2017/12/01

ESPERANÇA E COTOVELITE

A revolução cultural causada com o aparecimento da televisão foi totalmente ultrapassada com as novas tecnologias. O acesso fácil à Internet e redes sociais são o chamariz perfeito para partilha de informação, projecto ou talento mais escondido. Os Tugas soltaram as amarras e – tal como nos Descobrimentos – partiram nas caravelas “YouTube” e “Facebook” à conquista do mundo virtual. As benesses da tecnologia informática inexistentes no século passado (Eça de Queirós, Florbela Espanca e outros não tinham Facebook ou blogues) permitiram renovar a esperança da realização dos sonhos. Escritores, cantores, bailarinos e outros têm uma panóplia de ferramentas e oportunidades nunca vistas. Sem nada a perder – e com elevada dose de ingenuidade – começaram a divulgar os seus trabalhos nas redes sociais. Confesso que entrei neste barco em 2013, de olhos fechados, cheio de esperança, rumo ao incerto… Se alguns desistiram, outros cederam ao canto das primeiras sereias: as que prometeram ajudar. Escutando apenas o coração alinharam no jogo mesmo sabendo que os dados estão viciados. Porque nada consegue suplantar a alegria e júbilo de ter, na nossa mão, o tão desejado livro ou álbum musical em nome próprio! Quase como um propósito da nossa existência. A (falsa) sensação de imortalidade! O desejo de reconhecimento e divulgação ficam em modo histérico! Surge a vontade de estar em todo o lado para se dar a conhecer. Contudo, no meio de tanta destreza, vai-se ganhando consciência das dificuldades, da solidão, da falta de apoio e que o mercado está repleto de “novos artistas”. Arrisco a dizer – num choque abrupto com a realidade – mais oferta que procura. E, de repente, estamos à deriva…

Mas há aqueles que conseguiram vencer o Adamastor e chegaram, com sucesso, a bom-porto. Aqueles que conseguiram atingir o sucesso e, fruto disso, continuam a esgotar salas de espectáculo sabendo que todos os trabalhos (bons ou maus) que venham a desenvolver à posterior serão bem aceites. Importa dizer que estão inseridos numa comunidade fechada que não gosta de forasteiros. Os media dão cobertura sempre os mesmos… Esta “Geração Facebook” mede o sucesso em termos de “gostos” e número de seguidores. Quando a “coisa” corre mal não há qualquer problema em comprar alguns seguidores virtuais. Essa opção existe! Não há uma fórmula escrita para o sucesso. Por vezes é fruto de uma mera coincidência ou obra do acaso. É algo alheio à vontade e esforço do autor. A editora, os amigos e outros utilizadores deste software do Demónio, têm um papel importante na partilha e recomendação. Aliás, como amigos, devem estar presentes e apoiar incondicionalmente. Porém, entre agendas preenchidas e demasiada “cotovelite” ganham as cadeiras vazias. Caro leitor, tendo em conta tudo o que escrevi e tendo feito uma profunda análise da minha odisseia literária, que teve início em 2014, posso afirmar que ainda não consegui vencer o Adamastor…
 

2017/11/17

GERAÇÃO FACEBOOK

Tenho de perguntar, caro leitor, sabe quem eu sou? Aquilo que faço? A minha história de vida é digna do seu “gosto” na minha página? Não utiliza o Facebook? Eu tenho o Instagram! Porque – e caso não tenha ainda reparado – tudo se resume à nossa prestação nas redes sociais. Porque o nosso estatuto (status quo) é medido pelo número de amigos ou gostos na nossa página. Mesmo que não se conheça aquela gente de lado nenhum. Estão lá, como numa montra, e é tudo o que importa! Talvez por isso alguns utilizadores usam as amizades como uma qualquer aplicação: instalam e removem conforme sua vontade… ou quando elas incomodam. Os nossos comportamentos mudaram radicalmente! Urge estar sempre ligado. Sair de casa sem o telemóvel (ou tablet) é mais grave que ter esquecido vestir as cuecas. Não tirar a foto à comida é bem mais grave que esquecer dar graças pela refeição. Certamente já pensou noutros exemplos que retractam a nossa mudança de atitude social. Tudo é publicado em busca da notoriedade e fama instantânea. Todos devem saber onde estive, quem me acompanhou e o que lá fui fazer. Quero que inundem a minha página de “likes” para eu ter a certeza que vocês viram e ficaram roídos de inveja!

