2025/12/04

PERSPECTIVAS LINGUÍSTICAS

A língua portuguesa é muito traiçoeira. É uma daquelas frases que nos habituamos a escutar e, mesmo sem averiguar a sua veracidade, é utilizada vezes sem conta – muitas delas para justificar erros ortográficos ou meras calinadas. Há muitos exemplos mas, uma vez que estou ligado ao mundo da ferrovia, vou aproveitar e utilizar o verbo colher. Sim, o verbo, e não o tal objecto metálico para a sopa ou sobremesa! Quando usado no passado, é sinónimo de boa notícia. Por exemplo, se disserem que foram colhidas muitas toneladas de azeitonas, até se pode pensar numa redução do preço do azeite! É um verbo que significa obter algo (frutos, resultados) e está relacionado com o aumento da quantidade das coisas guardadas num celeiro ou outro local e, como tal, ninguém se opõe ou preocupa… 

No entanto, essa mesma palavra, aplicada ao universo da ferrovia, ganha imediatamente outro significado e importância. É verdade que continua a ser um verbo, mas implica uma acção bastante penosa para o sujeito passivo. Afinal, num país que perde dezenas de vidas ao volante, é deveras curioso que a palavra colhido, associado a uma morte na linha férrea, cause tremendo impacto. Até porque, chamar “acidente” à distracção ou facilitismo é enfatizar a estupidez, ou pior, normalizá-la. Recorrendo à sabedoria popular é uma morte santa: instantânea e súbita. E, já que abordo um tema tão macabro e mórbido, aproveito, para memória futura, indicar que (quando chegar a altura) pretendo morrer como o meu avô: dormindo, tranquilo e sereno. E não a gritar desesperadamente como os cinquenta passageiros do autocarro que ele estava a conduzir.

2025/10/23

A LISTA DE TAREFAS

A malta que carrega o peso de uma aliança na mão esquerda sabe que, perante o Criador, prometeu dar o melhor nos bons e maus momentos. Claro que, na altura do matrimónio, não se leram as letras pequenas do contracto e, com o passar dos tempos, o homem descobriu que perdeu os direitos e apenas ficou com as obrigações. E mesmo que seja um dia de folga laboral, a meio da semana sem a presença da esposa, ela faz questão de arranjar uma lista de tarefas para que o descanso seja nulo e não envolva desperdiçar tempo no sofá. Seguramente, os que pensam como eu (as vítimas) estão familiarizados com o tremendo grau de dificuldade e ausência de qualquer ajuda. Um post-it ou uma fotografia através do Whatsapp e pronto. É preciso aquilo e o verbo desenrascar passa a ser o nosso melhor amigo naquele dia. Resta aceitar a realidade, colocar os pés ao caminho e, como qualquer homem resignado, rumar ao shopping… 

A tarefa, expressa numa fotografia desfocada, tinha algo parecido com meias de criança e um número. Procurei uma loja da especialidade, sempre com o pensamento que não seria complicado comprar meias – não podia estar mais enganado! Comprar meias, tal como calças, deveria ser uma disciplina na faculdade. Deveria haver mestrados em meias! Nunca vi tanta referência a tipos de peúgas, soquetes, meias, collants e outros. Aquilo parecia o museu dos artigos para os pés! Sem saber para onde me virar procurei uma assistente e, admitindo a minha ignorância, mostrei a foto no telemóvel. Desapareceu por uns instantes, mas valeu a pena! Na sua mão, a tão desejada embalagem com a referência e tamanho certo. Senti-me uma espécie de “Indiana Jones” ao descobrir o Templo Perdido. Sim, sei que estou a enfatizar a compra de um simples par de meias, mas ter sucesso (nesta tarefa) significa cair nas boas graças do cônjuge e, como tal, evitar má disposição e alguns adjectivos mais depreciativos sobre a incompetência masculina e falta de capacidade para realizar tarefas. Sei que o prémio não é muito apelativo. Mas, sem dúvida, foi bem merecido.

