2026/01/16

A REVOLTA DOS ACÉFALOS

Por muito que queira defender a teoria da persistência e acreditar que a esperança é a última a morrer, a verdade é que a nossa realidade conta uma história diferente. É, diga-se, uma sucessão de episódios caricatos, perpetuados com um orgulho quase ancestral. O “chico-espertismo”, essa inteligência saloia ou instinto primitivo de desenrasque, está de tal forma vincado no nosso ADN que parece não haver antídoto. Talvez uma reconfiguração genética – mas isso ainda não está regulamentado. Por vezes, tamanha esperteza não é mais que um acto de plena burrice – basta olhar em volta e, de certeza, vão encontrar um burro mesmo ao vosso lado! Sofremos de uma alergia crónica a normas. Se houver proveito pessoal, as regras tornam-se meras sugestões. O “dedo do meio” esticado a quem ousa protestar é o pináculo da invencibilidade de quem erra de forma consciente e voluntária…

As estradas são o grande palco desta estupidez brejeira. Para além da “análise financeira instantânea” (onde o direito de preferência é decidido pelo valor da viatura), a sinalização é desprezada em função da pressa de cada um. Houvesse uma coima de dez cêntimos por cada sinal vermelho ignorado e o ministro da economia daria saltos de alegria. As rotundas continuam a ser um mistério maior que Stonehenge e o estacionamento selvagem é o prato do dia, mesmo que obrigue um peão ou alguém em cadeira de rodas a contornar o impossível ou esperar sentado. As autoridades, que primam por uma discrição quase fantasmagórica, acabam por alimentar este clima de anarquia. O meu léxico de palavrões expande-se a cada quilómetro. É um campo de batalha no qual ninguém assume culpas e onde a “solidariedade tuga” se resume ao salve-se quem puder. Termino, sob o risco de exceder os caracteres da coluna, com a promessa de voltar ao tema. Até lá, lamento admitir: vivemos num reino de acéfalos.