Depois da fome e desejos carnais, a cusquice é uma das necessidades básicas do ser humano que, tal como as anteriores, deve ser satisfeita com regularidade. Todos temos carências informativas, embora uns tenham mais que outros. A revolução digital abriu as portas do mundo aos grandes especialistas da vida alheia. Alguns afortunados conseguiram lugar de destaque com programas televisivos, onde aprimoram a arte do escárnio social e com direito a audiência. Porque a vida pessoal dos outros é equivalente à notícia da invasão do Kuwait e, como tal, deve ser do domínio público. Porém, mais que criticar hábitos, roupas e extravagâncias das figuras públicas, é a observação popular diária (alcance da vista) que aguça o engenho dos cuscos – até porque as figuras públicas (vip’s) querem lá saber do falatório (má-língua) das velhotas no mercado local. Agora, a lambisgóia lá do prédio, essa sim, merece levar porrada e ser alvo de forte bullying predial: viram-na agarrada a um rapaz que parece filho dela! E sabiam que a viúva do 2º andar trocou a mobília do quarto?! E o magricelas do 4º andar, que anda sempre com nódoas nas calças por causa dos comprimidos azuis?! Foi o farmacêutico que contou...
Seguramente, enquanto leram este parágrafo, já identificaram alguém que encaixa neste modo peculiar de vida. Aliás, as alcoviteiras estão em todo o lado, como as moscas. Há dias, uma destas alminhas passou em frente da esplanada do café. Agarrada ao seu xaile, nem tinha intenção de entrar ou gastar dinheiro. Contudo, reparou que, na mesa do fundo, estava alguém conhecido com o braço ao peito e nem pensou duas vezes. Num golpe de ninja colocou-se junto dela para aplicar o ataque característico da malta das vendas por telefone: falar depressa e sempre a disparar perguntas! Como fez isso? Quando? Dói muito? A pobre senhora não conseguia tomar o pequeno-almoço, pois nem tinha tempo de completar as frases. Com uma expressão maquiavélica – como o boneco no “Senhor dos Anéis”, que julga que todos lhe vão roubar o precioso anel – conseguiu, através das respostas da vítima, satisfazer parte da sua infinita curiosidade. Aliás, atrevo-me a partilhar a dica com a malta do Ministério que tutela as nossas forças policiais: recrutem estas velhotas, especialistas em tácticas de cusquice urbana! Qualquer meliante, numa sala de interrogatório, perante estas senhoras de bata e xaile aos quadrados, não hesitaria em confessar qualquer crime, mesmo estando inocente! Agora que penso nisso, admito que seria desumano.

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