Tenho uma tremenda e inquietante vontade de mencionar que escrevo, em pleno regime de férias, numa varanda com vista para uma piscina absolutamente deslumbrante, mas recordo que quando esta crónica vos ocupar as vistas já tudo estará terminado e será apenas um conjunto de memórias fotográficas e números negativos na conta bancária. Apesar de ter a certeza que não deixei o meu belo país confesso que, ouvir tantos dialectos variados no átrio do hotel, leva-me a interrogar se fiz alguma mudança de direcção numa qualquer estrada e fui parar a outro sítio. É justo dizer que, em termos económicos, o turismo é a salvação de muitas cidades e o intercâmbio cultural é algo que deve ser preservado. Para além do efeito da redução da taxa de desemprego, possibilita uma maior projecção da imagem cultural local. E, escusado será dizer, a captação dos euros que os estrangeiros trazem na carteira que, ficando deste lado, dão um jeitaço ao nosso ministro das finanças! Porém, digo isto com profundo desânimo, terá alguém pensado que talvez não estejamos bem preparados para receber tanto turista...
Por mais que tente abstrair-me da realidade social, a verdade é que não consigo desligar o olhar e consequente captação de disparates – ou algo que não deveria ser assim. Um exemplo disso acaba de acontecer neste instante, quando desvio o olhar do ecrã, por uns segundos, e dou conta que o vizinho do prédio em frente resolve trocar de roupa com as cortinas escancaradas: alguém que lhe recomende um sítio para depilar tanto pêlo! A questão – e teor deste pensamento escrito – não será a educação cívica, mas sim, a comunicação entre os diferentes intervenientes no mesmo edifício. Infelizmente, algumas pessoas não dominam a língua inglesa e outros, fruto de alguma experiência profissional, arranham o básico do espanhol. O dialecto francês, estranhamente, não interessa a ninguém! O exponente máximo da barreira linguística surge no restaurante, durante o período das refeições. Funcionários tiram à sorte para explicar ao turista (e esperar que ele entenda) qual a especialidade gastronómica e que deve ter moderação durante o buffet porque há comida suficiente à disposição. O fim-do-mundo não tem (ainda) data prevista e, como tal, não será necessário chafurdar em tanto alimento, como se não houvesse amanhã. Até porque já paguei a semana inteira e espero sinceramente que os alarves estrangeiros deixem alguma comida para mim.

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