2025/09/19

CHEQUE DEFUNTO

A 15 de Setembro celebrou-se mais um aniversário do SNS (Serviço Nacional de Saúde). Tal como eu, é uma excelente referência de 1979. No entanto, ao contrário da minha ilustre pessoa, o SNS não goza de boa saúde. Encontra-se num estado débil, quase moribundo e confesso ter dúvidas sobre a intenção de o salvar. Sucessivos governos – e respectivos ministros da tutela – aplicaram inúmeras medidas para melhorar a qualidade e abrangência do serviço. Infelizmente, alguma coisa correu mal pelo caminho e, tendo em conta os resultados alcançados, deu-se um êxodo geral para o privado. Talvez pela maior eficácia das administrações, que não dependem da máquina burocrática do Governo, os cuidados de saúde privados atraíram (e continuam a atrair) imensos utentes. As companhias de seguros entraram neste jogo e, claro está, com tanta oferta e preços baixos, é possível contratar um seguro de saúde até no corredor dos hipermercados. Inclusive, as limitações e as perguntas aborrecidas de outrora foram abolidas! Mesmo que padeça de um sem número de maleitas (com lista de promessas ao santo milagreiro) pode subscrever um plano à sua medida… 

A constante marcação de greves, falta de médicos e grávidas que recebem os seus bebés nas rotundas (em vez das cegonhas de França), demonstra que há problemas graves num sistema pioneiro, que entretanto foi ultrapassado. Mesmo assim, por alturas das eleições legislativas, chovem promessas e garantias que “vai ficar tudo bem” – ainda se lembram?! Como utilizador ocasional deste serviço, que até tem médico de família atribuído, dou por mim a pensar que o problema do SNS não está no número de médicos, mas sim no excessivo número de pacientes. Uma das medidas que, quanto a mim, ajudaria a reduzir as listas de espera, é a criação do cheque-defunto. Cuidado, não confundir com eutanásia! Esta modalidade, com convénios celebrados com diversas agências funerárias, permite que um indivíduo, cansado de se queixar do dinheiro gasto em medicamentos e deslocações, opte por antecipar o seu falecimento, escolhendo o dia e a hora que mais lhe convêm. Até pode tratar directamente do envio dos respectivos convites, disposição e decoração do local pretendido e confirmação da lista dos convidados. Nada mais simples para reduzir a lista de espera. É escusado dizer: com menos utentes para tratar, o SNS voltaria aos tempos da “outra senhora” – no qual nem havia tempo para ficar doente.

2025/08/15

MENOS SEXO, MAIS DINHEIRO

Quando os meus dedos transmitem ao teclado do computador as parvoíces que me invadem a alma, tento sempre encontrar resposta para uma questão mítica (que deveria ser alvo de estudo social) – o que Diabo vai o director (deste prestigiado jornal) pensar disto!? Tenho plena noção que se trata de uma escrita satírica, de carácter social e assertivo, que tenta (ui, se tenta!) mudar alguns comportamentos e fazer sair do coma o verdadeiro espírito nacional, em vez de este estado de “vai-não-vai” que assombra os nossos dias. Por isso, nem sequer hesitei em utilizar um título que está ao nível de um capítulo de manual de bons princípios para homens casados! A malta conservadora do CDS percebeu e junta-se a este manifesto! Tudo começou quando os serviços noticiosos deram conta que a disciplina de cidadania terá novos conteúdos programáticos. Basicamente, o actual governo desligou a máquina ao movimento progressista “woke” e seus respectivos retrocessos culturais impostos, em plena sala de aula, aos futuros adultos indefesos deste povo… 

