Dou por mim a pensar na última grande festa familiar que tive. Sei que sofro da síndrome de memória preguiçosa mas, apesar do esforço, não consigo descortinar se estive, num passado recente, a celebrar um matrimónio ou a velar num funeral. Aparentemente, tendo em conta a minha amnésia, posso concluir que ninguém quis chatices amorosas, nem dar trabalho ao coveiro. Até porque, esta coisa das festividades tem custos e os últimos meses têm sido dispendiosos. Depois de divagar pelo baú das recordações, com uma forte enxaqueca e um sentimento de frustração por não ter nada para além dos últimos dois dias, resolvo recorrer à artilharia pesada e chafurdar no arquivo de fotografias no computador. Num ápice, o simples gesto de olhar faz disparar a adrenalina e as recordações surgem como pipocas a estalar. Posso, com toda a certeza, afirmar que estive num casamento. Bastante protocolar, entediante até, mas que teve o seu momento alto durante o período da dança – geralmente após o almoço, para que a malta consiga atacar o lanche como lobos famintos. Num canto da sala, um magricelas engravatado arrastava timidamente o corpo, em movimentos curtos e desajustados, para gáudio dos que o apreciavam…
Enquanto recordava este episódio da cerimónia matrimonial dos noivos – eu busco saber o nome, mas o meu cérebro bloqueou no Michael Jackson inesperado – reparo que os serviços noticiosos, em sintonia, dão conta que António Costa, à saída de uma exposição em Maputo, foi desafiado por uma artista moçambicana a dar um “pezinho de dança”. Numa primeira impressão, depois de ter visto as imagens, pensei tratar-se de um salvamento. A senhora estava a cair e o primeiro-ministro tentou agarrá-la e demovê-la. Porém, eis que surge um martelo no meio da dança. Sabendo que, no meio da rua, não se penduram quadros temi pela integridade do nosso dirigente: um eventual atentado com a total conivência e passividade dos seguranças. Por fim, percebi que a senhora queria demonstrar as dificuldades em arranjar médicos especialistas no SNS. Até eu, que nada percebo de medicina, sei que aqueles tremores constantes não auguram nada de bom para ela. Com alguma imaginação, aceita-se chamar dança à desarticulação mútua que surgiu no ecrã. Muito parecida com aquela que vi de perto no casamento dos… coisos.
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