Porque as redes sociais são o jornal diário. É necessária audiência e muitos seguidores. Mesmo que tamanha abertura seja sinónimo de ridículo, desespero e falta de noção do perigo que é partilhar informação pessoal com estranhos! Nada se faz sem este software do Diabo. Qualquer motivo serve para aceder às últimas publicações, tendências e discussões. É incrível a força demonstrada, pelas redes sociais, no que se refere à movimentação das massas para assuntos medianos, absurdos e sem qualquer importância! Comentários e mais comentários. Mas só isso! Não esperem mais nada da participação cívica Tuga. Tenho esperança que esta fase (ou dependência) passe e que volte a ser possível tomar um café com amigos que consigam conversar e estabelecer contacto visual (em vez de estar constantemente a olhar para os ecrãs). Enquanto esse dia não chega vou espreitar o meu mural – para saber quantos leram este texto – e aproveito para verificar se faço parte dos que se vestiram à pressa… sem cuecas!
 

2017/08/18

ARRUAÇA LITERÁRIA

Caros leitores, resolvi dedicar esta crónica a um tema muito interessante e que tem sido estudado e conversado ao longo dos séculos: a guerra dos sexos. Durante muito tempo o Homem mandou nas mulheres. Desde o ritual de acasalamento da pré-história – uma paulada na cabeça e arrastá-la pelos cabelos – até aos tempos mais modernos em que o romance se prolonga durante o namoro e vai-se aguentando até ao casamento. Infelizmente há casos em que o romance acontece várias vezes com o mesmo protagonista… Porque a fama do amante latino é sobejamente conhecida pelo mundo fora. As inglesas deliciam-se nas visitas aos locais mais “calientes” da noite algarvia (e não só). E, claro, com tanta procura os Tugas, mais efusivos, dão largas aos seus dotes de sedução. Conhecendo as nossas características naturais – e tendo como referência Zézé Camarinha – confesso não perceber como conseguem tantos engates. Será verídico ou apenas uma forma de expressão gabarolas?! Deixo-vos um dilema:

João Astúcio foi viajar de avião. Ficou no lugar do meio entre duas belas senhoras. Durante a viagem, elas adormeceram e uma encostou a cabeça em seu ombro. Tirando partido do seu machismo resolveu tirar uma fotografia e partilhar nas redes sociais fazendo referência à sua nova conquista. «Mais uma mulher que dormiu comigo!». Pergunta: Será que este tipo de aventura conta para a estatística do “dormimos juntos”? Se souber a resposta não hesite! Pode enviar para xor.correia@sapo.pt
 

2017/07/21

O DESPERTAR DOS EGOS

Certamente que a ilustre pessoa que está a ler esta crónica já se viu envolvida num evento que tinha tudo para correr bem mas, por alguma razão, revelou-se o oposto do que deveria ter sido. Se nunca passou por isto fica o alerta: é aguardar! Uma agência imobiliária resolveu convidar alguns dos delegados comerciais para uma reunião informal de trabalho. Fortalecer a amizade entre colaboradores, partilhar experiências laborais e, porque não, descobrir alguns truques para melhorar a quota de vendas. Serão vespertino abrilhantado com música ao vivo e petiscos. As pessoas chegaram a conta-gotas. Os mais tímidos resguardaram-se num canto do edifício em busca de caras familiares. Naquele espaço todos representam a mesma função: vender imóveis. Imbuídos no espírito de celebração e bem-dispostos tomaram os seus lugares. O director da Zona Norte saudou os presentes e, numa apresentação improvisada, convidou alguns delegados a partilhar os hábitos, tácticas de venda e segredos! Com recurso a relatos verídicos, falsa modéstia e demasiado exagero estatístico, o principal delegado abriu as hostes. O despertar dos egos não demorou...

