2022/08/05

DEMOCRACIA DE EMBALAR

Custou, mas finalmente é seguro dizer que se pode conceder a reforma aos carneirinhos fofinhos que pulam a cerca sem descanso, enquanto fazemos a contagem para conseguir adormecer – ou então, com fome, vamos atacar com força o frigorífico à procura de costeletas. Desconheço como começou este mito urbano ou sequer como pode ajudar a libertar a melatonina necessária ao sono e também me assusta pensar que os amiguinhos dos animais possam desenvolver acções contra este método e, num destes dias, estaremos a contar os agricultores que pulam a cerca! Este pensamento foi interrompido com o aviso de alerta, pelo “canal nacional da desgraça”, que vai ter assunto de conversa para as próximas duas horas. Regressando à teoria do sono, urge reconhecer os anos de dedicação dos peludos com chifres e, acima de tudo, ter em conta as preocupações ambientais e, por isso, vocacionar o nosso pensamento na procura de uma alternativa mais sustentável, que não envolva saltos perigosos ou contagens compulsivas. A finalidade é adormecer e, seguramente, todos temos uma sugestão de programa televisivo que nos coloque, sem grande esforço, de pálpebras fechadas a ressonar alto. No entanto, imbuído do espírito democrático, vou avançar com a minha opinião e dizer que, para ressonar desalmadamente, a Assembleia da República é bem mais eficaz que um monte de lã a pular cercas...

Disse Churchill que “a democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros.” De facto, arrisco dizer que somos democratas à falta de melhor. Poucos acreditam que o regime político, em vigor, seja a solução para os problemas actuais. A própria estrutura parlamentar leva ao empobrecimento do diálogo ou debate e as intervenções são temporizadas na base do número de deputados eleitos. Ou seja, promove-se a bajulação e o ridículo, em vez do debate sério. É absolutamente incrível saber que atribuem a palavra aos deputados do partido do governo para interpelar os colegas de partido, que estão no governo – um chorrilho de elogios, cegueira e hipocrisia totalmente escusado e degradante. Os cidadãos não podem intervir, sob pena de um encontro imediato com o bastão das forças de autoridade e mesmo os deputados (eleitos pelo povo que teve a coragem de votar) encontram obstáculos e caminhos sinuosos para conseguir passar a mensagem. Sem esquecer que alguns, durante a legislatura, nunca saberão como funciona o microfone do hemiciclo. À posterior, analisando a reportagem televisiva – dos serviços noticiosos – facilmente se chega à conclusão que aqueles momentos de interpelação retórica são uma pura encenação amadora, que se traduzem numa tarde desperdiçada. Ou, no meu caso, num sono vitalizante e reparador.

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