2026/10/16

EXTORSÃO À MESA DO CAFÉ

Fazer vida de cidadão comum em Portugal transformou-se numa modalidade financeira de alto risco, onde a mera subsistência exige dotes de acrobacia contabilística. Enquanto a inflação cavalga desgovernada e o custo de vida atinge patamares dignos de ficção científica, os salários nacionais permanecem de tal forma petrificados no tempo que parecem protegidos por uma comissão do património cultural. Do supermercado à factura da electricidade, tudo subiu a um ritmo alucinante, mas é na restauração que a extorsão atinge contornos verdadeiramente dramáticos. Hoje em dia, entrar num café para tomar uma simples bica e comer um pastel de nata exige a mesma coragem financeira que comprar um lote na Quinta do Lago. O leitor atento já terá reparado que o cidadão médio caminha pelas vias públicas com mais pavor de se sentar numa esplanada inadvertidamente do que de cruzar-se com um bando de meliantes numa viela escura; na rua, o assalto é uma eventualidade infeliz, mas ao balcão a limpeza da carteira é uma certeza matemática garantida — e passada com factura e número de contribuinte. 

Com o pretexto omnipresente da crise global e das flutuações dos mercados, os preços sobem à velocidade da luz, mas o recheio das nossas algibeiras continua teimosamente fixo na era do escudo. Aventurar-se num restaurante para um jantar banal tornou-se um exercício de masoquismo económico, em que a leitura do menu se assemelha à consulta de uma lista de licitações de obras públicas. E o mais angustiante deste espectáculo grotesco é a absoluta ausência de um final feliz no horizonte. Escorados na resignação típica do tuga, assistimos impávidos a este encarecimento sistemático da existência, cientes de que a única coisa que não aumenta é o valor do nosso trabalho. Resta-nos a amarga consolação de ir encolhendo os ombros enquanto pagamos a conta, sabendo que, a este ritmo, num futuro não muito distante, o simples ato de respirar o ar da esplanada virá discriminado na taxa de serviço como um extra de luxo.

2 comentários:

  1. Já é preciso actuar com prudência quando se trata de levar a amiga a jantar. Para não parecer pindérico e para não ficarmos arruinados.
    Mas a causa principal está no turismo: os portugueses passaram a pagar pela bitola dos estrangeiros ricos.

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  2. Já é preciso actuar com prudência quando se trata de levar a amiga a jantar. Para não parecer pindérico e para não ficarmos arruinados.
    Mas a causa principal está no turismo: os portugueses passaram a pagar pela bitola dos estrangeiros ricos.

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