2018/11/19

BRUXARIA E LOJAS CHINESAS

Os que seguem as minhas crónicas, certamente, já não se espantam com a minha capacidade de encontrar títulos sugestivos. Sabem até que, por vezes, vale mais que o próprio texto, mas se chegaram até esta linha – depois de ler o título – sem se benzerem, agradeço a coragem e garanto que podem ler o restante, sem qualquer tipo de risco para o físico ou para a carteira. Os habitantes de Terras Tugas acreditam na sorte. Basta ficar atento à quantidade de gente que anda, para aí, a esfregar raspadinhas! A sorte e o azar são excelentes desculpas para justificar aquilo que parece não ter razão óbvia de ser. Tendo em conta o número de especialistas africanos, com consultório cá, acredito que o oculto arranja muitos clientes! Recordo que esta é uma crónica de ficção, qualquer semelhança com situações da vida real terá sido meramente coincidência. Achei importante esclarecer este ponto… não vá o Diabo tecê-las!

Durante várias semanas, um grupo de alunos ensaiou uma peça de teatro. O dia da estreia tinha chegado! Tudo estava pronto, apesar dos nervos. Minutos antes da subida do pano – quando chegou perto das escadas de acesso ao palco – uma das actrizes sentiu-se mal e desmaiou. Em pânico, alertaram os professores e solicitaram auxílio médico. A notícia chegou aos restantes membros do elenco. Quando se aproximaram, uma outra actriz sofreu o mesmo sintoma. Pumba! Caiu para o lado! Ao verificar tamanho aparato – e cenário de guerra, com duas vítimas no chão – uma das professoras mais velhas, deu azo aos seus conhecimentos místicos e, sem qualquer sombra de dúvida, diagnosticou o Mafarrico como o principal culpado da situação. Coisa ruim pairava no ar… Para tratar da saúde ao espírito maligno que andava a fazer das suas – estilo Fantasma da Opera – foi comprar velinhas para purificar o ambiente. Não havendo lojas de especialidade em artigos de mau-olhado, aviou-se na loja do chinês perto da escola. Pelo menos, não gastou muito dinheiro… Regressou à escola ao mesmo tempo que a ambulância. Determinada, acendeu as velas aromáticas enquanto os paramédicos tratavam as duas pacientes e restantes reclamações pelo tremendo pivete emanado pelas velas. As miúdas recuperaram os sentidos e, felizmente, nada de grave se passou. Talvez um ataque de ansiedade causado pela estreia da peça. No entanto, ainda hoje se debate quem salvou a situação: a ciência ou o misticismo.

Caro leitor, não pretendo fazer qualquer juízo de valor em relação a este debate! É uma decisão pessoal e cada um tem a liberdade de escolher o que mais lhe convém! Tal como os fanáticos da raspadinha! Contudo, seja qual for a vossa escolha, tenham em conta que devemos trabalhar com a dignidade que a situação nos impõe. Afinal, a luta entre o bem e o mal dura há imensos séculos e, com certeza, nenhuma força demoníaca gosta de ser enfrentada com recurso a material manhoso das lojas chinesas! Chega a ser desprestigiante! É ter isso em atenção! Afinal, dizem que o Inferno é mau, mas como isto está, qualquer dia, por cá será bem pior…
 

2018/11/06

DIALECTOS DA CARTEIRA

Música. Não é para qualquer um. Mas isso não impede que qualquer um tente realizar um dos sonhos mais pretendidos, ser cantor. Mas, antes de arriscar numa carreira será melhor procurar ajuda dos cantores mais experientes… Em Outubro de 2016, os habitantes de Terras Tugas (que assistiam ao programa do Manuel Luís Goucha) ficaram estupefactos com a actuação da Maria Leal. Nome desconhecido até então. O vídeo da sua actuação tornou-a num fenómeno da Internet, arrecadando mais de três milhões de visualizações no YouTube, em menos de um ano. O mesmo período que fez disparar a venda de aparelhos auditivos…

