Os leitores com espírito mais ordinário vão ficar desiludidos antes do final desta frase. Lamento mas, tendo em conta o elevado nível de respeitabilidade deste trabalho, a única coisa a ser despida será o alho. Já lá vamos! Confesso que, talvez influenciado pelos diversos programas televisivos de culinária, perdi o receio e resolvi enfrentar o robot de cozinha que habita cá em casa. Mesmo sabendo que a apólice de seguro não cobre danos patrimoniais provocados pela minha aselhice, aproximei-me da “Bimby” (se algum representante da marca estiver a ler, agradeço o pagamento da publicidade) e, pela primeira vez, preparei uma refeição digna. Já tinha tentado ovos estrelados mas a casca é um obstáculo fortíssimo e, como tal, foi junto com o prato. Desta vez, com recurso aos avanços tecnológicos, consegui algo comestível sem qualquer vestígio de destruição patrimonial. Contudo, quero deixar claro que esta crónica não deve ser considerada um manifesto pró-homens na cozinha! O aviso “não façam isto em casa” ecoou na minha consciência durante todo o processo e mesmo assim não lhe liguei nenhum…
Depois de ultrapassar a terrível dificuldade de conseguir ligar a máquina, foi apenas necessário seguir as instruções no visor. Parece simples. Porém há termos melindrosos e artimanhas destinadas aos chef’s menos preparados. Começa logo pelos nomes técnicos dos acessórios: copo de medida, borboleta, varoma e outros. Absolutamente incrível! E depois há a questão da sensibilidade: não quero ser machista, mas aquilo foi concebido para o toque feminino. Errei sempre, por excesso, as gramagens indicadas. E ainda bem que tem incluída uma lâmina, porque seria fisicamente impossível conseguir tamanho grau de precisão depois de descascar alho (leiam lá outra vez!) à mão. Consegui introduzir o esparguete mas quase tive de lhe partir as pernas! Provavelmente a água estaria demasiado quente e o infeliz não achou ser uma morte digna. No final – e supervisionado pela minha esposa, claro – lá consegui expor o meu talento culinário numa travessa. Confesso estar orgulhoso por ter vencido este famigerado fantasma do passado. Infelizmente, a minha esposa queixa-se que, desde então, a máquina tem feito ruídos estranhos.
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