O nascimento é a única altura em que todos somos iguais. Seja através do parto normal ou cesariana, não há qualquer indicação física sobre condição económica, social, ou qualquer outra que possam pensar. Aquele momento mágico, no qual a criança leva duas vergastadas no lombo para deixar de ser preguiçosa e começar a respirar sozinha, é irrepetível! É um mito, mas diz-se que os obstetras concluíram o curso só por causa deste momento. Nesta altura, o novo ser é uma tela em branco que será formatado através do mundo exterior. O mesmo que se começa a mostrar ainda no quarto do hospital através das visitas e suas respectivas ofertas inúteis. As diferenças acentuam-se com o passar dos anos. Os mais endinheirados têm um mundo completo de oportunidades. Os mais pobres (escusado será dizer) podem fazer planos e traçar objectivos, desde que envolvam lavar o carro ou cortar a relva dos senhores doutores ricos. A vida é uma besta! Temos apenas uma passagem e, por causa de trocos, somos privados de viver com tudo aquilo que temos direito…
Da primeira palmada ao último grito da moda, deveria haver oportunidade de experimentar tanta coisa! Muito se fala em igualdade e ninguém luta para que possa conduzir um Ferrari. Pelo contrário, ainda me batem se estiver perto de algum! A pobreza atrai o marasmo e o desânimo. As jovens raparigas (e não só) deixam de cuidar a imagem e agem com um completo desinteresse, envergando as últimas tendências de trapos económicos da “Primark” – que teima em não conseguir combinar peças. Os transportes públicos são o grande observatório deste fenómeno social. Eu, que até sou utilizador frequente, reparei numa rapariga que, apesar de alguns quilos a mais, insiste em usar roupas demasiado justas. O cabelo ostentava o melhor da produção doméstica de azeite – um parque de diversões para a pediculose. Na sua mão, um pão com chouriço prestes a ser devorado em dois tempos, ainda antes da chegada do autocarro. Talvez se justificassem outras duas vergastadas na espinha para abrir os olhos e voltar a agarrar a vida, enquanto tem tempo. Lamento, mas nada fiz. Podem procurar à vontade mas, nos transportes públicos, não há pessoas glamourosas como nas revistas conceituadas. Algumas, por muito que discordem, nem sequer seriam aproveitadas para aqueles filmes badalhocos de produção caseira! Acredito que o destino não está (ainda) traçado e há verdadeiros contos de fadas e milagres. Infelizmente, por mais que tente, a minha sina envolve constantemente o lado negro.
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