Dois anos depois, o canal televisivo Sic resolveu emitir um programa sobre a sua ascensão meteórica rumo ao estrelato, passando pela principal fonte de rendimento: o seu marido. Aliás, o foco do programa incide sobre ele. Francisco D’ Eça Leal, nascido vinte anos depois da cantora. Um jovem fragilizado com registos de esquizofrenia e com sérios riscos de ficar paraplégico, depois de se ter atirado de uma janela do Hospital Julio Matos. Herdeiro de uma fortuna avaliada em um milhão de euros viu a cantora entrar na sua vida com promessas de amor eterno com cartões de crédito! Em três anos, este amor tórrido fez desaparecer grande parte da herança. Francisco, que ainda continua oficialmente casado, viu desaparecer o seu grande amor, três imóveis e todo o dinheiro. Vive sozinho, com a ajuda da mãe e da Santa Casa da Misericórdia. O pobre Francisco ainda não tem a noção do que se passou. Parece um viajante do tempo que ainda não se apercebeu em que ano está! Diz acreditar na justiça. A mesma que não consegue intimar a cantora para se apresentar em tribunal por desconhecer o seu paradeiro. Bastava aceder à página do Facebook para descobrir quais as cidades que ela vai infernizar brevemente! A justiça tem limitações, temos de aceitar! Penso que o único interveniente feliz desta história é o dono da loja de artigos chineses, no qual, a cantora gastou mais de 1.500 euros! Penso que, com tanto dinheiro, o homem fechou a loja, rumou à China e reformou-se!

Os dialectos da carteira têm dias assim! O amor platónico pode ser mais curto que uma viagem de táxi. Não há limites para a ganância humana e, mesmo sem qualquer talento ou atributos físicos extraordinários, a sua carreira continua. Tem fãs espalhados por todo o nosso país. Conseguiu mediatismo à custa do oportunismo, falta de escrúpulos e herança choruda. Contudo, nesta parte final da crónica, ainda não decidi se devo culpar a atitude activa da cantora, ou a extrema passividade e ignorância do rapaz! De qualquer forma, a vida continua e um programa de televisão – que dignificou a imagem do Ribeiro Cristóvão – já não tem a capacidade de conseguir parar um país. A indignação é efémera e, certamente, muitos dos que estão a ler já se esqueceram do que viram. Abençoadas redes sociais e programas matinais! Volta Zé Cabra, que estás que perdoado…
 

2018/11/02

REFÉM TECNOLÓGICO (A SEQUELA)

Fosse esta crónica um episódio de uma qualquer série de grande sucesso (pois não faço a coisa por menos!) e a introdução – ou resumo do que se passou anteriormente – mostraria que estive em Lisboa, para a Feira do Livro e que, sendo eu alérgico às novas tecnologias, resolvi levar emprestado o telemóvel da minha esposa. Pelo menos para conseguir tirar algumas fotografias. E como puderam ler, ainda nem sequer tinha saído do aeroporto e já estava a fazer asneiras… Antes do certame – e como nada se consegue fazer com a barriga vazia – resolvi satisfazer uma das mais básicas necessidades conhecidas: a fome! Entrei num café, fiz o pedido e transportei-o num mísero tabuleiro de plástico até à mesa. Digam lá, nada como o self-service! Como eterno romântico que sou, durante a refeição, resolvi ligar à minha esposa. Tenho a certeza que ela queria saber pormenores sobre a minha chegada… e estado de conservação do seu telemóvel! A típica conversa de casados correu bem: discutiram-se (no bom sentido) os problemas a resolver, as contas a pagar e, principalmente, a previsão de chegada a casa, pois há mais coisas para fazer que andar armado em escritor pela capital... 

Todos estes temas acompanhados de termos carinhosos, como “amor” e “carinho”. E confesso: estando ali sozinho, senti muitas saudades de casa. Antes de desligar o telemóvel – e finalizar a conversa – despedi-me com muitos beijinhos e um “amo-te, amor!”. Envergonhado, é certo. Quando pousei o telemóvel junto ao tabuleiro, reparei que o senhor da mesa ao lado ficou estupefacto a olhar para mim, quase que com vontade de dizer algo, mas sem coragem para o fazer. Para além de ter achado que era um tremendo coscuvilheiro, senti que ficou aterrorizado com algo que viu! Os seus olhos alternavam entre mim e o visor do telemóvel estatelado em cima da mesa. Num vislumbre de olhar, enquanto o brilho do ecrã desvanecia, foi possível verificar o nome da pessoa com quem eu tinha estado a falar, em termos tão apaixonados: “Miguel (marido) ”! Caramba, agora percebe-se o ar assustado do homem da mesa ao lado.

