Tentar explicar aos miúdos desta geração que houve um tempo em que os seus progenitores, invadidos por hormonas em estado selvagem, se sentiam atraídos por pessoas do sexo oposto é exercício de alto risco. Meio caminho andado para uma reprimenda pública, um sermão moral ou, no pior dos cenários, uma denúncia anónima nas redes sociais. Hoje, dizer que uma mulher é linda está ao mesmo nível que conduzir um calhambeque ou tentar enviar um fax: práticas obsoletas, socialmente condenáveis e dignas de arqueologia social. Só dinossauros — categoria na qual me incluo sem qualquer esforço — ainda acreditam que uma mulher se arranja para atrair a atenção de um homem. Puro delírio jurássico. Nada disso acontece. Nunca aconteceu. Foi tudo imaginação colectiva. Nos dias que correm, o simples ato de olhar é uma actividade de risco. Um olhar a mais, uma fracção de segundo mal interpretada, e eis que surge a censura. Em casos mais graves, o assédio sexual. Se, por azar biológico, existir alguma proeminência ao nível da braguilha, a sentença é imediata: castração química para o badalhoco, sem direito a recurso. O movimento ideológico de esquerda encarregou-se de reformular mentalidades e, com todo o direito que assiste às senhoras, estas não querem ser vistas como pedaços de carne, mas sim como cidadãs em pleno regime de igualdade. A mensagem é clara: elogios são desnecessários, o silêncio é seguro e evitar problemas tornou-se um estilo de vida…
Este novo paradigma conta até com o beneplácito da Igreja que, graças ao florescente número de virgens de trinta anos, esgotou os formulários de inscrição voluntária para o sacerdócio. Antes que comecem a atirar pedras — metafóricas, entenda-se — convém apontar algumas incoerências desta nova filosofia social. Apesar do discurso oficial, as senhoras continuam a surgir em apoio visual a cantores populares, exibindo atributos físicos com uma dedicação que rivaliza com a própria carreira musical do artista em causa. Nas televisões multiplicam-se videoclipes onde poses sensuais e roupa microscópica servem como eficaz cortina de fumo para a ausência de talento vocal. De igual modo, continuam a ser fotografadas para revistas sociais e cosmopolitas, sem esquecer, claro está, a indústria cinematográfica para adultos, essa grande defensora da igualdade de género. A dedução é simples e quase científica: apreciar imagens e vídeos é socialmente aceitável; fazê-lo ao vivo já entra no campo da perversão moral. Uma mulher obesa e desleixada está exactamente ao mesmo nível de uma morena sensual. Uma lontra subsidiada, com unhas de gel do tamanho de garras e tatuagens aleatórias, é perfeitamente comparável a Jennifer Lopez. A ciência social assim o determina. Resta-me a esperança de que a ciência, essa entidade milagrosa, descubra rapidamente novas formas de aumentar a natalidade. Porque, pelo andar da carruagem, muitos jovens crescerão convencidos de que o pénis tem uma única e nobre função: servir de canal urinário.
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