Mais que insistir na ideologia de género – para descobrir as verdadeiras diferenças entre ter um pénis activo ou apenas um bibelot decorativo – é importante que os nossos jovens saibam o que é o dinheiro, um vencimento, linguagem bancária e financeira e outros pontos que, de facto, os tornam cidadãos de pleno direito e não uma minoria mal vestida, mal-encarada, que julga que um simples decreto-lei é capaz de alterar mentalidades ou valores sociais enraizados. Os pais, professores e outros objectores de consciência rejubilam e felicitam o actual executivo por ter noção dos tempos conturbados da “geringonça socialista”, que trouxe para a luz do dia, um espírito (demasiado) livre e que, para o qual, não estaremos preparados tão cedo! Até porque, nos dias que correm, não há tabus ou matéria desconhecida sobre o sexo. Longe vai o tempo das revistas da especialidade ou cassetes VHS, com a fita gasta numa determinada cena mais tórrida. A internet revelou tudo! Perdeu-se a emoção das descobertas e, caros leitores, perante o choque com a realidade da economia – e preços pornográficos dos bens alimentares – sexo é a última coisa que passa pela cabeça dos adultos.

2025/07/18

A MIÚDA DO PÃO COM CHOURIÇO

O nascimento é a única altura em que todos somos iguais. Seja através do parto normal ou cesariana, não há qualquer indicação física sobre condição económica, social, ou qualquer outra que possam pensar. Aquele momento mágico, no qual a criança leva duas vergastadas no lombo para deixar de ser preguiçosa e começar a respirar sozinha, é irrepetível! É um mito, mas diz-se que os obstetras concluíram o curso só por causa deste momento. Nesta altura, o novo ser é uma tela em branco que será formatado através do mundo exterior. O mesmo que se começa a mostrar ainda no quarto do hospital através das visitas e suas respectivas ofertas inúteis. As diferenças acentuam-se com o passar dos anos. Os mais endinheirados têm um mundo completo de oportunidades. Os mais pobres (escusado será dizer) podem fazer planos e traçar objectivos, desde que envolvam lavar o carro ou cortar a relva dos senhores doutores ricos. A vida é uma besta! Temos apenas uma passagem e, por causa de trocos, somos privados de viver com tudo aquilo que temos direito… 

Da primeira palmada ao último grito da moda, deveria haver oportunidade de experimentar tanta coisa! Muito se fala em igualdade e ninguém luta para que possa conduzir um Ferrari. Pelo contrário, ainda me batem se estiver perto de algum! A pobreza atrai o marasmo e o desânimo. As jovens raparigas (e não só) deixam de cuidar a imagem e agem com um completo desinteresse, envergando as últimas tendências de trapos económicos da “Primark” – que teima em não conseguir combinar peças. Os transportes públicos são o grande observatório deste fenómeno social. Eu, que até sou utilizador frequente, reparei numa rapariga que, apesar de alguns quilos a mais, insiste em usar roupas demasiado justas. O cabelo ostentava o melhor da produção doméstica de azeite – um parque de diversões para a pediculose. Na sua mão, um pão com chouriço prestes a ser devorado em dois tempos, ainda antes da chegada do autocarro. Talvez se justificassem outras duas vergastadas na espinha para abrir os olhos e voltar a agarrar a vida, enquanto tem tempo. Lamento, mas nada fiz. Podem procurar à vontade mas, nos transportes públicos, não há pessoas glamourosas como nas revistas conceituadas. Algumas, por muito que discordem, nem sequer seriam aproveitadas para aqueles filmes badalhocos de produção caseira! Acredito que o destino não está (ainda) traçado e há verdadeiros contos de fadas e milagres. Infelizmente, por mais que tente, a minha sina envolve constantemente o lado negro.