2018/11/01

NUM PERFEITO VAZIO

O meu percurso laboral junto da Metro do Porto atingiu os 2700 dias de condução. Para os amantes da estatística, posso indicar que gastei 21600 horas (da minha vida) aos comandos das composições. Milhares de rostos desconhecidos e olhares que se cruzam sem qualquer familiaridade. De vez em quando recebo um sorriso ou um cumprimento. Gesto demasiado raro numa sociedade que prefere viver com sentimentos negativos. Talvez isso explique a cuspidela no vidro quando passei, sem serviço, na estação de Francos. E, pelo aspecto esverdeado da mesma, aconselho o rapaz – se estiver a ler esta crónica – a procurar um médico! Há mais de quarenta minutos que não digo uma palavra. E sei que ainda falta bastante para terminar esta parte do turno. Estou confinado na cabina de condução sem qualquer distracção ou ligação ao mundo exterior. A única comunicação autorizada é com o posto de comando em caso de anomalia (ou avaria) verificada na rede ferroviária. O relógio parece que se move em câmara lenta. Sinto na pele vários dias a acordar ainda de madrugada, enquanto a cidade dorme. O sono, aliado ao silêncio e à excessiva mecanização de gestos, é um inimigo fortíssimo que se manifesta durante a condução. Que bom seria, de vez em quando, ter alguém com quem falar...

Penso na minha família. Sei que estes turnos não permitem que lhes dê a atenção desejada. Por vezes, para conseguir acompanhar os momentos mais importantes, tenho que fazer mais contas e trocas que o Ministro das Finanças para apresentar o orçamento. Volto a reparar no vidro. A cuspidela já se espalhou e, pelo aspecto esverdeado, fico preocupado com o estado de saúde do rapaz! Tal gesto de animosidade é vulgar e corriqueiro. Esta juventude revela uma crise de valores e falta de educação preocupante. Tendo em conta a facilidade de locomoção e falta de uma fiscalização condigna, o sistema de Metro ligeiro é considerado um paraíso. Tudo é permitido! Lixo, cães de raça sem açaime, fumadores, javardos, etc. E contam com a total passividade e conivência dos restantes utilizadores! Reina a anarquia, que tem a sua expressão máxima com os que resolvem, como trogloditas, bloquear as portas da composição e são os primeiros a reclamar pela mínima avaria, falha ou erro do maquinista. Há um afastamento na relação com os passageiros. Aquele que hoje me cumprimenta, amanhã será o primeiro a exigir a minha crucificação. Mesmo quando o veículo – por razões de frequência e horário – passa na estação sem serviço comercial. Temo pela sociedade que perdeu a vontade de lutar pelos valores e ideais. Agora, procurem o rapaz para o levar ao médico. Aquilo, no vidro, tem mesmo fraco aspecto.
 

2018/10/22

PARA A MINHA ESPOSA

Se escrever que estás casada com um escritor famoso, de certeza que vais soltar duas ou três gargalhadas. Sei que não o fazes com má intenção, mas porque sabes que a fama – estatuto tão procurado pelos mortais – é efémera, relativa e tão difícil de conseguir. Tenho dois mil amigos no Facebook e, certamente, mais de metade já seleccionou a opção “não seguir” em relação ao meu perfil. Não os censuro. Por vezes, nem eu próprio me aturo… Muitos dizem não saber o dia de amanhã. Confesso que fico preocupado com isto, acredita! Se me perguntarem (e sendo hoje Segunda-feira) vou responder que amanhã é Terça-feira! Isto é básico e está num rectângulo de papel, ao qual chamam calendário. Impossível é saber o que vai acontecer. Já muitos tentaram adivinhar, mas sem qualquer sucesso! (lembras-te do Zandinga e do Nhaga?!). Mas imagina que, por um acaso, consigo arranjar um conjunto de leitores – idêntico aos do José Sócrates – que façam disparar o volume de vendas superando o Pedro Chagas Freitas. Será que podes parar de rir?!

Escrevo esta carta para te informar que, se tal acontecer, sabes que vou ser assediado e perseguido por mulheres lindíssimas, estilo actrizes de cinema – e não pelas velhas decrépitas que me enviam mensagens nas redes sociais. Sei que não será pelos meus atributos físicos, porque já os tenho actualmente e ninguém me persegue. Esqueci-me das operadoras de call-center, mas será que as posso incluir na estatística?! Sei que estás comigo por amor e nada mais. Até porque tens conhecimento que o raio do extracto bancário vem sempre a vermelho e com vários avisos (nada simpáticos) do gestor de conta. O raio do homem farta-se de pedir dinheiro! Temos uma história de vida simples. Um conto de fadas de baixo orçamento. Restaurante de luxo – com um faqueiro completo em cima da mesa – não está no nosso horizonte. Para além de necessitar de um manual de instruções, teria de utilizar todo o meu plafond no cartão de crédito e, posteriormente, fraccionar o pagamento em vinte e quatro vezes! Sem juros! Também dizem que a comida gourmet não presta. Será preferível continuar a comprar frango assado no restaurante aqui perto…

