2026/04/06

SARAMAGO NA LISTA NEGRA

Pelos vistos, no Portugal dos doutores e dos ajustes de contas à boca da urna, ter um Nobel da Literatura serve para pouco mais do que enfeitar a prateleira da desfeita nacional. A recente limpeza de José Saramago do plano de leitura não é um erro de currículo; é uma pequena vingança social-democrata, cozinhada em lume brando por quem nunca perdoou ao "velho" a ousadia de ter um pensamento que não cabe num boletim de voto. É o triunfo da mediocridade de secretaria, aquele regozijo burocrático de quem, não conseguindo escrever uma frase que sobreviva ao jantar, decide apagar quem obrigou o mundo a ler em português. Transformaram o autor num estorvo ideológico, uma espécie de heresia que estraga o verniz de uma educação que se quer higiénica, fofinha e, acima de tudo, inofensiva. Saramago, o Nobel que a nação exibe nos dias de gala mas esconde quando o hálito se torna demasiado crítico, é agora a vítima de um revisionismo de vão de escada que prefere autores de dieta a uma prosa que nos obriga a confrontar a nossa própria estupidez…

O que chateia esta gente não é a falta de pontuação ou o pessimismo crónico do homem de Lanzarote; é a sua utilidade como espelho da nossa pequenez. Retirar o autor das escolas é o sonho húmido de qualquer gestor de afectos que prefere um jardim-de-infância literário a uma arena de confronto intelectual. Há uma satisfação quase física em "cancelar" o fantasma do Nobel, um ajuste de contas tardio contra quem nunca soube ser o "bom rapaz" do sistema. É a vitória do cinzento sobre o desconforto. No fundo, a inutilidade do Nobel em Portugal é o reflexo da nossa própria alergia à grandeza: preferimos o conforto da nossa insignificância a ter de lidar com um génio que nos chama nomes em cada parágrafo. Saramago volta ao exílio, não por decreto de um subsecretário de Estado qualquer, mas pela mão de uma máquina que decidiu que pensar dói e que, para se ser um bom cidadão, o melhor é ler apenas o que não causa azia. No reino dos medíocres, quem tem um Nobel e uma espinha dorsal é sempre o primeiro a ir para a fogueira da indiferença.

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