2025/06/20

SER PORTUGUÊS

Num gesto de pura preguiça, perguntei a um destes programas de inteligência artificial o significado de ser português. Não que precise da resposta, pois o nosso estereotipo está bem delineado – e traçado em muitos programas de humor e sátira. O laxismo, pouca vontade e desorganização são alguns adjectivos que correm nas nossas veias. Ainda há pouco tempo, numa reunião escolar, os professores queixaram-se da fraca produtividade dos alunos, principalmente ao primeiro tempo. Confesso que esbocei um sorriso por saber que a nova geração mantém viva a tradição dos antepassados – os que entram às 09h00 e uma hora depois ainda não conseguiram ligar o computador. Segundo o dito programa, a saudade é um dos traços mais intrínsecos e distintivo desta nacionalidade. Não apenas uma palavra, mas sim um completo estado de alma que engloba a melancolia pela ausência, nostalgia por tempos passados e desejo pelo que nunca se teve ou perdeu – ou seja, só estou bem aonde não estou! Seguramente, já encontraram mais exemplos da nossa alegre e desesperante portugalidade…

Tudo isto veio à baila durante um debate dos engravatados na capital. Terrivelmente assustados com o fluxo migratório desregulado, querem agora, que a casa foi roubada, colocar trancas à porta para restringir entradas e evitar que os cá estão resolvam trazer o agregado familiar (com sogras e tudo). A resposta a este problema enquadra-se nos critérios para atribuição da nacionalidade. Não basta pisar o solo nacional para ser nativo. Isso resultou na Lua, mas não aqui! Ter trabalho e efectuar descontos também não chega para ter representatividade nos Censos. Tal como acontece nos Estados Unidos do Chalupa, algumas forças políticas avançam com uma prova de identidade cultural. Quem quiser gritar pelo Ronaldo deverá saber os principais marcos da nossa história, cantar o hino e falar a língua de Camões. Não vou discutir a relevância da ideia, mas sim, demonstrar a minha preocupação. Porque, de acordo com o grau de conhecimento cultural dos jovens lusitanos, caso tivessem de realizar a prova, a população nacional ficaria reduzida a metade.

2025/05/07

FILHOS DO APAGÃO

Nunca fui conhecido por ter grandes rasgos de memória. Aliás, para os gatunos, seria a testemunha ideal por não ser capaz de descrever os meliantes. Talvez para não ocupar a capacidade disponível, o meu cérebro despacha as tarefas e automaticamente dá o expediente como encerrado. Como tal, fico extremamente feliz por fazer parte de um mundo que fotografa, grava e regista tudo o que se faz no dia-a-dia – uma espécie de autobiografia, construída à medida que os acontecimentos surgem. A malta que presenciou o (agora célebre) apagão de 28/4 tem matéria para explorar durante as próximas semanas e meses! Mais que as peripécias e trapalhadas daqueles senhores que nos deveriam proteger – e, mais uma vez, se prova que este país é fantástico para os humoristas – são as experiências sociais vividas por cada um de nós, naquele momento, que mais me interessam. A pergunta que se impõe, a cada comum mortal, é onde raio estava pelas 11:33?! Gostava de ter uma perspectiva geral da população, numa espécie de “Big Brother”. Num ápice – e de todo o lado – começaram a surgir relatos caricatos. Afinal, entre milhões de portugueses e turistas, alguém passou por tudo aquilo que vocês consigam imaginar. Sim, gente, mesmo tudo…

Algumas senhoras, em processo de embelezamento nos respectivos salões, ficaram com cabelo a duas ou três cores. As que estavam em secagem são perseguidas por pássaros, que querem fazer um ninho nas suas cabeças. Electricistas, durante as tarefas laborais, foram acusados de incompetência por aqueles engenheiros de ocasião, que passam a vida a observar e a fazer perguntas incómodas. Alguns idosos (e não só), utilizadores assíduos de casas-de-banho públicas, durante o uso do mictório, ficaram com nódoas nas calças e gaguez temporária. Muitos instrutores das escolas de condução descobriram, da pior maneira, que os seus alunos nunca se esforçaram para perceber regras de trânsito. Há uma vasta panóplia de situações embaraçosas ligadas a este dia, no qual, alguns aliaram o poder da persuasão à esperteza saloia e, graças ao fim do mundo, marcaram pontos em benefício próprio. Os que tiveram oportunidade de ficar fechados com alguém do sexo oposto, em nome da preservação da espécie ou último desejo antes de deixar este mundo, aproveitaram para fazer abanar a Terra. Infelizmente, as trevas não tomaram conta das nossas almas e os números da natalidade prometem disparar em Janeiro. Talvez por isso muitos rumaram às farmácias em busca da pílula do dia seguinte. Os outros, tendo em conta o panorama das urgências, preparam-se para ter a criança numa maternidade espanhola.