Um homem não é de ferro e, sinceramente não me recordo do que fiz há nove anos atrás. É certo que nunca estive na América ou em discotecas tão bem frequentadas como aquela do Ronaldo. Lembro-me de ter estado em Tui para comprar rebuçados. Nada mais. Também sabes que a minha primeira noite, fora de casa, foi passada contigo. Para mim, foi inesquecível. Acordei sobressaltado, à procura do comando, para desligar o ar condicionado e ainda consegui bater com a cabeça na mesinha-de-cabeceira! No entanto, sabes que o estrelato atrai gente mal-intencionada e até são capazes de inventar relacionamentos que nunca tive! Razão pela qual escrevo este manifesto. Minha querida, podes ficar descansada. Jamais serás perseguida pelos órgãos de comunicação social (ou pelo Correio da Manhã) para entrevistas ou comentar escândalos do teu marido. Até porque, para tal acontecer, é necessário subir a escada do sucesso rumo ao estrelato. E eu tenho dias que nem os degraus da entrada do prédio consigo subir…
 

2018/09/01

A CAIXA QUE MUDOU O MUNDO

Nos últimos dias fui atacado por um sentimento nostálgico. A minha memória resolveu abrir a gaveta das recordações e trouxe-me imagens dos serviços noticiosos televisivos de 1991 (a bem dizer, só havia um!). O mundo assistiu estupefacto à Guerra no Golfo. Metade das pessoas nunca tinha ouvido falar no Kuwait e, pela primeira vez, tiveram a possibilidade de assistir a uma guerra em directo! Sim, muitos podem criticar que o cenário era sempre o mesmo e que os mísseis eram disparados sempre no mesmo sentido mas, naquela altura, todos queriam saber os relatos do repórter – algures no deserto da Arábia Saudita – Artur Albarran! Os anos passaram. O jornalismo e as mentalidades modificaram-se. Actualmente há mais probabilidades de assistir a directos televisivos que a filmes ou a telenovelas! Até parece que virou moda! Qualquer acontecimento (ou fofoquice) tem direito a emissão especial, com duas pessoas no local: uma a segurar a câmara de filmar, a outra com um microfone a relatar o que se passa! Mesmo que, por vezes, dê a ligeira sensação de não saber o que está lá a fazer…

A incessante demanda pela verdade e informação implica encontrar revelações bombásticas e em primeira mão. E, como tal, alguns canais de televisão massacram (literalmente) todos os que encontram pela frente, com perguntas descabidas e sem qualquer fundamento. Tudo na emoção do momento e com o objectivo de tentar escalpelizar uma notícia que já deixou de o ser. Com esta ideia em mente – e sabendo que demasiada informação revela trapalhadas e falhas institucionais – comecei a visualizar os sucessivos briefing’s (que chique em estrangeiro!) da nossa Protecção Civil. Estes encontros informativos, com a imprensa nacional para dar conhecimento do que se passa no “teatro de operações”, segue o mesmo princípio da guerra em directo… há 27 anos atrás! Os espectadores ficam agarrados ao ecrã para saber o que se passa com os incêndios! Alguns, de tão perto que estavam da televisão, ficaram com queimaduras! Dada a duração do directo televisivo já não fazem mais nada! Porque é importante saber se já evacuaram a parvónia com três habitantes e sem estradas de alcatrão; se o agente da polícia (a conduzir uma velhinha Yamaha DT) conseguiu avisar todos os habitantes (os três) e se o Ti Manel (que nem médico de família tem) viu passar algum bombeiro!

Em 2017, o nosso Presidente da República deslocou-se de imediato a Pedrogão Grande. O Primeiro-ministro – para não ser repreendido – fez o mesmo. Juntaram-se mais políticos, no centro operacional, que bombeiros! Este ano, perante uma tragédia florestal grave, os políticos resolveram esperar que tido estivesse resolvido. Os afectos (beijinhos e abraços) às vítimas dos incêndios foram mais comedidos. É bem feito! Alguns até nem foram votar! E não digam que foi por falta de transporte! Andar a pé, mesmo sendo 15 ou mais quilómetros, significa fazer exercício físico e os médicos recomendam! Podia escrever mais sobre este tema, mas entretanto começou um novo directo televisivo e eu quero mesmo saber o que se passa! Como está o incêndio e quantas frentes activas tem; quantos homens e viaturas estão no terreno e se há aviões a despejar água. Segundo dizem, não há dinheiro para espuma ou outros meios mais eficazes! Daqui a pouco, vou ouvir especialistas a dissertar sobre o que deve ser corrigido. Não vou conseguir escutar todos… porra, são tantos!
 

