2016/04/29

UMA GRANDE CALDEIRADA

A soberania de um país é comparável ao papel do homem no casamento. Há igualdade de direitos mas as directrizes são sempre impostas pela outra parte. Nada a fazer! Portugal sofreu uma limitação de quota disponível, para a pesca da sardinha, durante os últimos meses. Durante este tempo poucos se importaram com os pescadores. Nem como conseguiram sobreviver ou garantir o seu fraco rendimento apesar das contas continuarem a chegar todos os meses! A restrição terminou. E, entretanto, algo mudou nas mentalidades politiqueiras Tugas. O canal de televisão “Sic” assegurou a cobertura mediática de um gesto tantas vezes repetido e sem tanta cerimónia: a pesca da sardinha... 

Foi possível acompanhar, a partir de Matosinhos, o regresso dos pescadores à faina. Contudo, analisando as imagens divulgadas, fiquei convencido que, no local, estiveram mais políticos do que pescadores. Com aspecto cansado, pois esta malta trabalha em horários nada saudáveis. A actual Ministra do Mar, o adjunto do secretário de Estado das Pescas, o Presidente da Câmara Municipal, a Presidente da Assembleia Municipal e, com certeza, outras individualidades importantes que fizeram questão de marcar presença e sorrir (ensonados) para as câmaras de vídeo. E pescadores? Filmados ao longe, dentro dos barcos, a tocar as sirenes. A reportagem seguinte abordou o mesmo tema, em Portimão. No entanto, por lá, nenhum político deu à costa. 

2016/04/22

TUDO SE PAGA...

A busca incessante pelo dinheiro dos outros não parece conhecer limites. Em nome da pseudo crise – e de um país em estado moribundo – tudo serve para tentar extorquir os indefesos e oprimidos. Em Almada, Carla Pereira foi visitar um familiar, internado em traumatologia, no Hospital Garcia Orta. Quando entrou no quarto estranhou o silêncio e o facto de a televisão estar desligada. Não é que a programação nacional seja grande coisa, mas sempre é uma distracção para alguém que está imobilizado numa cama de hospital...

Cheia de boas intenções aproximou-se do aparelho. Para seu espanto, reparou numa caixa metálica preta ligada ao televisor. Ao lado, uma pequena folha com detalhes técnicos e preçário. Sim. Preçário! Um euro para ver 90 minutos de televisão. Dois euros se preferir ver 180 minutos. Caso queira mais tempo, é favor levantar o rabo e colocar mais moedas! Estar acamado não é desculpa! Tudo se paga! É uma expressão utilizada pelas pessoas mais religiosas. Neste ou no outro mundo. E meus amigos, a crise é tanta que nem a eternidade vai chegar para saldar as dívidas.

2016/04/15

PONTO DE VIRAGEM

O nascimento conflituoso do Condado Portucalense vincou o nosso carácter pela audácia e coragem demonstrada perante as adversidades. A época dos descobrimentos é o exponente máximo! Intrépidos marinheiros conseguiram alterar o mapa mundial. Nas últimas décadas algo correu mal. Não consigo precisar qual o ponto de viragem (talvez se algum historiador estiver a ler consiga explicar) mas somos, agora, bastante diferentes dos nossos antepassados. Perdemos o espírito lutador! Exageramos nas desculpas...

No Brasil, teve lugar o mais recente episódio emblemático da nossa capacidade de atribuir as culpas. A selecção de futebol nacional, justificou a sua péssima prestação, no Campeonato do Mundo de Futebol, com o calor excessivo, falta de descanso e grandes deslocações. Tendo em conta que, tais fenómenos atingiram as restantes selecções e que os seus jogadores até se esforçaram, tal pretexto é irreflectido e caricato! Há seiscentos anos atrás, a frota de Pedro Álvares Cabral, demorou anos para conseguir realizar a viagem e ainda encontrou forças para desembrenhar as espadas e enfrentar os nativos. Com tanta destreza e vontade, nos dias de hoje, nem sequer os Açores conseguíamos descobrir. Pois para alguns, mais sensíveis, a água estaria muito fria. 

2016/04/08

O GAJO ADORMECEU!

As grandes superfícies comerciais apostam em eventos, de carácter familiar, para atrair mais consumidores para os seus edifícios. O grande número de lojas e praças de alimentação sobrelotadas são insuficientes para justificar visitas regulares. As datas festivas são ocasiões fantásticas para aproveitar este espírito consumista. E de que maneira! O Natal é o exponente máximo das festividades públicas. De tal maneira importante, pois, em pleno mês de Outubro já se encontra uma série de lojas com decoração alusiva. Tudo isto a pensar na carteira dos Tugas que, em Dezembro, anda um bocadinho mais bem composta. A estreia dos filmes de animação, o comboio turístico, a loja dos doces, o espectáculo no gelo (não interessa qual, desde que tenha gelo) e, principalmente, a chegada do Pai Natal. Que momento épico...

Tudo é pensado ao pormenor para que seja bem rentabilizado. O sacana do velho barbudo chega à hora de almoço e – como está cansado da viagem – ausenta-se para regressar, às três da tarde, para as fotografias. Os miúdos que (ainda) sentem a magia natalícia desconhecem a estratégia consumista que, também, os inclui. Contudo, há situações que não se podem prever ou controlar. Em 2014, a petizada esperou num espaço apinhado. Ao fundo um trenó vazio. Duendes a dançar numa mistura psicadélica de fumo branco e música. O elenco da pista de gelo a socializar e posar para as fotografias. Todos gritam pelo Pai Natal. Ele não aparece! Os relógios indicam 45 minutos para além da hora prevista. Falta a personagem mais aguardada! Onde se meteu o Pai Natal?! Neste caso, o actor que lhe dá a vida? O tempo não pára e ninguém consegue disfarçar ou negar rumores de uma triste realidade: o gajo adormeceu.

2016/04/01

UM CANTEIRO DE QUATRO RODAS

Os leitores – que perdem o seu precioso tempo a ler os disparates que escrevo – podem ter opiniões diferentes quanto ao desfecho desta crónica. Porque uns apreciam a Natureza. Outros, nem por isso… Durante vários meses habituei-me a visitar o “Pulgas” – nome fictício – para um gatinho preto, sem dono, que tomava um canteiro como sua habitação. Recebia restos de comida e água fresca de alguém que ainda gosta dos animais. Bastante dócil, ocupava o seu tempo entre mimos das crianças e longas sonecas à sombra da árvore. Mas a vida nas cidades é impiedosa! O aumento da população obriga a disponibilizar mais espaços para as viaturas. Estupidamente cortam-se as árvores! E assim, o “Pulgas” ficou sem sombra...

O seu canteiro ficou reduzido a um pequeno resto de madeira e ervas daninhas. Alheio a todo este frenesim continuou por lá, a receber comida, carinhos e a ronronar de felicidade. A Natureza deixou de embelezar o canteiro daquela avenida. Os Tugas já podem cuidar dos seus afazeres sem obstruir o trânsito. Deixam as viaturas em qualquer sítio para poupar no esforço físico! Civismo?! Quem é esse “gajo”?! Graças a este espírito de desenrasque, muitas vezes, o “Pulgas” tem de se afastar para não ser atropelado por quatro rodas de uma qualquer carripana que insiste em subir o passeio para estacionar no canteiro. Porque, infelizmente, há gente para tudo. Os outros, claro.