2021/06/18

BARALHAR E DAR DE NOVO

Confesso que escrevo esta crónica com os olhos postos nas paredes do escritório e não no ecrã de computador. Escrevi duas linhas e já me levantei cinco vezes para exterminar um sacana dum mosquito faminto que, durante a noite, fartou-se de me picar e agora aparece à minha volta para se vangloriar! Sei que, ao confessar as minhas intenções criminosas perante esta estirpe de insectos sedentos de sangue arrisco a levar com uma manifestação à porta de casa. O facto de a minha autarquia não enviar os meus dados para as organizações ambientais permite-me encarar esta declaração homicida (contra o mosquito) com mais tranquilidade. Porque a questão não é a vergonha moral ou a existência de princípios, mas sim, o descaramento com que se enfrenta a situação. E, no que toca à falta de vergonha, estamos tão bem servidos! Seguramente – como é habitual – vou deixar os temas mediáticos para aquela malta que aparece nas televisões e gosta de dar ideia que percebe do que fala. A minha visão prende-se com a temática social e recai na estupidez que temos perto de casa, no cidadão comum que, por exemplo, mata mosquitos à paulada…

Num serviço noticioso (publicidade tem custos!) um indivíduo teve direito de antena e, numa notícia sobre a quebra dos rendimentos do turismo, aproveitou a oportunidade para demonstrar a sua preocupação pela ausência de turistas estrangeiros. Num comentário, digno de um calhau à beira da estrada, salientou (com desprezo) a avareza dos turistas nacionais. O serviço público, directo, tem destas pérolas raras e resta aos espectadores engolir em seco estes devaneios. Porque o “Zé da Furgoneta” (uso esta alcunha para não ser mal-educado) esqueceu que montou o seu negócio com recurso a financiamento nacional (pedir dinheiro aos espanhóis foi no século XVI e, como foram enganados, ainda hoje, não simpatizam muito connosco!), a licença para vender na rua foi solicitada à autarquia local e não a Madrid ou Londres. E, sinceramente, não acredito que turistas se desloquem de propósito à furgoneta para comprar bolas de Berlim, ou outra qualquer especialidade adquirida numa padaria próxima. Porém, este pseudo-comerciante sente falta dos estrangeiros e dos seus euros reluzentes que até saltam da carteira. A humildade, nos dias que correm, caiu em desuso. Por vezes penso como seria, se os nossos ganhassem tanto dinheiro como os outros.

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