2018/08/30

FERIMENTOS LIGEIROS

Admiro o jornalismo sensacionalista como qualquer outra pessoa. O repórter em cima do acontecimento! Isto claro, se o acontecimento deixar e o repórter não pesar muito! Chamem-me antiquado, mas sou dos que prefere tratar as notícias com alguma distância temporal. Tem as suas vantagens: permite recordar algo já esquecido e, por vezes, com pormenores que não foram divulgados à custa da pressa informativa. No caso das peripécias que escolho e abordo, a estupidez não se perde… Em Dezembro de 2016, três rapazolas resolveram brincar aos filmes de acção que se fazem por Hollywood. Pela calada da noite, furtaram uma viatura e dirigiram-se ao centro da Senhora da Hora para assaltar o moedeiro de uma estação do Metro – reparem na grandeza do plano de ataque: assaltar moedas! Como as pessoas passam a vida nas redes sociais e a televisão já não transmite formigueiro a partir das duas da manhã, o barulho que os gatunos fizeram não passou despercebido. As autoridades foram alertadas e, rapidamente chegaram ao local. Teve início uma perseguição automóvel (tal como nos filmes) que acabou em despiste para o grupo de malfeitores. Com a aproximação dos agentes da autoridade – e para evitar a detenção – resolveram recorrer ao mais moderno equipamento bélico para dissuadir polícias: pedras!

Para por um fim a esta sequência de “toca e foge”, enquanto decorria a chuva de calhaus, um agente da autoridade efectuou um disparo (com arma verdadeira). Desconheço para que parte do corpo fez pontaria, mas o destino da bala foi… a nádega direita do assaltante! Depois disto – e perante tamanho choque com a realidade – interrompeu o arremesso das pedras e ficou deitado, no campo de cultivo, a aguardar (com dores) a chegada das equipas de socorro. Foi transportado para o Hospital Pedro Hispano. Estava consciente e foi considerado “ferido ligeiro”! Deixo um pequeno, mas importante aviso aos que pensam dedicar esforços ao mundo do crime e, quem sabe, protagonizar a sequela deste assalto: sujeitar e vulgarizar o rabo por um punhado de moedas, é coisa para estragar a reputação a qualquer criminoso. É ter isso em conta…
 

2018/07/23

O ESTADO DA NAÇÃO

Os habitantes de Terras Tugas são conhecidos pela hospitalidade e capacidade de mobilização para ajudar alguém em apuros. As pessoas emocionam-se e, de coração aberto, abrem os cordões à bolsa para contribuir conforme podem. Acreditam cegamente nas intenções e oferecem sem fazer perguntas. Tanta ingenuidade tem vindo a captar as atenções dos que recorrem a esquemas para extorquir dinheiro. Os «vigaristas plenus» conseguem inventar desculpas para que os «parolos maximus» dispensem o dinheirinho que tanto custou a ganhar! A fraca (ou nenhuma) resposta das autoridades ajuda a que mais vigaristas apareçam. Porque resulta! E vergonha… parece ser apenas um adjectivo! Como tal, confesso que foi sem qualquer espanto que recebi a notícia (publicada na revista Visão) que mais de meio milhão de euros foi desviado do fundo de ajuda às vítimas de Pedrogão Grande. Há enorme indignação porque foram reconstruídas casas devolutas (que não foram afectadas pelo incêndio) e até – pasmem-se – ruínas! Recorrendo a esquemas manhosos (com ajuda de gralhas nos requisitos da instituição responsável), sete casinhas ficaram impecáveis… e de graça! Enquanto as verdadeiras vítimas assistiram impotentes a tudo isto…

