2026/02/20

DA ATRACÇÃO AO TRIBUNAL

Tentar explicar aos miúdos desta geração que houve um tempo em que os seus progenitores, invadidos por hormonas em estado selvagem, se sentiam atraídos por pessoas do sexo oposto é exercício de alto risco. Meio caminho andado para uma reprimenda pública, um sermão moral ou, no pior dos cenários, uma denúncia anónima nas redes sociais. Hoje, dizer que uma mulher é linda está ao mesmo nível que conduzir um calhambeque ou tentar enviar um fax: práticas obsoletas, socialmente condenáveis e dignas de arqueologia social. Só dinossauros — categoria na qual me incluo sem qualquer esforço — ainda acreditam que uma mulher se arranja para atrair a atenção de um homem. Puro delírio jurássico. Nada disso acontece. Nunca aconteceu. Foi tudo imaginação colectiva. Nos dias que correm, o simples ato de olhar é uma actividade de risco. Um olhar a mais, uma fracção de segundo mal interpretada, e eis que surge a censura. Em casos mais graves, o assédio sexual. Se, por azar biológico, existir alguma proeminência ao nível da braguilha, a sentença é imediata: castração química para o badalhoco, sem direito a recurso. O movimento ideológico de esquerda encarregou-se de reformular mentalidades e, com todo o direito que assiste às senhoras, estas não querem ser vistas como pedaços de carne, mas sim como cidadãs em pleno regime de igualdade. A mensagem é clara: elogios são desnecessários, o silêncio é seguro e evitar problemas tornou-se um estilo de vida…

Este novo paradigma conta até com o beneplácito da Igreja que, graças ao florescente número de virgens de trinta anos, esgotou os formulários de inscrição voluntária para o sacerdócio. Antes que comecem a atirar pedras — metafóricas, entenda-se — convém apontar algumas incoerências desta nova filosofia social. Apesar do discurso oficial, as senhoras continuam a surgir em apoio visual a cantores populares, exibindo atributos físicos com uma dedicação que rivaliza com a própria carreira musical do artista em causa. Nas televisões multiplicam-se videoclipes onde poses sensuais e roupa microscópica servem como eficaz cortina de fumo para a ausência de talento vocal. De igual modo, continuam a ser fotografadas para revistas sociais e cosmopolitas, sem esquecer, claro está, a indústria cinematográfica para adultos, essa grande defensora da igualdade de género. A dedução é simples e quase científica: apreciar imagens e vídeos é socialmente aceitável; fazê-lo ao vivo já entra no campo da perversão moral. Uma mulher obesa e desleixada está exactamente ao mesmo nível de uma morena sensual. Uma lontra subsidiada, com unhas de gel do tamanho de garras e tatuagens aleatórias, é perfeitamente comparável a Jennifer Lopez. A ciência social assim o determina. Resta-me a esperança de que a ciência, essa entidade milagrosa, descubra rapidamente novas formas de aumentar a natalidade. Porque, pelo andar da carruagem, muitos jovens crescerão convencidos de que o pénis tem uma única e nobre função: servir de canal urinário.