2025/04/09

UMA DOSE DE BORREGO

Algures nos cantos mais escuros e sombrios, ainda há indivíduos que defendem o culto do “macho-latino” e acreditam, com a força toda, que o instrumento que o Criador lhes deu serve para a pouca-vergonha e não para urinar – enquanto tentam acertar na sanita. Para eles, os engatatões do passado, é um lema de vida e, enquanto “aquilo” funcionar, trabalho não falta. Porém, queiramos nós aceitar (ou não) a sociedade mudou radicalmente! As minorias, num gesto de prepotência e arrogância, pintaram o mundo com cores diferentes. Os comportamentos alteraram-se por decreto político e, com todas estas mudanças, subverteram as regras de um jogo milenar: o engate. O mesmo que agora já não tem piada. A Natureza guarda em si verdadeiros e sublimes exemplos de sedução e acasalamento. Os machos, na presença da fêmea, mostram os seus dotes num jogo de sedução – cujo resultado final todos nós sabemos qual é! Contudo, por estes dias, o homem não consegue compreender a razão do afastamento da mulher. Impedido de lançar piropos, elogiar e conversar com estranhas, ficou sozinho e perdido num jogo que deveria ser a dois. Infelizmente deixa-se levar pelos desejos sexuais em vez da inteligência e quando o cérebro é desautorizado (por um órgão inferior) a desgraça está iminente…

É verdade que por alturas da Páscoa, os católicos pedem ao Cordeiro de Deus para tirar o pecado do mundo. Mas, se bem me lembro, nunca disseram como seria ele capaz de tal proeza. Talvez por isso, desespero ou completa insanidade, um indivíduo de 40 anos, tenha sido encontrado, sem sentidos, com as calças em baixo e abraçado a uma ovelha morta. Tal como o ignorante desta crónica, a ovelha estava ensanguentada na zona do órgão reprodutor. Havia indícios de violação. Polícia e socorristas, que acorreram ao local, pasmaram-se com tal cenário macabro. Vestiram-lhe as calças, antes de o colocar na ambulância onde, ao fim de manobras de alguns minutos, voltou a acordar do desmaio a tempo de recusar ser conduzido ao hospital. Sempre fui ensinado a não brincar com a comida. Aparentemente, nem todos seguem este conselho. Não há mais detalhes sobre esta forma de preparar o borrego, nem sequer se a dose foi bem aviada. O que sei, tendo em conta o que escrevi no início da crónica, é que existe um desespero gritante por actividade de bolinha vermelha no ecrã e, lá está, um olhar mais profundo; um balir mais sedutor; o toque fofinho do pelo encaracolado, semelhante às antigas permanentes elaboradas das senhoras, causou confusão na mente do nosso “ovinolador”. E, tal como no refrão de uma música popular: “Se elas querem, nós pimba!”.