Graças a uma investigação jornalística – melhor informada que as próprias autoridades – muita gente ficou nervosa e em sobressalto. Contudo, este sentimento de culpa vai desvanecer nos próximos dias. O estado da nação não permite que alguém, capaz dum esquema destes, seja condenado ou preso. Aliás, a cadeia serve apenas para os criminosos mais rascas da sociedade. Cometeram crimes sem imaginação ou valor significativo e foram castigados por isso. Fosse o crime grandioso e a conversa seria outra! Basta ver os nomes importantes que (ainda) estão em lista de espera… Há muitas outras situações em que o “chico-espertismo” se sobrepõe às leis. Inclusive, o exemplo vem dos próprios deputados e respectivas maroscas com a morada de residência para conseguir mais uns trocos com ajudas de custo. Compreende-se, o salário deles é baixo! Sabemos que há pessoas a morar em casas camarárias (com um aluguer simbólico) quando o parque automóvel está repleto de viaturas de gama média-alta. Podia continuar com mais situações, mas penso que já perceberam que tudo se resume a uma frase: anda meio mundo a enganar a outra metade. Ou pelo evoluir dos tempos, em breve, não haverá ninguém para enganar…
 

2018/07/20

O MUNDO AO CONTRÁRIO

Segundo os cálculos científicos, já atingi metade da esperança média de vida. Fazendo as contas – e se tudo correr bem – restam ainda quatro décadas. O que, de facto, é uma óptima notícia para o meu gestor bancário e crédito habitação. Sim, quando estiver velho e caquético, vou poder dizer (se me lembrar, claro!) que sou um orgulhoso proprietário de uma casinha! Até lá, tenho uma parceria com uma tal de dona hipoteca, que nunca vi, mas está sempre presente! Quem casa, quer casa. Um dos ensinamentos que atravessou gerações. Contudo, os últimos tempos registaram mudanças comportamentais a um ritmo alucinante! As gerações mais velhas, que sempre foram consideradas fonte de sabedoria, são as principais vítimas. Hoje, uma conversa entre avós e netos é tão disfuncional que até pode ser em japonês! Não se entendem! Há um tremendo fosso de conhecimento entre eles. A infância dos mais velhos foi ao ar livre, com jogos tradicionais e brinquedos improvisados e todos eram amigos. Mesmo que uma qualquer discussão fosse resolvida a murro. No final da tarde, estavam todos (mesmo o que ficou com um olho negro) a planear o dia seguinte!

Actualmente, nada é feito sem a presença de um tablet ou telemóvel de última geração com recurso ilimitado às redes sociais. Os anciões, e seus conselhos válidos, estão desactualizados (alguns ainda se assustam quando descobrem que se utiliza um rato para mexer no computador. Ficou esperto o fuinha…). Compete aos jovens (os principais beneficiários desta actualização instantânea e mudança de valores) ter em conta a reintegração dos idosos na sociedade. Explicar-lhes que a democracia tem outros contornos e que, nestes tempos modernos, as leis são impostas pelas minorias. Haja quem explique à Ti Maria que a sua miserável reforma (calculada por uma forma aritmética indecifrável) pode desaparecer num rápido assalto. E que o meliante tem melhores armas que a polícia. Digam também ao Ti Manel, um mulherengo assumido – com várias conquistas amorosas no curriculum – que já não pode mandar piropos, ou comentar em voz alta os atributos das senhoras. Corre o risco de levar com uma manifestação à porta do centro de dia e ainda, uma multa bem pesada pelas autoridades. Coitado, com o que recebe de reforma, ficava sem comer sopa durante quinze dias...
 

2018/06/01

A CULPA É DA EMEF

A nossa cultura incide no momento. Os Tugas preferem as soluções imediatas de desenrasque do que planear atempadamente seja o que for. Se correr mal – e vai, de certeza – será mais fácil justificar a incompetência com razões misteriosas do oculto ou simples falta de sorte. A maioria dos órgãos de comunicação social contribuem para esta cultura. À excepção da crise do Sporting ou qualquer amuo do Cristiano Ronaldo (como se ele tivesse razões para estar amuado!) todos os assuntos ou notícias são espremidos, em directo, durante um dia inteiro. Depois disso, cai no esquecimento. As greves são um exemplo fantástico! Emissões com directos constantes com intervenções das partes em conflito. (Se bem que usar a palavra conflito não faz muito sentido porque, no final, todos ganham e ninguém percebe como calcularam as percentagens.) No dia seguinte, todos voltam à rotina diária sem qualquer consequência prática. Todas as greves que presenciei provaram ter este efeito. O dia da greve causa atrasos, transtornos aos mais distraídos e menos prevenidos financeiramente e mais coisas que se possam lembrar. Já o dia seguinte chega pleno de normalidade sem que alguém se recorde o motivo da greve. Afinal, conforme diz o povo, são sempre os mesmos às turras!