Em poucos minutos todos queriam explicar proezas e números! E, nesta situação, surge sempre um Tuga que ignora o tempo disponível. Monopoliza o dele e, como se não bastasse, ainda interrompe os demais colegas para entrar em debates ideológicos fúteis. É neste ponto que o evento começa a correr mal. A conversa resume-se ao convencido e aos que querem dar nas vistas. O relógio parece ter parado para os restantes. Recusam intervir na reunião. Verificam-se abandonos prematuros e promessas de não regressar no próximo ano! Porque há coisas marcadas para esse dia. Mesmo que (ainda) não se saiba qual é…
 

2017/06/02

TODA A GENTE MENTE

É uma verdade assumida. Concordar ou não, fica ao vosso critério. Faz parte do pacote de Abril. Graças a uma revolução, em nome da democracia e liberdade de expressão, as pessoas conquistaram novos direitos. Reclamar é um deles. E se, alguns utilizam este novo poder com moderação e assertividade, outros pelintras (invadidos por um sentimento de importância extrema) banalizaram este direito conquistado há quatro décadas. Há sempre quem estrague tudo… É sabido que o mercado de trabalho não oferece boas condições. As constantes mudanças no plano educacional também afectaram as aspirações dos jovens. Serve o 9º ano (incompleto) ou um desses cursos profissionais tirados à pressa. Esta nova classe social – motivada pela crise, excesso de subsídios e falta de valores – aumenta a cada dia! É preocupante, acreditem! Não se pode fechar os olhos a esta realidade! Eles andam por aí, em grupo (matilha, bando ou como queiram chamar) a tentar queimar o tempo livre que deveria ser ocupado a trabalhar! Objectivo de vida: engravidar a mulher e esperar, nos cafés, a vinda do carteiro para ver se chega mais um cheque de um qualquer subsídio.

Adoram utilizar os transportes públicos. Principalmente os que são de borla por falta de meios de fiscalização (e lei que protege o infractor). Estes sacos de brita julgam-se no direito de reclamar como um cliente regular que cumpre as obrigações! Fruto de uma sociedade que se tornou demasiado tolerante com as minorias e fustigados da vida (vadios) julgam-se no direito de demonstrar toda a falsa modéstia e falta de educação. A passividade dos utilizadores e ausência de autoridade é algo que me assusta. O que aconteceu à nossa coragem?! Como pode uma minoria (malformada) impor a sua vontade à maioria?! A reclamação é uma ferramenta poderosa que pretende defender quem se julga ofendido. O bom senso também! Muitas vezes, assumir o nosso erro ou distracção é um pequeno (grande) passo para terminar uma discussão ou actos mais violentos. E se, mesmo assim, optarem por seguir com a reclamação gratuita e fortuita tenham em atenção a verdade dos factos. Felizmente há o contraditório. Porque toda a gente mente…
 

2017/05/01

ESTRANHA FORMA DE VIDA

Rosto marcado pelo cansaço de uma vida árdua, cabelo branco curto com bigode farfalhudo da mesma cor e com uma simples camisa de ganga há muito zangada com o ferro de engomar. É assim que Dionísio surge no ecrã, durante o serviço noticioso do “Correio da Manhã”, para explicar como outra pessoa levou uma facada por ele… No final de jantar – para fazer a digestão – deslocou-se à garagem. Foi quando avistou o Almerindo da Silva. De imediato começaram a trocar insultos! Uma pequena nota de introdução: decorre um processo judicial, entre eles, pois não é a primeira vez que “esta pessoa” o assassina! Segundo o entrevistado, o juiz não avançou com a condenação por falta de “alimentos legais”. Porque o magistrado não tem dúvidas quanto às intenções maléficas por parte do arguido que, num gesto de provocação, insiste em abrir e fechar brutalmente as persianas às 5 e 6 da manhã. Até usou aquele ditado do cântaro que vai à fonte. Por coincidência, o malvado, adoeceu no próprio dia do julgamento...

