2025/05/07

FILHOS DO APAGÃO

Nunca fui conhecido por ter grandes rasgos de memória. Aliás, para os gatunos, seria a testemunha ideal por não ser capaz de descrever os meliantes. Talvez para não ocupar a capacidade disponível, o meu cérebro despacha as tarefas e automaticamente dá o expediente como encerrado. Como tal, fico extremamente feliz por fazer parte de um mundo que fotografa, grava e regista tudo o que se faz no dia-a-dia – uma espécie de autobiografia, construída à medida que os acontecimentos surgem. A malta que presenciou o (agora célebre) apagão de 28/4 tem matéria para explorar durante as próximas semanas e meses! Mais que as peripécias e trapalhadas daqueles senhores que nos deveriam proteger – e, mais uma vez, se prova que este país é fantástico para os humoristas – são as experiências sociais vividas por cada um de nós, naquele momento, que mais me interessam. A pergunta que se impõe, a cada comum mortal, é onde raio estava pelas 11:33?! Gostava de ter uma perspectiva geral da população, numa espécie de “Big Brother”. Num ápice – e de todo o lado – começaram a surgir relatos caricatos. Afinal, entre milhões de portugueses e turistas, alguém passou por tudo aquilo que vocês consigam imaginar. Sim, gente, mesmo tudo…

Algumas senhoras, em processo de embelezamento nos respectivos salões, ficaram com cabelo a duas ou três cores. As que estavam em secagem são perseguidas por pássaros, que querem fazer um ninho nas suas cabeças. Electricistas, durante as tarefas laborais, foram acusados de incompetência por aqueles engenheiros de ocasião, que passam a vida a observar e a fazer perguntas incómodas. Alguns idosos (e não só), utilizadores assíduos de casas-de-banho públicas, durante o uso do mictório, ficaram com nódoas nas calças e gaguez temporária. Muitos instrutores das escolas de condução descobriram, da pior maneira, que os seus alunos nunca se esforçaram para perceber regras de trânsito. Há uma vasta panóplia de situações embaraçosas ligadas a este dia, no qual, alguns aliaram o poder da persuasão à esperteza saloia e, graças ao fim do mundo, marcaram pontos em benefício próprio. Os que tiveram oportunidade de ficar fechados com alguém do sexo oposto, em nome da preservação da espécie ou último desejo antes de deixar este mundo, aproveitaram para fazer abanar a Terra. Infelizmente, as trevas não tomaram conta das nossas almas e os números da natalidade prometem disparar em Janeiro. Talvez por isso muitos rumaram às farmácias em busca da pílula do dia seguinte. Os outros, tendo em conta o panorama das urgências, preparam-se para ter a criança numa maternidade espanhola.

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