Contudo, a última greve nos transportes públicos foi diferente! A EMEF (Empresa Manutenção Equipamento Ferroviário) – desconhecida pela maior parte dos utentes do Metro do Porto – é considerada a grande responsável pela alteração de horários e frequências dos veículos da rede da operadora. O caricato é que a greve terminou há cerca de um mês! Mesmo assim, diariamente, os painéis de informação das estações fazem questão de passar a informação que, basicamente, a culpa é da EMEF. Desta vez, ninguém pode dizer que tudo ficou na mesma! Os utentes (mesmo os que não pagam bilhete) queixam-se da falta de veículos, condições e horários. No entanto, sem alternativa, habituaram-se a aceitar esta nova realidade. Ninguém sabe por quanto tempo. Isso implica uma resposta do governo e, como sabem, os senhores ministros estão ocupados com outras coisas. Até lá, está resolvido: os utentes sabem quem devem culpar! E, mesmo que, contrariamente às previsões meteorológicas, amanhã chova… a culpa é da EMEF!
 

2018/04/06

UM PONTAPÉ NAS BOLAS

É um tema muito complicado para abordar. O futebol é o único assunto que consegue provocar discussões, destruir amizades e, por vezes, partir alguns ossos aos Tugas. As mentalidades evoluíram, mas continua a ser mais fácil perdoar a um qualquer político que rouba em proveito próprio que a um árbitro que não marcou um penalty ou invalidou um golo. Toda esta paixão exacerbada transformou os clubes em empresas e temos, actualmente, toda uma panóplia de pessoas que se alimentam dos adeptos e sua disponibilidade para gastar dinheiro. Em nome do clube, claro! Ser Tuga e não gostar (ou não perceber a arte da bola) é como uma criança que não gosta de gelados ou até de hambúrgueres nas lojas de fast-food que todos conhecemos. Se tal acontecer, é porque algo não está bem! É levar o puto ao médico quanto antes. O mundo da redondinha é bem mais aliciante que o mundo dos estudos. E, claro, os salários também. Mesmo que não se tenha jeito para correr, fintar ou dar pontapés nas bolas há outras alternativas. Curso de treinador, director desportivo ou, quem sabe, presidente de um clube. Nenhuma destas possibilidades serve? Resta dirigir uma claque desportiva. Antes que descartem esta hipótese, leiam o resto da crónica (vá lá, já que chegaram até aqui) e fiquem a saber o que têm vindo a perder. Tenho de referir que – conforme tem sido meu hábito – os textos não procuram ataques pessoais, mas sim, a ironia patente nas situações abordadas. Que o humor tenha capacidade para “acordar” algumas consciências adormecidas…

O país está uma merda! Sabemos disso. A palavra corrupção tomou conta dos serviços noticiosos e, neste momento, quem não tem “cunhas” ou “favores a pedir” é considerado um grande otário! E a reputação do lado negro é proporcional ao valor “metido ao bolso”. Há perdões de dívidas milionários para o Ricardo Salgado enquanto para a Tia Micas – que não pagou uns míseros trocos – vai uma nota judicial com arresto de bens e ameaça de cadeia. Porque é importante tratar sem clemência os que mais lesaram o Estado Português: os que roubam alguns cêntimos! Este sentimento de inércia e marasmo permitiu-me assistir, impávido e sereno, à chegada do líder de uma conhecida claque desportiva para a sua última sessão judicial no Tribunal. Fez jus ao estatuto de estrela de cinema (atribuído pela comunicação social) e conseguiu surpreender por se ter feito deslocar numa viatura “Lamborghini”, cujo valor ascende aos trezentos mil euros. Certamente, muitos já encaram com bons olhos a possibilidade de seguir carreira política numa claque desportiva em vez de pagar propinas e sofrer todas as dificuldades do sistema de ensino público. Nas palavras imortais do antigo seleccionador nacional Luíz Filipe Scolari: “E o burro, sou eu?”. A resposta é simples: sou, sim senhor!
 

