O Cristianismo está fundamentado na história do filho de Deus, que viveu entre nós e, mesmo sabendo que seria traído, continuou a acreditar na raça humana. A sua morte, apesar de prevista, esteve envolta em polémica e, claro está, com dinheiro à mistura. Trinta moedas foram (naquele tempo) suficientes para entregar o Homem que tinha sido enviado para nos salvar. O que apenas prova que nada se faz de graça! Os discípulos que conseguiram sobreviver, segundo os escritos da época, nada tinham e na miséria padeceram. Porém, a humanidade ignorou esta última parte e até a própria Igreja aderiu, sem grandes problemas, às tentações monetárias aplicadas à taxa em vigor…

Lisboa foi a cidade responsável pela realização do maior espectáculo mediático religioso que há memória – superou a lotação do Estádio do Restelo aquando da digressão de outra organização religiosa brasileira. Fiéis de todo o mundo (e arredores) rumaram até à capital para a partilha da mensagem com mais de dois mil anos. Como, por estes dias, já ninguém segue as estrelas ou viaja de camelo, foi preciso abrir os cordões à bolsa. E escusado será dizer que estes ambientes mais acalorados propiciam uma espécie de tendência para o exagero. Para além da megalomania dos palcos gigantes e especulação imobiliária, foi divulgado (através do relatório oficial de contas) que a equipa responsável recebeu uma quantia bastante avultada pelos seus préstimos. Em nome do Senhor, mais de um milhão de euros multiplicaram os saldos bancários, quase como por milagre! Para além de justificado tal montante, vem provar que este país (contrariamente ao que dizem) promove a cultura do mérito e recompensa o profissionalismo. E perante tais condições remuneratórias, mesmo não indo à missa, em verdade vos digo que até eu acredito n´Ele.

2024/02/02

TRABALHOS PARA UMA VIDA

É lugar-comum ouvir alguém lamentar que há sempre um trabalho que, por razões inexplicáveis, não sai com a mesma facilidade que outros. Eu, apesar de não ser exemplo para ninguém, já despachei crónicas em cinco minutos e tenho outras que nem lembro o que quis dizer, seja por demora ou por demasiados cuidados na abordagem – há quem aguarde por um deslize para nos atirar aos lobos! Bom, já que perdi o receio inicial, vamos em frente e dedicar esta crónica humorística ao milagre do nascimento. Depois da junção de um casal, é a etapa que se segue. A noção de perpetuar os laços familiares está enraizada na sociedade e, mesmo com adversidades financeiras, a humanidade sobrevive nas barrigas das grávidas, apesar de muitas senhoras optarem por uma idade mais tardia. A chegada do meu filho Mateus colocou-me numa espécie de limbo temporal, no qual me intitulam de pai velho ou avô bastante novo – é à escolha do freguês. No entanto, é preciso deixar escrito que a sua vinda foi difícil e árdua, ao contrário daquilo que nos mostram nos filmes. Quando surgem dificuldades na concepção, os médicos especialistas prescrevem exames para averiguar qual (dos dois) é o culpado. A mulher, confesso, passa por um mau bocado perante exames dolorosos e impronunciáveis. Mas recuso aceitar que, para o homem, seja tudo fácil… 
 
O espermograma é o exame possível e que assusta só pelo nome mas, bem lá no fundo do subconsciente masculino, faz parte das fantasias sexuais. Porém, é neste ponto que a realidade se afasta dos écrans de cinema. Com recurso ao serviço público de saúde fui premiado com este exame. Na minha mente, seria recebido como um herói pela preservação da raça humana e, durante a minha curta estadia, teria tudo a que tenho direito. Fui tratado como um simples paciente e, depois de dizer ao que vinha, recebi um copo de plástico e apontaram um cubículo, destinado a guardar vassouras, para realizar a tarefa. Uma sala fria, com pouca luz e no meio um banco de madeira desconchavado. Só isto! Nem sequer uma revista, com alguma nudez, para ajudar a criar ambiente. Perante tamanho choque com a realidade, calculei que as duas enfermeiras atraentes, com meias de liga, não iriam aparecer. E, tendo em conta a fronha da recepcionista, tranquei a porta e fiquei um pouco descansado por estar sozinho. Recorri aos dados móveis e um site da especialidade para, em alguns instantes, despachar o exame. No final, a prova de vida foi entregue por um postigo manhoso e regressei. Ainda hoje estou desiludido com a minha imaginação e, se um dia tiver de repetir, vou exigir que o faça no conforto do meu lar.