2019/08/16

A BOFETADA DE MÁRIO SOARES

A inspiração depende do momento vivido pelo autor. E se os sentimentos negativos são preciosos para os que gostam de poesia ou textos mais sinistros, a verdade é que são prejudiciais para o humor. Tal como não é recomendável contar piadas durante um velório (apesar de, mais tarde ou mais cedo, alguém o fazer). Estou demasiado preocupado com a crise dos combustíveis para recorrer à minha veia humorística! Assim sendo – e como não guardo a escrita como restos de comida num tupperware – serei bem mais incómodo que o habitual. A síndrome do 40º aniversário (isto existe?!) faz com a minha memória trabalhe com mais força e, como tal, recordo muita coisa. A crise dos combustíveis foi motivo para despoletar uma lembrança. De nada vale repetir a cronologia da greve que, na verdade, nunca o chegou a ser. Digamos que uma pequena manifestação com supervisão parental do Governo. Porque foi necessário controlar a teimosia de duas pessoas (representantes de instituições privadas) que, por sua vez, representam os trabalhadores: os peões deste jogo! Nenhuma das partes envolvidas quis resolver problemas e a opinião pública nunca soube as reais razões do conflito. Os engravatados do poder político aproveitaram a oportunidade para “puxar dos galões”, mostrar autoridade e, talvez, limpar a imagem de compadrios e incompetência. Os adeptos da história política recordam que já vimos este filme em 1986…

No mês de Janeiro, durante a terrível crise que afectou a indústria do cristal, Mário Soares visitou a Marinha Grande e, no calor do momento, foi esbofeteado por um grupo de trabalhadores desempregados. O incidente decorreu durante a campanha eleitoral para as eleições presidenciais. Recordo aos mais novos que não havia Internet (nem redes sociais) e a notícia foi divulgada pelos órgãos de comunicação social – quando o jornalismo era realizado por profissionais credenciados, em vez de “artistas de ocasião”, conforme acontece por estes dias). O incidente foi amplamente divulgado e utilizado durante a campanha e tempos de antena televisivos. Há quem defenda que esta galheta teve uma influência decisiva no resultado das eleições, que lhe deram a vitória. O poder da simpatia pelos oprimidos funcionou! Os Socialistas têm a lição bem estudada e, em plena crise energética, o mestre da geringonça viu uma oportunidade de ouro (tal como quando fez desaparecer Pedro Passos Coelho). Conseguiu fazer esquecer as polémicas que abalaram os membros do seu executivo e, através de uma voz de comando firme e interventiva, nem foi necessário recorrer à manobra da paulada! A oposição – tão interventiva noutras ocasiões – não reage! Os motoristas são os vilões desta guerra de brincar ao estilo das rábulas de Raúl Solnado. Os ministros desdobram-se em entrevistas televisivas e o preço dos combustíveis baixou! Assim se faz a caminhada vitoriosa rumo às próximas eleições.

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