2018/03/01

O NOVO COMUNISMO

A tecnologia e inovação fartam-se de criar bugigangas e maquinetas para melhorar a nossa qualidade de vida, conforto e segurança. A indústria automóvel é o grande exemplo deste esforço. Longe vão os tempos em que um carro era construído à mão durante uma semana e de forma anárquica. No entanto, ao consultar a história é possível verificar que não foi assim há tanto tempo! E, ao contrário do século passado – em que nas nossas estradas passava um carro a cada três horas – actualmente arrisco dizer que há mais carros que pessoas! As próprias empresas de crédito permitem acesso fácil ao endividamento. Mesmo que a duração do empréstimo seja maior que a duração do carro! Este consumismo desenfreado afecta a economia nacional e há forças políticas que reprovam tamanho desperdício de dinheiro: os comunistas! O mundo está em constante mudança e já ninguém acredita no mito que envolvia os comunistas e as criancinhas ao pequeno-almoço. Perderam a força de outrora e vão resistindo apenas em alguns países mais teimosos. Por cá conseguiram integrar o governo por via de um acordo entre partidos que conseguiu subverter o sentido de voto dos Tugas. Afinal, quem ganhou as eleições ficou de fora!

Este acordo – a geringonça – verificou-se, de igual modo, em algumas câmaras municipais. Em nome da estabilidade democrática, membros do partido comunista aceitaram abdicar dos seus princípios e estatutos para servir de muleta governativa e, desta forma, conseguir emprego durante quatro anos. Que fique claro: nada me move contra os apoiantes desta ideologia política! Os ideais adaptam-se às novas necessidades. Já é possível encontrar Coca-Cola e McDonald’s na Rússia! Os Chineses, que tanto defendem as suas marcas nacionais, começam a comprar viaturas germânicas quando chegam à Europa. E, como tal, não me admira que alguns deputados, vereadores e outros eleitos pelo partido comunista – que educa os seus membros e orienta a sua actividade no espírito da fidelidade à causa da classe operária, dos trabalhadores e do povo português e à defesa dos interesses nacionais – se sintam na necessidade de adquirir (pago pelos nossos impostos) viaturas topo de gama de valor superior a 65.000,00 euros. Avante, camaradas! Porque, certamente, ninguém está à espera de um acto revolucionário para ter o prazer de conduzir a tecnologia patente num “Lada”, “Zastava Koral” ou “Moskvitch 412”. É preciso não esmorecer e continuar a lutar contra a exploração e opressão capitalista! Mas, com as devidas condições.
 

2018/02/02

O PODER DA SUPERNANNY

Duas emissões semanais de um programa televisivo foram suficientes para agitar as águas no Ministério Público e obrigar o canal televisivo “Sic” a interromper a exibição do terceiro programa. O que prova que o nosso sistema jurídico, quando quer, até sabe como trabalhar devidamente! A pergunta impõe-se: que programa é este que causou tanta polémica? Recorrendo a uma das mais úteis invenções tecnológicas dos últimos tempos – a box com gravações automáticas – tive oportunidade de assistir ao primeiro episódio. Uma mãe em apuros com a sua própria filha. Birras, ausência de autoridade, recusa em tomar banho, etc. Depois de ouvir este grito desesperado por ajuda, eis que a Supernanny entra em cena! Teresa Paula Marques. Uma figura feminina, autoritária e vestida como um ministro do Parlamento, entra em casa para presenciar as atitudes maléficas do pobre petiz. Depois de observar e registar os actos demoníacos – que têm levado a mãe e avó à loucura – a super-ama (em português) apresenta as soluções enquanto passa um atestado de incompetência às adultas lá de casa. Em pouco tempo (porque o programa televisivo é curto e a maior parte foi preenchida com o lado negro da criança) as soluções provam-se eficazes e a miúda nem parece a mesma! Eureka! Sucesso! O poder da Supernanny salvou o dia! Acabou a rebeldia!

É claro que se pode discutir a questão da privacidade da criança, da exposição mediática e até, a questão de tudo isto ter sido feito por dinheiro. Sabemos que a busca por audiências implica, cada vez mais, programas mais chocantes e de baixo nível. Por Terras Tugas há ainda muita gente que não tem noção deste oportunismo por uma qualquer produtora. Razão pela qual os outros pais solicitaram o cancelamento das restantes emissões… depois de terem aceitado gravar. Perdi quarenta minutos a assistir a um programa – que usa o mesmo formato que aquele do cozinheiro que anda pelas cozinhas imundas e deixa tudo a funcionar de maneira brilhante – e veio-me à memória um fantástico filme: O Exorcista. Estreou em 1974 e relata as peripécias de um padre que entra numa casa para combater uma criança endiabrada. A seu lado uma mãe desesperada. As semelhanças são evidentes. Contudo, no filme era um demónio terrível, quarenta anos depois é apenas a educação. Ou a falta dela!