2019/06/21

UMA QUESTÃO DE TROCOS

Esta semana fui confrontado com uma mensagem do meu gestor de conta. É curioso, nem sequer sabia que tinha um! Por alguns minutos senti pertencer à elite dos clientes da CGD (Caixa Geral de Depósitos), mas uma leitura mais atenta do texto trouxe-me de volta à realidade: de forma educada recebi a indicação que o saldo bancário estava nos cuidados intensivos, ligado à máquina, e que seria necessária uma intervenção rápida. Há quem não acredite em coincidências, mas tudo isto se passou enquanto os serviços noticiosos televisivos davam conta que um indivíduo vestido de preto (Joe Berardo) tem uma dívida na ordem dos duzentos e oitenta milhões de euros – no mesmo banco que me alertava para a falta de algumas dezenas de euros! É um dos créditos de alto risco descobertos através de uma auditoria forense promovida pelo governo. Acabei por prestar mais atenção à notícia que à minha mensagem! Afinal, é quase insultuoso fazer “marcação cerrada” a um pobre cliente quando há um buraco negro financeiro gigante que, aparentemente, ninguém viu…

Perante os deputados da Comissão de Inquérito teve um rasgo de honestidade (falta de vergonha para a maioria) de dizer que as dívidas foram contraídas pelo grupo económico e não por ele! Aliás, pela descrição que fez, não tem dívidas e só faltou dizer que, com tanta santidade, se vai candidatar a Beato. Para muitos, a frase do dia! Ninguém ousa tentar perceber a teia armada e a quantidade de peripécias e trapalhadas da história. A própria audição foi difícil de acompanhar (não se trata de piada ao sotaque madeirense), o conceituado empresário – que até tem título de comendador – deixou as frases a meio, respondeu com recurso a papéis privados ou foi interrompido pelo advogado que, em grande parte das vezes, segredou-lhe as respostas ao ouvido. No meio de tanta desfaçatez, ninguém duvide das suas palavras: não tem dívidas! Apesar da minha indignação resta-me assaltar o mealheiro para arranjar mais uns trocos e deixar de aturar o raio do gestor de conta. Tenho a certeza que os meus euros são bem mais importantes, para o banco, que os milhões perdidos nos empréstimos ruinosos concedidos. É tudo uma questão de trocos.

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