A vida não pára e nem o malfadado vírus do Covid conseguiu impedir os movimentos dos ponteiros do relógio. Mesmo em regime de confinamento ouviram-se cânticos de parabéns e alguns aspirantes a cantores que, de tão desafinados, provocaram algumas rachadelas nos prédios em redor. Cá por casa (arrisco escrever) também houve actividade sonora, se bem que, restrita às notas mais agudas. A cegonha trouxe de França, poucos dias antes do estado de emergência, um petiz embrulhado num lençol e, desde então, temos vindo a cuidar dele. É pequeno, dorme quase todo o dia e, mais importante, não suja a casa! O maior incómodo é a capacidade vocal para atingir as notas mais altas por um longo período de tempo. Uma caixa torácica pequena, mas de grande alcance. Há dois cenários possíveis para conseguir suportar todas estas coisinhas fofas – recordo que não sou especialista em pediatria – comida ou passeio. Caso optem por encher-lhes o bandulho não esqueçam que, o mais certo, será voltar a ouvir os berros no fim da refeição: ganham uma otite aguda e um pequeno Buda. A solução mais adequada será passear no exterior…
O carrinho de bebé tem as rodas de borracha praticamente gastas. Tivesse um conta-quilómetros e, de certeza, assustar-me-ia com o número. Mas, o ar puro, mesmo em regime pandémico, é favorável à manutenção da minha lucidez. Sentimento partilhado pelos restantes adultos que, num acto de plena loucura, resolveram aumentar o agregado familiar e agora não perdem uma oportunidade para fugir de dentro de casa. Basta olhar em redor para ter noção da quantidade de pais que empurram os seus rebentos pelas ruas da cidade. Sinal revelador de uma elevada taxa de natalidade. Um pequeno ser frágil, indefeso, extremamente barulhento que tem o dom de encantar os que, com ele, se cruzam. Porque um carrinho de bebé atrai o olhar dos mais curiosos. Os que já tiveram ou os que ainda não se decidiram – mas, mesmo assim, vão treinando ocasionalmente – aproveitam a oportunidade para espreitar o petiz, tal como os Reis Magos. Prendas é que nem vê-las! Uma enxurrada de fofura instantânea que deixa os papás rendidos e, por alguns momentos, até esquecem o trabalho que o sacana do puto dá! Nunca soube responder condignamente aos elogios e, talvez por isso, deixe essa tarefa para a mãe. Porque quando as senhoras dizem que é tão querido, fofinho e que gostariam de ter um assim, sinto vontade de oferecer os meus préstimos e satisfazer-lhes a vontade! Em nome da natalidade, claro. Nada mais.
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