2026/10/07

A PÁTRIA DAS CHUTEIRAS DEFUNTAS

Decorre a Liga das Nações e, contra todos os prognósticos da nossa desgraça de estimação, a selecção soma quatro vitórias consecutivas a jogar bem e bonito. Mas ser português é isto: uma miséria moral crónica que prefere o desespero da calculadora à harmonia do relvado, onde o terço e a contabilidade das dores continuam a ser extensões anatómicas das nossas mãos. Vivemos num folclore perverso e bipolar, incapazes de celebrar o mérito colectivo porque nos falta a habitual montanha-russa emocional da desgraça iminente. Preferimos a ilusão de ver uma glória caduca a arrastar-se em campo — ultrapassada por um camelo e tão útil quanto uma viola num funeral — só para manter o culto da personalidade. Elevamos o passado ao estatuto de fetiche intocável para, na prática, boicotarmos o presente brilhante que temos diante dos olhos. O futebol entre nós deixou de ser sobre bola na rede para se converter numa feira de vaidades, onde a lucidez é sacrificada no altar do egocentrismo.

Por entre este circo de bancada, emerge a ironia bizarra de uma nação que parece desejar a própria miséria desportiva. Subitamente, o bom futebol e as exibições convincentes tornaram-se um embaraço para os órfãos do drama, que invocam agora uma alegada dívida eterna de gratidão a Ronaldo por "ter dado a conhecer Portugal" ao mundo — como se a nossa existência dependesse de marcas comerciais e golos de outrora. Neste particular campeonato do absurdo, chora-se a ausência do caos enquanto se exige veneração messiânica, esquecendo convenientemente o verdadeiro fundador da Pátria. Se a memória nacional fosse justa, esse agradecimento estaria reservado a D. Afonso Henriques, que à bofetada e à espada rasgou os limites desta nação, mas de quem ninguém parece lembrar-se na hora de prestar vassalagem. O mérito e a entrega dos que hoje correm e encantam no relvado mereciam certamente mais respeito do que esta pequenez tacanha que deseja o fracasso da equipa só para alimentar o ego de quem já não tem pernas para o jogo.

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