2025/03/15

METRO DE BABEL

Nem sempre estou aos comandos das composições do Metro do Porto (talvez um dia, aquela malta resolva pagar a publicidade que faço). Por vezes, resultado das deslocações sem serviço, há encontros imediatos de terceiro grau com os restantes passageiros e, talvez por isso, consiga ter uma noção clara do panorama que, por estes dias, caracteriza esta cidade. O fenómeno social da imigração parece ter encontrado na cidade invicta a resposta a todos os problemas e, como tal, todos rumaram até aqui! Algumas comunidades primam pela descrição, mas outras dão a ideia, pelo aspecto miserável, que foram expulsos de onde estavam e recambiados para o país mais afastado (e pobre) da Europa! Se, num exercício matemático, juntarmos às novas comunidades a degradação económica interna, a equação dá um resultado que nenhum político quer ver, embora seja bem visível aos cidadãos locais e serviços noticiosos. Todos os espaços são aproveitados para pedir a bendita moedinha. Seja para ajudar no estacionamento da viatura, seja na entrada de um supermercado. Uma nova categoria profissional: organizador de espaços urbanos...

Sou da opinião que as composições deste transporte público devem ser objecto de um estudo social. Numa única viagem – entre algumas estações – é possível encontrar material de estudo para geografia, biologia, filosofia e até economia – se surgir a fiscalização podem incluir a educação física. Tudo isto com análise aos indivíduos que estão sentados ou agarrados ao varão (sem comentários!). Como todos ouvem mal (e a língua portuguesa está patente apenas nos anúncios sonoros) há uma panóplia de dialectos imperceptíveis aos demais. Assim, evitam-se discussões, resolvendo o problema da entrada e saída com recurso ao velhinho empurrão. Gesto prático e que poupa tempo. Se quiserem ir mais longe, na especialização em artes modernas do Metro, podem sempre estar atentos à antiga arte do gamanço – porque, por algumas vezes, alguns entraram com a carteira ou telemóvel, mas ainda hoje não sabem deles. Não incluí, de forma propositada, para este estudo, a disciplina de cidadania. Escusado será dizer que, numa sociedade que perdeu todos os valores e educação, civismo é algo que apenas se encontra num dicionário.

2025/01/24

O MAIOR ESPECTÁCULO DO MUNDO

Lamento desiludir as (poucas) pessoas que passaram as vistas pelo título e, durante a crónica, vão descobrir que não tem nada a ver com a arte circense – se bem que possa envolver um ou outro palhaço. Pretendo alertar os eleitores mais desatentos, que já abriu a caça ao voto mesmo sabendo que as eleições autárquicas estão agendadas para Setembro ou Outubro deste ano. Como não há tempo a perder e ninguém respeita os prazos de campanha, é ver os engravatados a fazer pela vida! Escolhi esta expressão por dois motivos. O primeiro porque já muitos telefonemas foram feitos e muitos dos amigos já escolheram os melhores lugares (diga-se, câmaras municipais) para concorrer. O segundo envolve os que estão em risco de perder o emprego, por não pertencerem à cor política do partido que está no governo. Desenganem-se, os cargos políticos são atribuídos por critérios duvidosos e mesquinhos, nunca pelo respectivo mérito – fosse pela competência e o parlamento teria muitas cadeiras por preencher…

É absolutamente fantástico observar a quantidade de abutres que gravitam em redor do primeiro-ministro. O homem sai de Lisboa, para uma qualquer visita, e tem de levar com o presidente da Câmara Municipal, vários membros do executivo, presidentes das freguesias e demais almas que queiram aparecer. Todos aglomerados e num esforço monumental para conseguir caber no enquadramento da reportagem para o telejornal. Empurrões e cotoveladas, ao nível da cintura, mas respeitando a hierarquia governamental: coitado do que fique a eclipsar o presidente da Câmara! Há sempre um motivo para visitar um município da cor política, mesmo que seja para entregar os mesmos elogios que o executivo socialista entregou quando estava no poder. E mesmo que o director (ou patrão) tenha na parede do escritório uma fotografia gigante a dar um abraço ao António Costa, seguramente, vai pegar naquela moldura e substituir pelo mesmo abraço vigoroso e impostor ao Montenegro. A hipocrisia está na rua e promete atingir níveis histéricos. De propósito, não mencionei os munícipes. Afinal, neste grandioso espectáculo de marionetas e engravatados sem escrúpulos, o povo é quem menos ordena.