2018/07/23

O ESTADO DA NAÇÃO

Os habitantes de Terras Tugas são conhecidos pela hospitalidade e capacidade de mobilização para ajudar alguém em apuros. As pessoas emocionam-se e, de coração aberto, abrem os cordões à bolsa para contribuir conforme podem. Acreditam cegamente nas intenções e oferecem sem fazer perguntas. Tanta ingenuidade tem vindo a captar as atenções dos que recorrem a esquemas para extorquir dinheiro. Os «vigaristas plenus» conseguem inventar desculpas para que os «parolos maximus» dispensem o dinheirinho que tanto custou a ganhar! A fraca (ou nenhuma) resposta das autoridades ajuda a que mais vigaristas apareçam. Porque resulta! E vergonha… parece ser apenas um adjectivo! Como tal, confesso que foi sem qualquer espanto que recebi a notícia (publicada na revista Visão) que mais de meio milhão de euros foi desviado do fundo de ajuda às vítimas de Pedrogão Grande. Há enorme indignação porque foram reconstruídas casas devolutas (que não foram afectadas pelo incêndio) e até – pasmem-se – ruínas! Recorrendo a esquemas manhosos (com ajuda de gralhas nos requisitos da instituição responsável), sete casinhas ficaram impecáveis… e de graça! Enquanto as verdadeiras vítimas assistiram impotentes a tudo isto…

Graças a uma investigação jornalística – melhor informada que as próprias autoridades – muita gente ficou nervosa e em sobressalto. Contudo, este sentimento de culpa vai desvanecer nos próximos dias. O estado da nação não permite que alguém, capaz dum esquema destes, seja condenado ou preso. Aliás, a cadeia serve apenas para os criminosos mais rascas da sociedade. Cometeram crimes sem imaginação ou valor significativo e foram castigados por isso. Fosse o crime grandioso e a conversa seria outra! Basta ver os nomes importantes que (ainda) estão em lista de espera… Há muitas outras situações em que o “chico-espertismo” se sobrepõe às leis. Inclusive, o exemplo vem dos próprios deputados e respectivas maroscas com a morada de residência para conseguir mais uns trocos com ajudas de custo. Compreende-se, o salário deles é baixo! Sabemos que há pessoas a morar em casas camarárias (com um aluguer simbólico) quando o parque automóvel está repleto de viaturas de gama média-alta. Podia continuar com mais situações, mas penso que já perceberam que tudo se resume a uma frase: anda meio mundo a enganar a outra metade. Ou pelo evoluir dos tempos, em breve, não haverá ninguém para enganar…
 

2018/07/20

O MUNDO AO CONTRÁRIO

Segundo os cálculos científicos, já atingi metade da esperança média de vida. Fazendo as contas – e se tudo correr bem – restam ainda quatro décadas. O que, de facto, é uma óptima notícia para o meu gestor bancário e crédito habitação. Sim, quando estiver velho e caquético, vou poder dizer (se me lembrar, claro!) que sou um orgulhoso proprietário de uma casinha! Até lá, tenho uma parceria com uma tal de dona hipoteca, que nunca vi, mas está sempre presente! Quem casa, quer casa. Um dos ensinamentos que atravessou gerações. Contudo, os últimos tempos registaram mudanças comportamentais a um ritmo alucinante! As gerações mais velhas, que sempre foram consideradas fonte de sabedoria, são as principais vítimas. Hoje, uma conversa entre avós e netos é tão disfuncional que até pode ser em japonês! Não se entendem! Há um tremendo fosso de conhecimento entre eles. A infância dos mais velhos foi ao ar livre, com jogos tradicionais e brinquedos improvisados e todos eram amigos. Mesmo que uma qualquer discussão fosse resolvida a murro. No final da tarde, estavam todos (mesmo o que ficou com um olho negro) a planear o dia seguinte!

Actualmente, nada é feito sem a presença de um tablet ou telemóvel de última geração com recurso ilimitado às redes sociais. Os anciões, e seus conselhos válidos, estão desactualizados (alguns ainda se assustam quando descobrem que se utiliza um rato para mexer no computador. Ficou esperto o fuinha…). Compete aos jovens (os principais beneficiários desta actualização instantânea e mudança de valores) ter em conta a reintegração dos idosos na sociedade. Explicar-lhes que a democracia tem outros contornos e que, nestes tempos modernos, as leis são impostas pelas minorias. Haja quem explique à Ti Maria que a sua miserável reforma (calculada por uma forma aritmética indecifrável) pode desaparecer num rápido assalto. E que o meliante tem melhores armas que a polícia. Digam também ao Ti Manel, um mulherengo assumido – com várias conquistas amorosas no curriculum – que já não pode mandar piropos, ou comentar em voz alta os atributos das senhoras. Corre o risco de levar com uma manifestação à porta do centro de dia e ainda, uma multa bem pesada pelas autoridades. Coitado, com o que recebe de reforma, ficava sem comer sopa durante quinze dias...