Enquanto decorria a sessão de insultos gratuitos, entre os dois, um vizinho (a garagem é muito agitada!) resolveu intervir para acalmar e impedir que perdessem a cabeça. Tal gesto heróico valeu-lhe uma facada! O Dionísio não sabe se foi uma, duas ou três. Confirma que – o outro – ficou a escorrer sangue de um ataque que tinha o seu nome escrito. Apresentou queixa na polícia! Esteve toda a manhã na esquadra e recebeu um papel que, ainda hoje, não tem coragem de ler… Uma zanga sem motivo; um herói ocasional mal tratado; uma agressão bárbara por alguém que tem idade para ter juízo. No entanto, a simplicidade, ignorância e casmurrice, de toda a história, é reveladora de um país que tem (ainda) um enorme défice cultural…
 

2017/02/23

SENTIDO, DIRECTION

É conhecido o fascínio das crianças pelos veículos amarelos que se deslocam sobre carris e atravessam a malha urbana da área metropolitana do Porto. Confesso que não imaginava que tivesse o mesmo efeito nos adultos com aspirações governamentais! Existe, de facto, uma enorme atracção política pelo Metro do Porto. No passado foram conquistadas vitórias eleitorais com este transporte público. É pouco relevante se as promessas foram cumpridas. Serviu os propósitos: eleger alguém durante quatro anos. Depois, logo se vê! Assim vai a honestidade politiqueira Tuga! O governo anunciou com pompa e circunstância – numa cerimónia que não olhou a despesas – a expansão da rede em cerca de seis quilómetros. Esperavam mais?! Vá lá, não sejam ingratos! Apesar da campanha eleitoral (para as autárquicas) não ter começado, os candidatos – que já se deram a conhecer – desdobram-se em acções de manifesto e indignação pela exclusão. Matosinhos é um dos concelhos que mais barulho tem feito. Não faltam sugestões de locais! E é neste ponto, caros leitores, que fico um pouco confuso com a atitude e vontade das pessoas e pelas intenções dos que vão participar nas eleições! Mas então, já gostam do Metro?!

Onde estão as vozes dos que queriam a Rua Brito Capelo devolvida aos peões? Onde estão as vozes dos que criticam o traçado, velocidade e respectivo acumular do trânsito automóvel? Onde estão as vozes dos que se queixam da falta de manutenção e viagens suprimidas? Onde estão as vozes dos que reclamam da insegurança e vandalismo? Calaram-se? Assisti à degradação social e económica de Matosinhos (minha terra Natal) nos últimos dez anos. A famigerada crise, que fez acentuar as dificuldades económicas, obrigou a empresa a reduzir despesas de operação e fiscalização. A mesma crise que criou uma nova classe social que cria putos ranhosos para viver de subsídios e insiste em andar de graça. A tão desejada mobilidade, aliada à falta de educação e escrúpulos, tem vindo a mudar o panorama desta cidade (e acreditem, eu percebo alguma coisa de transportar “mitras”). O desaparecimento misterioso das forças de autoridade também não ajuda. Em pleno reinado anárquico tudo é permitido! As peripécias sucedem-se. Não há lojas de referência nas principais artérias comerciais. O estacionamento é caótico. E tanto mais há por dizer e, acima de tudo, resolver. Porém, nesta altura do campeonato, os que competem, querem discutir o que não merece discussão...